Conversas familiares ajudam a construir repertório político tanto dos pais quanto dos filhos, além de transformar polarização em reflexão
A família tem grande influência na construção das escolhas políticas dos adolescentes que vão votar pela primeira vez. Por outro lado, os jovens também ajudam a atualizar o olhar dos adultos sobre o mundo.
Neste ano, Moisés e Davi vão às urnas pela primeira vez. Antes de decidir o voto, os irmãos combinaram de pesquisar com profundidade as propostas e o histórico dos candidatos para fazer uma escolha consciente e têm aproveitado as notícias para discutir com os pais sobre as eleições.
“Minha mãe comentou que aprende mais comigo e com meu irmão sobre política e sobre quem são os melhores candidatos do que ela mesmo pesquisando na internet”, conta Moisés, 18 anos. “Eu procuro pesquisar e me informar sobre os políticos indo além dos reels e vídeos curtos que circulam por aí.”
A construção das escolhas políticas dos adolescentes costuma acontecer muito antes do primeiro voto e o ambiente familiar tem grande influência nessa decisão. Entre 1.500 eleitores brasileiros com 18 anos ou mais, de todas as regiões do país, 81% votaram no mesmo candidato para presidente que seu pai e mãe no segundo turno de 2022, revelou a pesquisa “Política: transmissão geracional”, realizada pelo Instituto Locomotiva. Somente 7% disseram ter tido um voto diferente tanto do pai quanto da mãe.
Em contrapartida, “em famílias onde há diálogo, adolescentes podem abrir frestas em certezas antigas, trazendo temas que antes não entravam na lista de prioridades dos adultos”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. “A polarização tenta transformar a diferença em muro. A conversa familiar pode transformar a diferença em reflexão.”
O Brasil possui 5,8 milhões de adolescentes entre 16 e 17 anos. Até o mês de fevereiro, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), somente 1,8 milhão de adolescentes havia feito o cadastro eleitoral para participar das eleições presidenciais deste ano. Nessa faixa etária o voto não é obrigatório.
Na casa de Heitor, de 16 anos, a política também pauta as conversas. Os pais fazem questão de discutir o assunto e, principalmente, de ouvir a opinião do adolescente, que neste ano vai votar pela primeira vez.
“A gente conversa muito sobre política, muito mesmo. Há temas que concordamos e, em outros, discordamos”, conta Heitor. “Eles me dão a base do que acreditam ser o certo para eu tomar minhas decisões, mas eles não ficam tentando impor o desejo deles. Eles me ouvem bastante e eu também gosto de ouvi-los.”
Na casa de Emylle, 18 anos, os pais a deixam “bem aberta” para escolher seus candidatos. “Meus pais falam para eu pensar direitinho com meu olhar de jovem e se precisar, peço o ponto de vista deles.”
Apesar de aprender com os familiares, é comum Emylle precisar desmentir fake news que circulam entre eles. “Preciso explicar que algo não foi bem daquele jeito que aconteceu. Querendo ou não as pessoas mais velhas têm a ‘cabeça mais dura’ e têm mais dificuldade de entender.”
Emylle é a filha caçula da família e se diz a “rebelde”, mas acredita que a escolha dos candidatos será parecida entre todos. Apesar disso, ela não se sente pressionada ou obrigada a seguir este caminho, caso não queira. “Vemos que algumas pessoas já têm um caminho porque é influenciada pela família.”
Embora não seja o caso de Heitor, ele acredita que muitos pais e familiares “dão uma empurradinha” para que os adolescentes votem nos mesmos candidatos que eles.
Quando adolescentes perguntam, discordam, escutam e argumentam, ajudam a família a sair da repetição automática de opiniões, como diz Meirelles. “O engajamento dos mais jovens não significa substituir a opinião dos adultos, mas estimular um ambiente em que o voto seja mais refletido”, afirma. “Uma família que aprende a conversar sobre política sem romper vínculos já está praticando cultura democrática. Democracia também se aprende dentro de casa.”
A pesquisa do Locomotiva mostrou ainda que 59% dos eleitores conversam sobre política com a mãe e 56% com o pai, e a maioria dessas conversas é tranquila. Mas embora os familiares os influenciam, não significa que os adolescentes sejam espectadores da política.
Renato Meirelles lembra que os adolescentes chegam em casa com repertórios que muitas vezes os pais não tiveram: redes sociais, debates escolares, novas linguagens e novas causas. “O voto ainda carrega uma transmissão familiar forte, mas os filhos também ajudam a atualizar o olhar dos adultos sobre o mundo.”
Ele reforça que, com esse cenário geracional, agendas como mudanças climáticas, direitos humanos, diversidade e igualdade de gênero chegam às famílias menos como teoria e mais como experiência concreta.
“O adolescente fala do colega que sofreu preconceito, da menina que tem medo de voltar para casa sozinha, do calor extremo, do racismo, da violência contra mulheres, da diversidade que ele convive no cotidiano”, explica Meirelles. “Quando um tema deixa de ser abstrato e passa a ter rosto, nome e história, ele muda de lugar. Embora possa não transformar imediatamente o voto dos pais, amplia a lente pela qual eles avaliam candidatos, propostas e prioridades.”
A internet ocupa um papel central na formação política dos adolescentes. Como passam boa parte do tempo nas redes sociais, eles tendem a acompanhar candidatos que dominam essa linguagem e conseguem estabelecer maior proximidade com esse público.
Para Heitor, o discurso mais “provocativo” faz sucesso entre muitos colegas. “Alguns candidatos vendem soluções mágicas para os problemas do país, e isso pode convencer quem vai votar pela primeira vez”, afirma.
Ele acredita que a falta de conhecimento sobre o funcionamento das instituições favorece esse tipo de discurso. “Algumas pessoas são muito ingênuas e não entendem que o presidente, mesmo eleito, não pode fazer o que quer. São muitas camadas, não estamos em uma ditadura. Minha mãe me explica que há muitas ideias que não fazem sentido.”
Moisés chama atenção para outro fator: os algoritmos das plataformas. Para ele, o problema não se resume às fake news, mas também à forma como as redes selecionam e reforçam determinados conteúdos. “Os algoritmos fomentam e retroalimentam determinados conteúdos e temas que a gente consome no dia a dia com base nas preferências preestabelecidas. Isso influencia a forma como os jovens entendem o meio político.”