Como romper com a rejeição ao feminino na criação dos meninos?

A formação da identidade masculina muitas vezes começa pela rejeição do feminino. Saiba como mudar esse padrão e fortalecer a saúde mental dos meninos.

Ylanna Pires Publicado em 27.04.2026 Atualizado em 06.05.2026
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Resumo

A educação de meninos frequentemente nega a sensibilidade. Psicólogos e pesquisadores detalham os impactos dessa lógica na saúde mental e apontam mudanças cotidianas para as famílias ampliarem o repertório emocional dos filhos.

Um telefonema da escola altera o rumo de uma tarde comum. O filho de 14 anos de Pétala Moura estava praticando bullying contra colegas meninas — frases machistas e apelidos chamaram a atenção dos professores. “Ouvir que meu filho estava sendo o autor de frases machistas me trouxe uma culpa imensa”, conta ela. O primeiro instinto foi entender o que ele estava consumindo na internet. O segundo foi olhar para dentro de casa.

Foi assim que Pétala percebeu como hábitos rotineiros estavam ajudando a moldar o que o filho entendia por masculinidade. Nos almoços de domingo, os tios faziam piadas misóginas que todos riam como se fossem normais. O filho via naqueles homens — as referências masculinas mais próximas que ele tinha — um modelo de validação. “Percebi que ele não estava criando aqueles comportamentos do nada. Ele estava reproduzindo o que via os primos e tios mais velhos falarem sobre mulheres.”

A família de Pétala não é uma exceção, e a culpa que ela sentiu também não precisa ser. Como podemos criar meninos que não temam e não rejeitem tudo o que é feminino?

Quando “ser homem” começa pelo que não se pode ser

A psicóloga e PhD em Psicologia Forense Arielle Sagrillo chama esse processo de masculinidade por via negativa. Muito antes de aprender o que pode ser, o menino aprende o que precisa evitar. Isso costuma envolver tudo aquilo que a cultura associa ao feminino.

Arielle Sagrillo, psicóloga e PhD em Psicologia Forense, fala sobre masculinidade e meninos
Arielle Sagrillo, psicóloga e PhD em Psicologia Forense

Frases como “não chora, isso é coisa de mulherzinha”, “você parece uma menininha” ou “isso é coisa de mulher!” são desde cedo repetida aos meninos como formas de repreensão de qualquer comportamento mais sensível.

“O menino que chora é ridicularizado, o que gosta de cuidado ou delicadeza é policiado”, explica Arielle. “Essa ‘fobia do feminino’ opera como um mecanismo disciplinador que ensina, cedo, quais condutas são corretas para pertencer ao grupo.”

O efeito desse conjunto de restrições vai empobrecendo o repertório emocional de formas bem concretas: chega assim a um momento em que o menino já não sabe distinguir tristeza de irritação, medo de silêncio, frustração de agressividade.

O que fica quando só a raiva pode existir

Sobre essa “panela de pressão” criada ao redor da masculinidade, Pedro Figueiredo, idealizador do MEMOH, ecossistema de educação e conteúdo sobre o tema, descreve como isso aparece na prática. Ele lembra de um amigo que, sempre que alguém perguntava como ele estava, respondia apenas: “estou puto.” Não por mau humor. Simplesmente porque não tinha outra palavra disponível para o que sentia.

Pedro Figueiredo, idealizador da MEMOH, fala sobre masculinidade e meninos
Pedro Figueiredo, idealizador do MEMOH

“A raiva acaba se tornando a única emoção socialmente autorizada — e, em certa medida, incentivada”, analisa Arielle. Para Pedro, a consequência mais drástica é conhecida: a taxa de suicídio no Brasil é quatro vezes maior entre homens do que entre mulheres. Mas ele insiste que isso é só a ponta do iceberg. “Violência criminal, acidentes de trânsito, abuso de substâncias — a gente não consegue nem pedir ajuda, mesmo quando sabe que precisa muito.”

O que os dois especialistas descrevem não é uma crítica às famílias. A maioria dos adultos que repete essas mensagens está, muitas vezes, reproduzindo o que também aprendeu. Por isso, entender a engrenagem é o que permite sair dela.

Por que alguns adolescentes encontram respostas nos lugares errados?

Quando um menino acumula sofrimento emocional sem palavras para nomeá-lo e sem espaço para expressá-lo, esse sofrimento vai parar em algum lugar. Arielle Sagrillo explica por que comunidades radicalizadas online conseguem capturar tantos adolescentes. “Esses espaços oferecem uma linguagem, ainda que distorcida, para o sofrimento que existe mas que não costuma ser validado. Oferecem um inimigo externo que explica por que ele não está tendo sucesso, e validam a raiva como identidade.”

Pétala entendeu isso quando decidiu que não bastava corrigir o filho — era preciso, então, substituir esse “acolhimento” falso dos grupos online e da mentalidade errática dos homens da família por conversas transparentes, conexões reais e ajuda especializada.

“Comecei a pontuar cada fala ruim que acontecia na nossa frente e a explicar por que aquilo era violento, mesmo que parecesse uma piada.” O processo foi lento e complexo, sobretudo porque envolvia confrontar pessoas que ela ama. Buscar apoio na psicóloga e na equipe pedagógica da escola foi o que deu chão para continuar. Assim “Não é uma mudança que acontece do dia para a noite; é um exercício diário de conversa e de limite com os homens ao meu redor, que servem de referência para o meu filho.”

Mas, depois desse processo, o que Pétala pode dizer para as famílias é: não desistam! “Hoje, o meu filho trata meninas e mulheres muito melhor e a si próprio com mais humanidade.”

Qual modelo de “homem” nós conhecemos?

A psicóloga e escritora indígena Geni Núñez traz uma dimensão que vai além do ambiente familiar imediato. Para ela, o modelo de masculinidade que organiza nossa sociedade foi forjado dentro de uma lógica que colocou um perfil muito específico de homem no topo de uma hierarquia — que historicamente negou humanidade plena a corpos pretos, indígenas, periféricos.

Geni Núñez, escritora e psicóloga indígena, fala sobre masculinidade e meninos
Geni Núñez, escritora e psicóloga indígena

As consequências disso são diretas para meninos que não cabem nesse molde. Para eles, a pressão de “provar” que são homens de verdade chega multiplicada, porque partem de um lugar onde sua própria existência já foi historicamente questionada. Geni propõe virar a chave: “Talvez, se pararmos de idealizar a posição do ‘homem de verdade’, consigamos reconhecer que não precisamos demandar inclusão nela. Que, eventualmente, não ser considerado ‘homem de verdade’ pode ser um elogio.”

A perspectiva dela também aponta para o papel da coletividade — algo que a família nuclear, sozinha e sobrecarregada, raramente consegue dar conta. Em muitas cosmologias originárias, o cuidado nunca foi tarefa de uma só pessoa nem de um só gênero. Assim, “Mais do que formar famílias num modelo normativo, o que podemos fazer é fortalecer comunidades. Nas comunidades, o cuidado pode ser redistribuído — e a sobrecarga de criar, de proteger, de ensinar, deixa de cair nos mesmos ombros de sempre.”

O que famílias podem fazer diferente?

Arielle Sagrillo aponta caminhos concretos. O primeiro deles é ampliar o repertório emocional dos meninos desde cedo: ensinar a reconhecer, nomear e expressar emoções diversas — sem hierarquizar ou julgar. Tristeza não é fraqueza. Medo não é covardia. Saudade, carinho, incerteza: tudo isso pode ser dito em voz alta.

O segundo caminho é desatrelar o pertencimento da performance. O menino não precisa provar o tempo todo que é “homem de verdade” para ser aceito — e quando a família deixa isso claro com consistência, o alívio que ele sente é real e perceptível.

Oferecer modelos concretos também faz diferença. Referências de homens que cuidam, que escutam, que cooperam — na vida real, em filmes, em livros, nas histórias que a família conta. Nesse sentido, “Essa referência é fundamental para romper a ideia de que sensibilidade e cuidado são incompatíveis com masculinidade”, diz Arielle.

Por fim, nomear privilégios sem transformar isso em culpa. A ideia não é que meninos se sintam culpados por serem do gênero que são — mas sim que compreendam as estruturas ao redor e possam se posicionar de forma ética dentro delas.

Pedro Figueiredo acrescenta uma prática que parece simples, mas tem impacto profundo: aproximar meninos do cuidado como hábito cotidiano. “Ao adotar o cuidado como um direcionador de conduta, você atua das duas formas — tanto no nível das relações interpessoais, quanto na busca por equidade, pela transformação social.”

“A tarefa é substituir a equação ‘ser homem = não ser mulher’ por algo mais saudável e humano: ser homem como uma experiência que inclui cuidado, vulnerabilidade e vínculo. Isso não beneficia apenas as mulheres — beneficia também os próprios meninos, que passam a ter acesso a uma vida emocional menos restrita, menos violenta e menos solitária.” — Arielle Sagrillo, psicóloga e PhD em Psicologia Forense

Como aproximar meninos do cuidado desde cedo?

Pedro Figueiredo, do MEMOH, defende o cuidado como um direcionador de conduta — uma bússola prática para criar meninos com mais repertório emocional e relacional. Algumas formas de colocar isso em prática no dia a dia:

Inclua meninos nas tarefas domésticas desde pequenos — não como ajuda eventual, mas como responsabilidade real. Lavar a louça, cuidar de um irmão mais novo, regar as plantas: tudo isso ensina, na prática, que cuidar é coisa de todo mundo;

Permita que eles cuidem de algo vivo — um animal de estimação, uma planta. O vínculo que se cria com esse tipo de responsabilidade desenvolve empatia e presença;

Valorize o cuidado quando ele aparecer — quando um menino consola um amigo, fica do lado de alguém que está mal ou demonstra ternura, nomeie isso como algo bonito. “Que legal você ter ficado com ele”;

Não separe brinquedos por gênero — bonecas, kits de cozinha e brincadeiras de cuidado não tornam meninos menos nada. Tornam crianças mais inteiras;

Mostre homens cuidando — na vida real, em filmes, em livros. O que parece possível se constrói também pelo que se vê.

Frases comuns que merecem atenção

Para os especialistas, algumas expressões podem parecer inofensivas no dia a dia — mas carregam a mensagem de que sentir ou demonstrar afeto é inadequado para meninos. Vale prestar atenção quando elas aparecem:

“Não chora, que isso é coisa de menina.” O choro é uma resposta emocional saudável para qualquer pessoa. Quando um menino chora e é repreendido, aprende que sentir é perigoso;

“Homem não tem medo.” Medo é um sinal de autocuidado. Suprimi-lo não torna ninguém mais corajoso — torna mais impulsivo;

“Para de ser menininha.” Usa o feminino como insulto e ensina que qualquer aproximação da sensibilidade é uma degradação;

“Vai encarar ou vai ficar no colo da mãe?” Afasta meninos justamente das relações de cuidado e apego que são fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável.

“Você é o homem da casa agora.” Coloca o peso de uma responsabilidade adulta nos ombros de uma criança — e rouba infância sem oferecer nada saudável em troca.

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