Crianças de castigo: dá para educar os filhos sem punir?

Especialistas explicam se a punição funciona, seu impacto no desenvolvimento infantil e se essa é a melhor alternativa para estabelecer limites aos pequenos
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  • Publicado em: 02.12.2021
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A punição, um conceito tão antigo quanto a humanidade, é prática recorrente no universo da educação infantil. Acordar limites, mostrar causa e consequência, corrigir comportamentos considerados errados ou inapropriados: tudo isso também é parte do grande desafio de criar uma criança. Elas, por sua vez, podem não entender que aplicar sanções para corrigir erros alheios está na base da formação de uma sociedade. Mas certamente as crianças concordam com uma coisa: não é bom ficar de castigo! 

Ainda assim a palavra castigo talvez seja uma das mais proferidas na infância, e é uma solução encontrada por muitos pais para “disciplinar”, ensinar regras ou estabelecer limites aos filhos. Mas, castigar funciona? 

“A criança necessita de supervisão e direcionamento: é preciso haver vigilância para adverti-la no momento em que ela ‘aprontar’. Impor regras que não são claras, como chamá-la de mal-educada, sem explicar o que isso significa, ou dizer que ela não se comportou bem, sem contextualizar o que seria um bom comportamento, também são atitudes que não educam”, explica o psiquiatra Bonifácio Rodrigues. Além disso, ele detalha que, dependendo da faixa etária e do desenvolvimento cognitivo e de raciocínio, a criança poderá demorar a entender o que é atenção negativa ou positiva.

“Ela só sabe que, quando desobedece ou faz algo errado, recebe atenção dos pais, mesmo que seja gritando e reclamando. Essa atenção negativa pode ser chamada de reforçadora. Assim, ao invés de entender a punição, pode compreendê-la como um ‘ganho secundário’ – apesar de negativo, não deixa de ser uma forma de atenção”, afirma.

“Crianças que carecem de atenção podem usar a desobediência para ganhá-la e o castigo terá um efeito inverso do que é proposto”

Uma das formas mais recomendadas pelos especialistas é estabelecer os limites justamente mostrando aos pequenos a causa e a consequência de suas ações. Ajudá-los a corrigir algo pode ser mais efetivo do que, simplesmente, trancá-los no quarto “para pensar”. 

No entanto, não se trata de “certo” e “errado”, mas de caminhos que podem ser mais saudáveis para as crianças. “Cada família vai encontrar a melhor educação para o seu filho. Existem escolas, psicólogos, pediatras que indicam vários tipos de castigo ou repreensão para ajudar a formar o comportamento, mas acredito que o mais importante é os pais se sentirem à vontade com as crianças para conversar”, afirma a pediatra Patricia Marañon Terrivel. Segundo ela, o mais indicado é sempre explicar os motivos por trás das punições, sem brigar, sem gritar. 

Idade da criança deve ser levada em conta

Embora muitos pais façam uso do castigo ainda quando os filhos são pequenos, existe uma idade em que a punição não tem efeito algum. “A criança precisa ter um nível de memória para que ela consiga compreender causa e efeito, que geralmente é a partir dos dois anos, quando ela já tem um melhor entendimento e noção temporal. Para que ela entenda, precisa saber o motivo da sanção e o porquê foi privada de um determinado privilégio. Esse tempo de entendimento também não pode ser muito longo, senão a criança perde o propósito do castigo”, esclarece o psiquiatra. 

A pediatra acrescenta que “quando a criança é muito pequenininha, a gente fala muito ‘não’, mas não explica os motivos. Então é importante falar ‘não, não pode, pois se subir no sofá, você vai cair’”.

Aplicar punições que não se cumprirão talvez seja uma das atitudes mais comuns e também uma das menos efetivas. A cena dos pais avisando que o filho vai ficar sem TV por um mês e, no dia seguinte, eles assistem televisão juntos, confunde as crianças, que são muito boas em enxergar inconsistências. O resultado é que elas passam a ver esses furos nas regras, e os pais acabam perdendo a credibilidade. 

Os impactos do castigo no desenvolvimento das crianças

A bancária Juliana Pasin, mãe da Maria Eduarda, 14, e madrasta de Mateus, 7, de São Bernardo do Campo (SP), diz que já tentou o “cantinho do pensamento” com a Duda – um espaço sugerido por alguns especialistas para que a criança reflita sobre o que fez. 

“Logo eu percebi que aquilo não fazia bem a ela e então mudei. Optei por conversas e combinados. Hoje não acredito no castigo. Desde que passei a fazer trocas, como pedir que ela guarde os brinquedos para poder assistir mais alguns minutos de desenho, nosso convívio começou a ser mais produtivo e menos estressante”, relata.

Castigo é uma palavra carregada de gravidade. Em sua etimologia é possível ver que a ideia por trás dela não é tão boa assim. Originária do latim “castus”, que significa puro, limpo, sem faltas, foi por muito tempo justamente isso: uma forma de tentar purificar crianças ditas “endiabradas”. Nesse contexto, punições físicas eram comuns, assim como agressões morais e verbais. De lá para cá, muita coisa mudou, mas a expressão “castigo” continua viva e presente na vida dos pais. No entanto, aplicar os tradicionais castigos pode não ser efetivo e ainda impactar negativamente o desenvolvimento infantil. 

“A criança pode começar a reproduzir comportamentos agressivos na escola e com os colegas, ter baixa autoestima, sensação de pouca eficácia e ineficiência. São consequências que chegam a durar a vida inteira. Então, castigos físicos e psicológicos – alguns, inclusive classificados como abusos físicos, como bater, ou psicológicos, como xingar – podem prejudicar o desenvolvimento psicossocial”, esclarece o psiquiatra Bonifácio.

Juliana conta que, na sua infância, eram comuns os castigos e palmadas. “Foi traumático e sempre tive medo de passar esse trauma para minha filha. Por isso, estou sempre atenta para não perder o controle”, diz a bancária. 

Os impactos negativos da violência física e psicológica contra as crianças já são muito pesquisados e bem conhecidos. Recentemente, um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Harvard e publicado no periódico Child Development mostrou que crianças que levam palmadas passam por alterações similares no desenvolvimento cerebral àquelas que recebem agressões mais severas. Além disso, são mais propensas a ter quadros de depressão, ansiedade, distúrbios comportamentais e abuso de drogas e entorpecentes na adolescência. 

Troque o castigo por uma boa conversa

O psiquiatra explica que a melhor solução é sempre optar pelo diálogo.

“Impor limites é necessário, mas com muita conversa e explicação do contexto”

O especialista acrescenta que a melhor forma de lidar com as crianças é ter constância e consistência na vigilância. “É estar sempre acompanhando, como forma de prevenir atitudes inapropriadas, deixando regras muito claras do que os filhos podem ou não fazer, e suas consequências, caso o combinado não seja cumprido. Isso pode ser feito com quadros ou cartolinas, por exemplo, pois as crianças têm memória visual melhor que verbal”, sugere.

“Acho que a base de uma boa conversa é melhor do que tudo”, resume a pediatra Patrícia. Valorizar os bons comportamentos também é uma medida essencial, segundo Bonifácio. “Há uma tendência de supervalorizar os comportamentos inapropriados da criança. Mas quando ela faz algo bom, recebe menos incentivo. É importante inverter essa lógica. Quando ela fizer algo que é esperado dela, por menor que seja, deve ser incentivada, elogiada e valorizada. Quando, ao contrário, ela estiver desobedecendo, quanto menos atenção receber, melhor. É uma dica de ouro!”, recomenda o psiquiatra. 

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Resumo

O castigo pode não ser tão efetivo e ainda impactar negativamente no desenvolvimento infantil, se aplicado de modo agressivo e sem diálogo. Ensinar causas e consequências aos pequenos é uma das medidas mais recomendadas pelos especialistas.
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