1 ano sem celular nas escolas: o que dizem os alunos?

Depois de um ano de legislação em vigor, estudantes relatam como está adaptação de ficar sem mexer nos aparelhos durante toda a jornada escolar

Vanessa Fajardo Publicado em 02.04.2026 Atualizado em 02.04.2026
Imagem de capa para matéria sobre celulares nas escolas mostra uma menina parda, de cabelo slisos e longos, segurando um celular nas mãos.

Resumo

Um ano depois de uma lei federal proibir o uso de celulares em escolas públicas e privadas, os estudantes opinam sobre a restrição.

Após mais de um ano da implementação da lei 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares em escolas públicas e privadas de todo o Brasil, o que os estudantes pensam sobre a restrição está longe de ser consenso. Sem o celular na escola alguns alunos se dizem adaptados e satisfeitos, com a possibilidade de interagir mais com os colegas na ausência da tela, especialmente nos intervalos, outros afirmam que ainda não superaram o “vício” de mexer no celular o tempo todo e sentem falta de dar aquela espiada nas redes sociais durante a aula. 

Porém, todos eles, mesmo os contrários à legislação, acreditam que estão mais focados e engajados nas atividades escolares, desde que passam menos tempo com o celular em mãos.

“Ficava tanto no celular que eu acabava esquecendo de falar com as pessoas que estavam ao meu redor. Também melhorei nos estudos porque o celular me deixava muito desconcentrada na hora de estudar. Quando essa lei veio, eu consegui me concentrar mais e minhas notas melhoraram bastante”, conta Lívia de Souza Xavier, 14 anos, aluna do 9º ano no Ginásio Educacional Olímpico (GEO) Reverendo Martin Luther King, no Rio de Janeiro.

Sua colega Kamilly Luanny, 14 anos, conta que, no geral, a adaptação da escola não foi fácil porque os alunos criaram uma dependência do celular no período da pandemia e tiveram de aprender uma nova forma de convivência sem mediação das telas. 

“A gente desacostumou a conviver com o outro e aí teve que aprender a viver tudo de novo. Mas como aqui na escola a proibição já ocorre há muito tempo, hoje é bem tranquilo. A gente interage e socializa muito”, diz Kamilly. Ela conta que antes os alunos trocavam mensagens entre eles do tipo “está por onde?”, mesmo estando no mesmo ambiente escolar. “Como a gente já não tem mais o telefone, temos de levantar e procurar quem quisermos.”

Rio de Janeiro foi pioneiro na restrição

Quando a legislação nacional passou a valer em 2025, os alunos da rede municipal do Rio de Janeiro já estavam habituados a viverem sem seus telefones na escola, pois a proibição na cidade começou de forma pioneira, a partir de fevereiro de 2024, por meio de um decreto municipal. 

Em entrevista ao Portal Lunetas, o Secretário Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Renan Ferreirinha, disse que ficou obcecado pelo tema desde que as aulas retornaram depois da pandemia.

Renan Ferreirinha. Secretário Municipal de Educação do Rio de Janeiro

“Nossos alunos estavam muito mais ansiosos, agitados, impacientes e focando muito menos na escola, na interação com os seus amigos. Percebemos que o uso exacerbado de telas e celulares nas escolas estava contribuindo diretamente com isso”, lembra. 

O secretário teve como argumento para o decreto municipal o relatório da Unesco “Tecnologia na Educação” que faz uma alerta para a “epidemia de distração” causada pelo uso dos celulares na escola. 

Depois da medida na cidade, Renan batalhou pela proibição em nível nacional e foi relator no Congresso Nacional da lei 15.100/ 2025, aprovada em 13 de janeiro de 2025.

“As famílias compreenderam a importância disso. Os professores estavam ansiosos por essa medida, porque sabem que é impossível tentar dar aula dividindo atenção com o algoritmo. As crianças passaram a se adaptar e os adolescentes demoraram um pouco mais, mas também passaram a redescobrir a escola à medida que a gente insiste nessa medida”, diz.

‘Lei é boa, mas ruim ao mesmo tempo’ 

Quem ainda sofre com a restrição mesmo depois do aniversário de um ano da lei é uma turma de alunos do Ensino Médio da Escola Estadual (EE) República da Argentina, localizada na zona norte de São Paulo. Eles ainda reclamam que sentem falta de acessar o aparelho durante a jornada escolar, atribuindo ao “vício”, alegam ter necessidade de falar com a família nesse período, mas ainda assim dizem que a medida permitiu que estivessem mais focados nas aulas e atividades pedagógicas.

“Eu acho que a lei é boa, mas ao mesmo tempo é ruim. Porque na sala de aula quando a gente usava o celular, não prestava muita atenção, agora sem, a gente presta mais”, diz Laura Parcelio dos Santos, aluna do 3º ano do Ensino Médio.

“Sou contra a lei porque sou viciado no celular, estou tentando melhorar, mas estamos mais focados nas aulas”, conta Pedro Henrique de Souza Silva, aluno do 3º ano do Ensino Médio e representante geral do grêmio da Escola República Argentina.

Para João Pedro Perluiz de Oliveira, no começo da proibição foi mais difícil ficar longe do celular, mas agora está mais acostumado. “Ficava o dia inteiro com o celular na cara, um vício, é difícil acostumar ficar longe. Mas as ações do grêmio ajudam muito, eles abrem a quadra, colocam música no intervalo. Está mais de boa.”

Jogos, música e bolinha de gude no intervalo 

Tanto na escola em São Paulo quanto na do Rio de Janeiro, o intervalo ganhou uma nova cara desde que as telas deixaram de ser bem-vindas.

Na EE República da Argentina, o grêmio da escola criou alternativas divertidas para o intervalo escolhidas por meio de votação entre os alunos, como o “Dia do Despluga” em que as mesas dos refeitórios são tomadas por jogos de tabuleiro, como dama e xadrez, dominó e Uno. Os alunos também podem escolher as músicas que vão tocar no intervalo e a sala de leitura fica aberta para que eles frequentem na hora do almoço. O grêmio ainda organiza gincanas como queimada, rouba-bandeira, handebol, além de competições entre as classes de vôlei e basquete.

“As ações do grêmio deixaram as atividades bem mais divertidas e conseguimos interagir muito mais”, afirma Vitoria Lopes Siqueira, aluna do 3º ano do Ensino Médio.

No Rio de Janeiro, o pátio do GEO Reverendo Martin Luther King passou a ter rodinhas de alunos sentados sobre cangas, jogando baralho, conversando, lendo e até jogando bolinha de gude – uma brincadeira que andava escassa no espaço escolar. “Antes o pátio era mais silencioso, mas hoje a gritaria é bem mais satisfatória”, conta Kamilly. 

Atividade no Ginásio Educacional Olímpico (GEO) Reverendo Martin Luther King, no Rio de Janeiro

“No começo eu ainda tentava achar um jeito de pegar no celular mesmo que fosse por uns poucos minutos para conseguir mexer, mas depois eu comecei a ver as coisas que realmente importam. Quando você vai conhecendo as pessoas que estão ali em volta, vendo hobbies, suas diferenças, é muito mais interessante conversar do que falar pelo celular”, complementa Lívia. 

Implementação humanizada’

As regras de implementação da legislação ficam a cargo de cada unidade escolar. Na escola do Rio, por exemplo, há caixas plásticas etiquetadas com os anos de cada turma em que os alunos depositam os aparelhos assim que chegam à escola, e só retiram na saída. A exceção é quando um professor solicita os aparelhos para uma atividade pedagógica específica e pede a liberação na diretoria.

Em São Paulo, o diretor Victor Ayres não faz um controle tão rígido, apostando no que ele chama de “implementação humanizada e gradual.” “Atendo uma galera que sobreviveu à pandemia por conta do uso da tecnologia. Era tudo pelo celular, vídeo aula com professor, de repente vem a lei e ninguém mexe mais no celular? Por isso tudo é uma adaptação, um processo e nós somos a ponta de tudo. A ideia é pouco a pouco mostrar um uso consciente.”

Ayres disse que não gosta de recolher os aparelhos dos alunos porque encara como uma punição, algo contraproducente, na sua opinião. Mas o próprio grêmio se organizou para que os líderes das turmas fizessem caixas para os alunos depositarem os celulares durante as aulas.

“Essa foi uma ação do grêmio que é muito participativo. Mas quanto escola o que fazemos? É uma conscientização com um diálogo pausado na reflexão sobre o uso, porque no fim há uma dependência, um vício no celular.”

Já para a diretora Fernanda, a lei deu o suporte necessário para a aplicação do regimento escolar. Antes da proibição oficial, retirar o celular de um aluno poderia ser visto como um ato autoritário, mas agora a escola tem base legal para exigir que o aparelho seja entregue ao chegar e devolvido apenas ao fim do dia. Além da melhoria do clima escolar e do aumento dos índices de aprendizagem na escola, ela diz que diminuíram os casos de cyberbullying na escola.

“No início o celular dominava a escola, todo mundo estava com aquele aparelho na mão. O problema é que se usava muitas vezes para expor um colega, pegava-se o aluno em uma situação delicada e colocava na internet. Era um problema atrás de outro para lidarmos.”Segundo Fernanda, no começo houve muito ruído e dificuldade de aceitação sobre a proibição entre estudantes e famílias. Mas os benefícios para o convívio e a aprendizagem superaram os desafios. 

Próxima briga é contra redes sociais para menores de 16 anos

Depois de encabeçar a batalha pela proibição do celular, Renan Ferreirinha tem um projeto: garantir que crianças com menos 16 anos não tenham contas e acesso livremente às redes sociais, assim como já ocorre em países como Austrália e Malásia, por meio de um projeto de lei que ele protocolou na Câmara dos Deputados, no mês de fevereiro.

“Não dá para a gente achar que seja normal uma criança ter crise de ansiedade, diagnóstico de depressão, porque não consegue sair de uma rede social. Estamos na defesa de crianças e adolescentes para que eles possam ter o amadurecimento necessário para ter uma infância recheada de boas interações, de olho no olho, de muito estudo e não uma infância sequestrada pelas telas.”

Pesquisa do MEC e Alana vai avaliar o impacto da lei 

O Ministério da Educação em parceria com o Instituto Alana iniciou uma pesquisa para analisar o impacto da legislação 15.100/2025 nas redes de ensino de todo o país. O objetivo é entender quais estratégias foram adotadas para sua implementação, as transformações percebidas no cotidiano escolar, além de mapear os ajustes realizados na rotina pedagógica e os desafios que surgiram ao longo do processo.

Ao todo, 8.189 escolas de educação básica da rede pública e privada foram selecionadas em uma amostra representativa. Diretores, coordenadores pedagógicos e professores dessas unidades foram convidados a responder um questionário enviado por email pelo Inep.

A pesquisa não possui caráter avaliativo ou fiscalizatório. As respostas são individuais e mantidas em sigilo. Os resultados serão divulgados apenas de forma consolidada, sem identificar as escolas participantes.

Ao final os dados vão compor um relatório técnico público, que servirá de base para decisões do governo federal e de aperfeiçoamento da política pública dentro da Estratégia Nacional das Escolas Conectadas (Enec).

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