‘O que dizer à criança sobre a morte de sua mãe?’

A experiência de uma professora após o aluno perder a mãe nos dá algumas pistas de como conversar sobre a morte com as crianças
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 28.10.2021
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Hoje recebi uma triste notícia: a mãe de S. (prefiro não identificar o seu nome), uma criança de 4 anos que estuda na escola em que trabalho, morreu. A tia de S. nos contou que a mãe dele “não está mais entre nós”, mas que ainda não havia falado nada para o menino.

Fiquei muito triste, não só pela perda dessa mulher, que se mostrou cuidadosa e zelosa, mas pelo sentimento que me invadiu em pensar que essa criança ainda não sabia o que realmente tinha acontecido com sua mãe.

No início do ano, devido à pandemia e à suspensão das aulas presenciais, o contato com essa mãe foi por meio de telefone e mensagens trocadas pelo WhatsApp. Ela contou à escola que precisava ficar de repouso por estar numa gravidez de alto risco e que por isso não poderia acompanhar as atividades de perto como gostaria. 

Diante da morte, de imediato pensei na literatura infantil para ajudar a família a lidar com essa dor tão grande e com o desafio de contar para S. sobre o que aconteceu à sua mãe. Encontrei “O livro do adeus”, de Todd Parr, que aborda o tema com delicadeza e sensibilidade. Depois, comecei a escrever, uma forma de lidar com o assunto dos órfãos desta pandemia, tão presente nos dias atuais, infelizmente.

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Quando um membro de uma família com crianças morre, tenho esse mesmo ímpeto de me colocar no lugar do pai ou da mãe que fica, tendo de lidar com a dor da perda e, ao mesmo tempo, acolher os sentimentos dos filhos. Não saber ao certo o que fazer é perturbador. Apesar de não ser fácil para ninguém, não podemos deixar de ter clareza e sensibilidade para abordar o assunto com as crianças. Então, o que dizer a S. sobre a morte de sua mãe?

Identifiquei algumas semelhanças nos artigos que li sobre o tema: devemos abordar a morte de acordo com o entendimento das crianças ou a partir das perguntas que nos fazem sobre o que está acontecendo à sua volta. Especialistas são unânimes em dizer que não devemos usar eufemismos, pois as crianças poderão se sentir confusas, inseguras ou criar expectativas falsas com frases como “sono profundo” e uma “viagem sem volta”.

O medo da morte nos faz evitar pronunciar o que ela é.

Seria falso acreditar que as crianças não entendem, que se distraem brincando e que acabam esquecendo. Por mais duro e difícil que seja, as crianças captam no ar que algo está acontecendo. Elas conseguem perceber a tristeza das pessoas, os olhos vermelhos, o choro constante e contínuo, e tudo mais que cerca o ambiente nesse momento.

No caso de S., ele ainda vê o bebê recém-nascido, que está sob os cuidados da avó. Sem saber ao certo de onde ele veio, sabe que provavelmente foi “daquela barriga” que sua mãe tinha e a fazia ficar mais deitada do que antes. Logo, logo, formulará a pergunta: “onde está a minha mãe?”.

Depois da minha pesquisa, penso que posso contribuir com essa família e com pessoas que passam pela mesma dor (e apaziguar a minha também). É preciso dizer às crianças que a morte faz parte de um processo natural da vida. Elas têm o direito de saber o que aconteceu.

Adiar a fala sobre a morte de uma pessoa tão querida é tão doloroso quanto não falar.

Quando nos recusamos a falar com a criança sobre a morte, estamos negando a ela a possibilidade de alcançar um processo inevitável que é a tomada de consciência sobre a finitude da vida. Não falar, silenciar ou negar respostas às crianças apenas gera mais desconforto e dor, para ela e para todos à sua volta. Ao nos furtarmos desse encontro, podemos até fazê-la se sentir insegura, impotente, criando fantasias mais dolorosas do que a realidade e inclusive podendo se culpar pelo que aconteceu com a pessoa amada.

Vamos ouvir a criança e convidá-la para uma conversa: “O que você está sentindo?”

Por outro lado, acolher os sentimentos dessa criança fará com que ela se sinta amada, cuidada e, acima de tudo, protegida para experimentar a dor, a perda, a tristeza, o medo, a saudade. Cabe a nós, familiares, educadores e amigos, escutar o que a criança tem a dizer, entender o que quer saber, compartilhar os sentimentos, mostrando-nos também impotentes diante da vida, mas disponíveis para cuidar dela.

Experiências precoces sobre a morte não podem ser suprimidas. Estar presente e cuidando da criança, ajudando-a a entender minimamente o que está se passando é o que podemos fazer de melhor por ela nesse momento.

Sem receitas prontas de como abordar a morte com uma criança, é no caminhar da vida que vamos poder “trocar a dor da perda pela alegria das lembranças”, como escreveu Frei Betto, no livro “Começo, meio e fim”. São as lembranças que acalentam o coração e confortam a imensa saudade…

* O texto original foi escrito por Eliane Marques Daher Chedier, diretora do Centro de Educação Infantil Sagrada Família da Rede Municipal de Ensino de Petrópolis (RJ), psicóloga e psicanalista, e mãe do Emanuel e do Felipe. A publicação na íntegra está no site do Avisalá.

** Este texto é de exclusiva responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Lunetas.

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Resumo

Falar sobre morte com as crianças não é tarefa fácil. Mas, diante da tomada de consciência sobre a finitude da vida, o acolhimento é o elemento que não pode faltar.
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