Como romper com a rejeição ao feminino na criação dos meninos?

A formação da identidade masculina muitas vezes começa pela rejeição do feminino. Saiba como mudar esse padrão e fortalecer a saúde mental dos meninos.

Ylanna Pires Publicado em 27.04.2026 Atualizado em 28.04.2026

Resumo

A educação de meninos frequentemente nega a sensibilidade. Psicólogos e pesquisadores detalham os impactos dessa lógica na saúde mental e apontam mudanças cotidianas para as famílias ampliarem o repertório emocional dos filhos.

Um telefonema da escola altera o rumo de uma tarde comum. O filho de 14 anos de Pétala Moura estava praticando bullying contra colegas meninas — frases machistas e apelidos chamaram a atenção dos professores. “Ouvir que meu filho estava sendo o autor de frases machistas me trouxe uma culpa imensa”, conta ela. O primeiro instinto foi entender o que ele estava consumindo na internet. O segundo foi olhar para dentro de casa.

Foi assim que Pétala percebeu como hábitos rotineiros estavam ajudando a moldar o que o filho entendia por masculinidade. Nos almoços de domingo, os tios faziam piadas misóginas que todos riam como se fossem normais. O filho via naqueles homens — as referências masculinas mais próximas que ele tinha — um modelo de validação. “Percebi que ele não estava criando aqueles comportamentos do nada. Ele estava reproduzindo o que via os primos e tios mais velhos falarem sobre mulheres.”

A família de Pétala não é uma exceção, e a culpa que ela sentiu também não precisa ser. Como podemos criar meninos que não temam e não rejeitem tudo o que é feminino?

Quando “ser homem” começa pelo que não se pode ser

A psicóloga e PhD em Psicologia Forense Arielle Sagrillo chama esse processo de masculinidade por via negativa. Muito antes de aprender o que pode ser, o menino aprende o que precisa evitar. Isso costuma envolver tudo aquilo que a cultura associa ao feminino.

Arielle Sagrillo, psicóloga e PhD em Psicologia Forense

Frases como “não chora, isso é coisa de mulherzinha”, “você parece uma menininha” ou “isso é coisa de mulher!” são desde cedo repetida aos meninos como formas de repreensão de qualquer comportamento mais sensível.

“O menino que chora é ridicularizado, o que gosta de cuidado ou delicadeza é policiado”, explica Arielle. “Essa ‘fobia do feminino’ opera como um mecanismo disciplinador que ensina, cedo, quais condutas são corretas para pertencer ao grupo.”

O efeito desse conjunto de restrições vai empobrecendo o repertório emocional de formas bem concretas: chega uma hora em que o menino já não sabe distinguir tristeza de irritação, medo de silêncio, frustração de agressividade.

Sobre essa “panela de pressão” criada ao redor da masculinidade, Pedro Figueiredo, idealizador do MEMOH, ecossistema de educação e conteúdo sobre o tema, descreve como isso aparece na prática. Ele lembra de um amigo que, sempre que alguém perguntava como ele estava, respondia apenas: “estou puto.” Não por mau humor. Simplesmente porque não tinha outra palavra disponível para o que sentia.

Pedro Figueiredo, idealizador do MEMOH

“A raiva acaba se tornando a única emoção socialmente autorizada — e, em certa medida, incentivada”, analisa Arielle. Para Pedro, a consequência mais drástica é conhecida: a taxa de suicídio no Brasil é quatro vezes maior entre homens do que entre mulheres. Mas ele insiste que isso é só a ponta do iceberg. “Violência criminal, acidentes de trânsito, abuso de substâncias — a gente não consegue nem pedir ajuda, mesmo quando sabe que precisa muito.”

O que os dois especialistas descrevem não é uma crítica às famílias. A maioria dos adultos que repete essas mensagens está, muitas vezes, reproduzindo o que também aprendeu. Entender a engrenagem é o que permite sair dela.

Por que alguns adolescentes encontram respostas nos lugares errados?

Quando um menino acumula sofrimento emocional sem palavras para nomeá-lo e sem espaço para expressá-lo, esse sofrimento vai parar em algum lugar. Arielle Sagrillo explica por que comunidades radicalizadas online conseguem capturar tantos adolescentes. “Esses espaços oferecem uma linguagem, ainda que distorcida, para o sofrimento que existe mas que não costuma ser validado. Oferecem um inimigo externo que explica por que ele não está tendo sucesso, e validam a raiva como identidade.”

Pétala entendeu isso quando decidiu que não bastava corrigir o filho — era preciso substituir esse “acolhimento” falso dos grupos online e da mentalidade errática dos homens da família por conversas transparentes, conexões reais e ajuda especializada.

“Comecei a pontuar cada fala ruim que acontecia na nossa frente e a explicar por que aquilo era violento, mesmo que parecesse uma piada.” O processo foi lento e complexo, sobretudo porque envolvia confrontar pessoas que ela ama. Buscar apoio na psicóloga e na equipe pedagógica da escola foi o que deu chão para continuar. “Não é uma mudança que acontece do dia para a noite; é um exercício diário de conversa e de limite com os homens ao meu redor, que servem de referência para o meu filho.”

Mas, depois desse processo, o que Pétala pode dizer para as famílias é: não desistam! “Hoje, o meu filho trata meninas e mulheres muito melhor e a si próprio com mais humanidade.”

Qual modelo de “homem” nós conhecemos?

A psicóloga e escritora indígena Geni Núñez traz uma dimensão que vai além do ambiente familiar imediato. Para ela, o modelo de masculinidade que organiza nossa sociedade foi forjado dentro de uma lógica que colocou um perfil muito específico de homem no topo de uma hierarquia — e que historicamente negou humanidade plena a corpos pretos, indígenas, periféricos.

Geni Núñez, escritora e psicóloga indígena

As consequências disso são diretas para meninos que não cabem nesse molde. Para eles, a pressão de “provar” que são homens de verdade chega multiplicada, porque partem de um lugar onde sua própria existência já foi historicamente questionada. Geni propõe virar a chave: “Talvez, se pararmos de idealizar a posição do ‘homem de verdade’, consigamos reconhecer que não precisamos demandar inclusão nela. Que, eventualmente, não ser considerado ‘homem de verdade’ pode ser um elogio.”

A perspectiva dela também aponta para o papel da coletividade — algo que a família nuclear, sozinha e sobrecarregada, raramente consegue dar conta. Em muitas cosmologias originárias, o cuidado nunca foi tarefa de uma só pessoa nem de um só gênero. “Mais do que formar famílias num modelo normativo, o que podemos fazer é fortalecer comunidades. Nas comunidades, o cuidado pode ser redistribuído — e a sobrecarga de criar, de proteger, de ensinar, deixa de cair nos mesmos ombros de sempre.”

O que famílias podem fazer diferente?

Arielle Sagrillo aponta caminhos concretos. O primeiro deles é ampliar o repertório emocional dos meninos desde cedo: ensinar a reconhecer, nomear e expressar emoções diversas — sem hierarquizar ou julgar. Tristeza não é fraqueza. Medo não é covardia. Saudade, carinho, incerteza: tudo isso pode ser dito em voz alta.

O segundo caminho é desatrelar o pertencimento da performance. O menino não precisa provar o tempo todo que é “homem de verdade” para ser aceito — e quando a família deixa isso claro com consistência, o alívio que ele sente é real e perceptível.

Oferecer modelos concretos também faz diferença. Referências de homens que cuidam, que escutam, que cooperam — na vida real, em filmes, em livros, nas histórias que a família conta. “Essa referência é fundamental para romper a ideia de que sensibilidade e cuidado são incompatíveis com masculinidade”, diz Arielle.

Por fim, nomear privilégios sem transformar isso em culpa. A ideia não é que meninos se sintam culpados por serem do gênero que são — é que compreendam as estruturas ao redor e possam se posicionar de forma ética dentro delas.

Pedro Figueiredo acrescenta uma prática que parece simples, mas tem impacto profundo: aproximar meninos do cuidado como hábito cotidiano. “Ao adotar o cuidado como um direcionador de conduta, você atua das duas formas — tanto no nível das relações interpessoais, quanto na busca por equidade, pela transformação social.”

“A tarefa é substituir a equação ‘ser homem = não ser mulher’ por algo mais saudável e humano: ser homem como uma experiência que inclui cuidado, vulnerabilidade e vínculo. Isso não beneficia apenas as mulheres — beneficia também os próprios meninos, que passam a ter acesso a uma vida emocional menos restrita, menos violenta e menos solitária.” — Arielle Sagrillo, psicóloga e PhD em Psicologia Forense

Como aproximar meninos do cuidado desde cedo?

Pedro Figueiredo, do MEMOH, defende o cuidado como um direcionador de conduta — uma bússola prática para criar meninos com mais repertório emocional e relacional. Algumas formas de colocar isso em prática no dia a dia:

Inclua meninos nas tarefas domésticas desde pequenos — não como ajuda eventual, mas como responsabilidade real. Lavar a louça, cuidar de um irmão mais novo, regar as plantas: tudo isso ensina, na prática, que cuidar é coisa de todo mundo;

Permita que eles cuidem de algo vivo — um animal de estimação, uma planta. O vínculo que se cria com esse tipo de responsabilidade desenvolve empatia e presença;

Valorize o cuidado quando ele aparecer — quando um menino consola um amigo, fica do lado de alguém que está mal ou demonstra ternura, nomeie isso como algo bonito. “Que legal você ter ficado com ele”;

Não separe brinquedos por gênero — bonecas, kits de cozinha e brincadeiras de cuidado não tornam meninos menos nada. Tornam crianças mais inteiras;

Mostre homens cuidando — na vida real, em filmes, em livros. O que parece possível se constrói também pelo que se vê.

Frases comuns que merecem atenção

Para os especialistas, algumas expressões podem parecer inofensivas no dia a dia — mas carregam a mensagem de que sentir ou demonstrar afeto é inadequado para meninos. Vale prestar atenção quando elas aparecem:

“Não chora, que isso é coisa de menina.” O choro é uma resposta emocional saudável para qualquer pessoa. Quando um menino chora e é repreendido, aprende que sentir é perigoso;

“Homem não tem medo.” Medo é um sinal de autocuidado. Suprimi-lo não torna ninguém mais corajoso — torna mais impulsivo;

“Para de ser menininha.” Usa o feminino como insulto e ensina que qualquer aproximação da sensibilidade é uma degradação;

“Vai encarar ou vai ficar no colo da mãe?” Afasta meninos justamente das relações de cuidado e apego que são fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável.

“Você é o homem da casa agora.” Coloca o peso de uma responsabilidade adulta nos ombros de uma criança — e rouba infância sem oferecer nada saudável em troca.

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