Lua Oliveira: de vítima de racismo à embaixadora mirim de livros

Conheça a menina que, aos 13 anos, já ajudou a fundar seis bibliotecas no Rio de Janeiro e pretende inaugurar mais três até o fim do ano
Arquivo pessoal/arte Lunetas
  • Publicado em: 28.10.2020
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Para crianças vítimas de racismo, ainda mais somado ao bullying na escola, a infância pode ser um período de sofrimento. Dona de um cabelo crespo, não foi fácil para Raissa Luara Castro de Oliveira, a Lua, ser chamada pelos colegas de “a menina do cabelo duro”, “a menina do cabelo de bombril” quando tinha cinco, seis anos. “As crianças me batiam, cortavam o meu cabelo, me davam nomes que eu não gostava”, relata a carioca, hoje com 13 anos.

Como muitas crianças, Lua preferiu sofrer sozinha. “Eu não tomei iniciativa nenhuma porque na época eu era muito novinha. Fiquei quietinha, não contei pra ninguém”. A situação só começou a tomar outro rumo quando a mãe de uma colega descobriu a situação. “Minha mãe então foi conversar com a diretora, mas ela falou que não poderia fazer nada e me convidou a me retirar da escola. Não tivemos outra opção”, conta. 

Embora os ataques tenham cessado na nova escola, Lua também sofreu racismo e bullying quando a família se mudou para um condomínio. A menina foi ficando cada vez mais deprimida, sem nenhum amigo. Foi quando decidiram procurar ajuda. Por indicação de uma assistente social, Lua começou a dançar hip hop e se encontrou com outras “crianças negras que tinham o mesmo perfil que o meu e cabelos crespos”, diz.

Agora representante do movimento anti-bullying, ela recomenda ação: “Procurem ajuda de um responsável. Nunca passem por isso sozinho. Quando presenciar um ato de bullying, você deve comunicar o professor, o responsável, a vovó, o vovô, o pai, a tia… Enfim, sempre tenha alguém com quem você possa se comunicar e falar qual é o tipo de bullying que você está sofrendo, quais são os seus sentimentos.”

Uma pequena princesa preta

Apesar do que sofreu, Lua Oliveira pode agora inspirar outras crianças pretas com a mensagem de que “todas podem ser princesas, independente da cor”. É que ela se tornou uma no livro “A pequena princesa”, escrito em sua homenagem, o que reforça a importância de haver personagens negros na literatura e em outros meios culturais. A literatura me apresentou a personagens que me fizeram ver que eu posso ser o que eu quiser”.

A Pequena Princesa Escrito por Carlos Gomes, com comentário da contracapa por Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, e ilustrações de Lhaiza Morena Castro, o livro “A pequena princesa” (Clube de Leitores, 2019) homenageia a garota carioca Lua Oliveira. Na história, uma menina negra destaca a força feminina e o gênero responsável pela continuidade da nossa espécie. Lua é representante literária do título, inclusive com participação nos direitos autorais da obra.

Embaixadora mirim da leitura no Brasil

Como a literatura foi decisiva em seu percurso de fortalecimento da autoestima, Lua Oliveira nutriu o sonho de distribuir livros a todas as crianças. Ao notar que havia interesse, mas não havia acesso, a carioca postou um vídeo em suas redes sociais, em setembro de 2019, pedindo doações. Isso foi após uma visita à Bienal do Livro, ocasião que a deixou muito triste ao perceber que crianças pegavam livros baratos na prateleira e os devolvia. Em menos de 20 dias, ela conseguiu mais de quatro mil livros voltados para todas as idades. 

Inspirada por esse retorno positivo, ter uma biblioteca em cada canto transformou-se em seu propósito de vida. “Sou muito feliz por ter trazido a cultura e a literatura para onde moro e também por ter mudado a imagem da minha comunidade que antes só aparecia associada à violência na televisão”.

A partir destas primeiras doações, Lua criou a “No mundo da Lua”, sua primeira biblioteca comunitária. O acervo já conta com mais de 30 mil livros e atende aos 21 mil moradores da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, onde vive com os pais. A sala de leitura está equipada com televisão, computadores e impressoras e alguns móveis – todos doados para uso das crianças. O espaço encontra-se fechado no momento, “mas o empréstimo de livros para as crianças lerem em casa está mantido”, reforça Lua.

 

As doações não pararam por aí. “Como todos os dias recebemos doações de livros, estamos ajudando a abrir outras bibliotecas!”, conta Lua. Até agora, a menina já ajudou a criar outras seis bibliotecas na cidade do Rio de Janeiro e pretende inaugurar mais três até o fim do ano. Isso acontece por meio de parcerias, ou seja, algumas pessoas que já têm esses espaços pedem livros para montar bibliotecas ou clubes de leituras em seus projetos sociais e Lua repassa as doações que recebe a eles, inclusive enviando livros para Espírito Santo, Piauí, Rondônia e Bahia. 

Daqui para frente, os sonhos são ainda maiores. “Eu quero entregar livros em todos os estados do Brasil, para que nenhuma criança fique sem acesso à literatura na sua cidade, no seu bairro. Também quero montar uma biblioteca em cada comunidade do Rio de Janeiro”, revela. Em paralelo, a menina ainda sonha em construir um espaço para ajudar cachorros abandonados e promover feiras de adoção de animais, além de viajar para a Disney e comprar uma casa para a sua mãe.

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Resumo

Conheça a história de Lua Oliveira que encontrou na literatura uma forma de fortalecer a autoestima. Aos 13 anos, a menina carioca já ajudou a fundar seis bibliotecas no Rio de Janeiro e pretende inaugurar mais três até o fim do ano.
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