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  • Publicado em: 29.06.2021

Os pedidos de indicações literárias estão presentes no cotidiano de quem é educador, coordenador pedagógico, mediador de leitura e afins. “Preciso de um livro que aborde medo, luto, exclusão, separação dos pais, racismo, transexualidade, bullying, raiva… para conversar com crianças de determinada faixa etária ou trabalhar tal tema em sala de aula.”

Sim, a literatura também está a serviço de reflexões e é um importante meio para se acessar sentimentos. Mas esse tipo de solicitação pode causar desconforto porque traz embutida uma concepção de literatura e de leitor que evidencia uma unilateralidade: o adulto deseja que as crianças leiam aquele livro para trazer à tona o que ele tem em mente. 

Embora o mediador de leitura seja um provocador de conversas e peça-chave na escolha do que será lido, a questão deveria ser formulada levando-se em conta o protagonismo da criança a partir da observação de uma necessidade do grupo, com a finalidade de favorecer reflexões a partir do contato com um livro sobre determinado tema. 

O leitor e a literatura

Pensar quais livros podem trazer o assunto à tona parece mais generoso com a diversidade de leitores e com o fato de que cada criança é provocada por outras percepções, por leituras anteriores e pelo contexto em que a leitura acontece, e imprime sentidos pessoais àquilo que lê. Embora possam partilhar vivências semelhantes, não podemos afirmar que duas crianças gostariam do mesmo livro ou seriam tocadas de formas parecidas por ele.

“O leitor é ativo; toda criança é singular”

Por outro lado, a literatura não deve ser vista como lição a ser aprendida, que é o que acontece quando se elege um livro para se trabalhar um tema específico. Ela está na seara da experiência e do movimento, clamando espaço para diferentes opiniões e pensamentos, de modo a construir sentidos múltiplos diante da arte. 

E a qualidade do livro?

O mercado editorial busca responder a essas demandas de livros para indicar com abordagens que vão desde obras com muitas camadas de leitura até as receitas prontas, claramente endereçadas a “passar uma mensagem às crianças”. São livros que nem sempre podem ser considerados literários ou, no limite, constituem literatura de pouca qualidade, na medida em que procuram oferecer respostas ao invés de promover reflexões entre as crianças: O que penso sobre isso? Como isso acontece em minha vida? O livro funciona como espelho para meus sentimentos e pensamentos ou me causa estranhamento, espanto, desconcerto?

Bons livros apostam na inteligência do leitor, favorecem uma experiência estética por meio da construção da narrativa textual e visual, trazem camadas diversas de leituras, não são óbvios, provocam diferentes olhares. Mas isso também depende da mediação do “como se lê”. 

Para que a leitura seja terreno fértil de trocas entre os leitores, é preciso que o adulto responsável explore possibilidades de polemizar, provocar, pensar em diálogos mais abertos a partir de perguntas que não apresentam uma única resposta, e favoreça argumentações das crianças para confrontar ou concordar com o que é dito.

Para aprofundar um tema por meio da literatura, é fundamental o diálogo, o movimento de ideias e opiniões que se modificam. É sempre uma construção coletiva.

É estar aberto para o mistério e para a surpresa: o que os leitores pensarão daquela trama ou como serão tocados por aquilo que leram? Quais reflexões e construções de sentidos surgirão na troca de ideias entre os leitores? Como tal tema, tão necessário para aquele grupo, pode mover ideias e pensamentos? Eis o verdadeiro “trabalho” que podemos almejar com a leitura.

* Texto escrito a partir do original publicado por Ana Carolina Carvalho, no site do Avisa Lá.

Resumo

Indicações de livro deveriam levar em conta o protagonismo infantil, e não partir apenas do que o adulto tem em mente quando sugere uma obra à criança.
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