Por que livros devem (ou não) ser classificados por faixa etária?

A tentativa de esclarecer os principais porquês de uma pergunta recorrente e bastante comum entre os adultos
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 20.04.2021
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“Esse livro é para que idade?”. Trata-se de uma pergunta recorrente quando comentamos um lançamento ou sugerimos uma lista de livros para crianças por aqui. Tanto que resolvemos investigar o tema com a ajuda de autores e especialistas em literatura infantojuvenil e elaborar uma resposta mais completinha a você que costuma ter essa dúvida sobre faixa etária na hora de oferecer livros à criança. Vamos juntos ponderar os principais pontos dessa questão?

Um olhar utilitário para a literatura

“A classificação etária funciona como um guia”, aponta Geruza Zelnys, doutora em Literatura e produtora de conteúdo didático no mercado editorial. “Além de direcionar o consumo dos clientes, essa classificação serve também a um objetivo pedagógico, orientando professores e as compras feitas pelas escolas, uma vez que as editoras geralmente se baseiam em documentos que norteiam a educação no Brasil, como a BNCC, por exemplo, seguindo um conjunto de competências e habilidades classificadas por faixas etárias e níveis de escolaridade”, diz.

O veterano Pedro Bandeira, que tem uma extensa obra dedicada a jovens leitores, diz escrever como quer e fica a cargo das editoras “examinar a obra e orientar pais ou professores por qual série esse livro deve ser lido, por tratar de tal assunto, com tal linguagem”. Assim, “como a atração de uma menina ou menino um pelo outro começa na puberdade, então fica melhor ser lido lá pela quinta, sexta série; já relações com a mamãe e o papai são temas mais recomendados para o fundamental I ou jardim da infância”, por exemplo, “mas sem descartar a possibilidade de uma criança considerar um livro muito infantil, jogá-lo de lado e então o irmãozinho se interessar por ele”.

Embora o autor Alexandre Rampazo julgue não ter esta medida de destinar livros para um leitor de idade específica em seu processo de criação, orientar a faixa etária traz um norte para quem oferece o livro a uma criança, segundo aquilo que lhe “cabe” e certo conforto a respeito do alcance que o leitor terá. Ao considerar essa conveniência, ele questiona: “Quantos pais ou mediadores estão dispostos a cavucar, através da interação com o leitor, as possibilidades que uma narrativa propõe e as questões que poderão surgir? A leitura precisa trazer este conforto para o mediador ou para o leitor?”

Para o autor, essa formatação funciona para o mercado, que costuma privilegiar prateleiras e nichos, e também para atender perfis de consumo a partir do que é definido por algoritmos e segmentação de público, por exemplo. Na mesma linha, Geruza aponta os benefícios que o mercado tira dessa classificação, por se basear na multiplicação dos desejos. “Quando a criança completa quatro anos, você deve comprar outro livro”, exemplifica, e isso mantém o mercado girando.

“Todo livro vem carregado de classificações. É aí que se vai enquadrando, desde muito cedo, a criança segundo a lógica da estrutura, da forma, da adequação, do limite”

O movimento oposto, de a criança querer se enquadrar, também é possível. “Esse livro é para mim porque é para crianças de 4 anos” ou “não vou ler o de 6 ou de 8, porque não estou preparada e não vou dar conta”. Ou seja, ela pode achar que determinado livro é muito simples, inadequado ou aquém de sua capacidade, e vai perder a oportunidade de se surpreender, comenta Geruza.

“Para a criança, essa classificação muito justa pode ser mais uma desserventia do que uma serventia”

Além de correr o risco de colocar a criança numa fôrma, como aponta Rampazo, “crianças de 0 a 2 anos, livros A; de 3 a 5, livros B”, esse mecanismo gerador de inseguranças pode causar impactos mais tarde no adulto, porque “ele se acostuma a ser guiado e já não consegue mais fazer escolhas próprias ou sustentar essas escolhas, porque falta um aval, uma tutela”, aponta Geruza.

Prazer, literatura: um convite à fruição

“A literatura sem classificação é uma utopia”, comenta Geruza ao lembrar de outras classificações de livros além da faixa etária: literatura infantojuvenil, infantil, livro ilustrado, livro-álbum, literatura escrita por mulheres, literatura militante, literatura de massa etc. Ela, que é também autora e tradutora de livros infantis, e dá aulas na pós-graduação “Livros para crianças e jovens”, do Instituto Vera Cruz, faz uma ressalva: “embora auxiliem diante da diversidade de títulos, elas não são fixas, não se colocam como uma obrigatoriedade nem devem determinar uma leitura ou outra”. 

Dentre as possibilidades incríveis que o livro e a leitura oferecem, formar repertório, desenvolver o caráter e nutrir pensamentos empáticos, críticos e abstratos estão entre os ganhos mais valorosos, comenta Rampazo. Ser leitor é ser curioso, procurar respostas e receber de volta ainda mais perguntas, sem limites para absorver conhecimento. Experimentar e ousar acessar o que, em um primeiro momento, determinada leitura possa parecer não pertencer àquele leitor, mesmo sem alcançar todas as camadas propostas, faz parte da construção leitora do indivíduo.” 

“Propiciar possibilidades de leitura mais abrangentes é também expandir perspectivas”

Para Rampazo, colocar uma régua de faixa etária nos livros talvez esbarre na crise conceitual que o ensino atravessa: perceber as individualidades. “Eu não gostaria de estar na pele de um educador em sala de aula sem conseguir dar maior atenção às individualidades de cada aluno e ter de colocar todos numa só caixa. Crianças absorvem de formas diferentes conteúdos comuns. Daí a importância da mediação e a sensibilidade do adulto que apresenta um livro para uma criança ao perceber seu interesse e respeitar suas escolhas, sem apontar caminhos, mas gerando uma troca a partir da escuta capaz de enriquecer a experiência de cada um.” 

“Encontrei na literatura feita para criança um lugar para partilhar pensamentos e um exercício para a possibilidade de reinvenção do mundo. Contribuir, mesmo que minimamente, para a construção de repertório de uma criança, faz parte da construção de um ser humano que perceba a voz diversa do mundo e se torne um adulto mais sensível ao que o rodeia.”

“A criança tem a capacidade ímpar de habitar em uma frequência poética do mundo e o livro corrobora esse sentido”

“À literatura pela literatura não interessa essa classificação, nem o leitor precisa disso para se interessar por um livro”, pontua Geruza. Afinal, é durante o percurso que o leitor vai descobrir seu próprio livro, uma vez que esse objeto é uma plataforma que se oferece para muitas leituras.

“Cada livro é como se fossem muitos livros, a depender do leitor”

Formas de se encontrar na literatura e extrapolá-la

Os livros sem classificação por faixa etária vai proporcionar a cada leitor a liberdade de fazer seu próprio percurso e suas próprias descobertas em quaisquer tipos de leitura, de acordo com o seu interesse, segue Geruza. “Embora seja importante conhecer o leitor com quem você deseja se comunicar (a literatura é outra forma de comunicação), isso não dará conta das singularidades, há sempre uma zona de indeterminação. A entidade leitora é um mistério. É muito provável que o leitor vá descobrir formas de se encontrar no livro que vai ler, mesmo que não tenha sido escrito para ele, a partir do conhecimento daquilo que deseja ou de quais são suas expectativas”, diz.

“Esse livro ideal sem classificações ou um lugar onde os livros estivessem misturados são possibilidades de liberdade às crianças”

Diante das jornadas individuais nesse processo leitor, Geruza recomenda prever situações em que a criança abandone a leitura. “Trata-se de uma atitude autônoma e muito corajosa, devendo ser respeitada e reconhecida, sem exigir que ela complete o livro. Às vezes, a leitura de um livro esbarra na leitura só da capa, da ilustração, de algumas páginas”. 

“O percurso do livro é livre”, lembra Pedro Bandeira. Para atrair as crianças, o autor se coloca a favor delas, oferecendo-lhes o apoio racional necessário, mas também livros que as orientem em seu amadurecimento emocional. “A criança vai crescer junto do personagem. Ou seja, existe a oportunidade de aprender sem ter de sofrer necessariamente, mas compreender emocionalmente o drama a partir das experiências narradas. A arte é fundamental por ser espelho para os sentimentos e alimentar o ser humano, de modo que a pessoa se veja, se entenda e se cure.”

“Literatura trata de emoções e ajuda na segurança emocional do leitor”

Por ser um momento de aprendizado da criança, é importante que essas histórias tenham um final feliz, acredita Pedro. “Há um jogo de intenções em meus livros, em que os personagens são jovens e erram, mas têm a oportunidade de consertar os erros. O herói precisa ser premiado ou punido de acordo com suas ações, como na vida, com seus bons e maus caminhos emocionais.”

Para ele, a graça de escrever para crianças é colocar o leitor no colo, para que comece a subir a escada da leitura gostosamente, pisando cada degrauzinho – o degrauzinho do Ziraldo, o degrauzinho da Ruth Rocha, o degrauzinho da Ana Maria Machado…

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Resumo

Diante de uma dúvida comum de pais e educadores sobre que tipo de livros podem ser lidos pelas crianças dependendo da idade, consultamos especialistas em literatura infantojuvenil para tentar responder para que serve a classificação etária.
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