Por mais escadas que facilitem o acesso da infância à literatura

Obras como a de Kobra destacam a importância de crianças estarem em contato com os livros para conquistarem lugares cada vez mais altos
Divulgação/arte Lunetas
  • Publicado em: 01.03.2021
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“O menino que sobe as escadas para alcançar um livro simboliza o esforço pelo conhecimento, superando degraus a caminho dos sonhos, dos objetivos de vida”, declara o artista Eduardo Kobra, responsável pelo mural que circulou as redes sociais e está ao lado de uma escola em Sorocaba, cidade no interior paulista. 

O objetivo é “mostrar e despertar a importância da literatura, que nos ajuda a alcançar posições mais altas, sobretudo quando o Brasil perdeu quase 5 milhões de leitores e apenas 52% da população tem o hábito de leitura”, declara Kobra em referência à última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Por outro lado, esta mesma edição da pesquisa revelou o aumento de crianças, entre 5 e 10 anos, que se declaram leitoras e dizem gostar de ler.

A obra é resultado de um trabalho colaborativo. Foram mais de 4 mil comentários com dicas de obras literárias sugeridas pelos seguidores do artista. Destas, 150 foram escolhidas para compor o desenho, segundo o critério de serem livros da literatura brasileira, “desde clássicos, contemporâneos, literatura marginal, passando pelo meu universo de trabalho e pesquisa que me influenciaram a alguns títulos infantis”, comenta. 

“Muitos títulos se repetiram e percebi que as pessoas têm verdadeira paixão por alguns escritores. Então, a ênfase acabou ficando entre os clássicos, como Aluísio Azevedo, Clarice Lispector, Machado de Assis, Mario Quintana, Ferreira Gullar, Guimarães Rosa, que foram os escritores mais indicados.”

Uma obra interativa a favor da literatura
O mural de quase 21 metros de altura recebeu cerca de 10 desenhos diferentes envolvendo a questão da literatura até alcançar a versão final. “Quando eu cheguei a esse conceito de transformar a parede numa estante de livros, vi que funcionou. Então, comecei a fazer vários testes. A parte criativa do desenho às vezes exige mais tempo do que a pintura em si. O processo todo levou aproximadamente 1 mês, e a parte de produção se estendeu por 15 a 20 dias, trabalhando das 8 da manhã até as 8 da noite, todos os dias”.

Para construir suas obras, Kobra diz frequentar livrarias e bibliotecas em busca não só da parte iconográfica – ilustrações fantásticas que os livros contêm e de gênios da arte já ilustraram grandes livros -, mas também para pesquisar sobre a história e a biografia dos retratados nos murais (Ele já desenhou a vítima do holocausto Anne Frank e a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, por exemplo. Outros retratados que receberam as cores vibrantes do artista foram Ayrton Senna, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Albert Einstein e Salvador Dalí).

Para ele, os livros são sinônimo de liberdade. “Os livros nos libertam, ajudam a gente na solidão e representam um escape, podendo ser realmente nossos bons amigos.”

“Livros não foram feitos para decorar estantes”

“Além de interagir com as pessoas que me seguem, esse processo me enriqueceu também em nível de conhecimento. Afinal, a leitura enobrece, nos faz crescer, nos abre novos horizontes, nos faz viajar para diferentes mundos. Um verdadeiro exercício de conhecimento, que acrescenta valor às nossas vidas e ao nosso trabalho.”

“A literatura é indispensável, não só na infância, mas durante toda a nossa vida”

Segundo o artista, a criança do mural representa as infâncias brasileiras, “tantos meninos e meninas que estão à espera de uma oportunidade, em lugares sem acesso à escola”. Ele, que tem seu trabalho entre os mais licenciados para livros didáticos em todo o Brasil, defende investir em literatura e educação “para o país crescer, para a gente crescer como nação”.

Tem literatura “certa” para crianças e jovens?

O mural do Kobra foi divulgado dias após uma polêmica que também tomou as redes, parte da corrente “Crie uma treta literária e saia”, com a declaração de Felipe Neto criticando a indicação de livros clássicos para jovens. Para o influencer digital e youtuber, “forçar leitura de Álvares de Azevedo e Machado de Assis é um desserviço das escolas para a literatura”, o que contribuiria para criar aversão à leitura.

Diante dos comentários que recebeu em resposta, Felipe se posicionou alegando não ter defendido a supressão de nenhum autor, apenas propôs um debate sobre mudanças no sistema de ensino. Além da questão de como equilibrar cânones literários com a produção contemporânea, mais próxima à realidade dos alunos, esse debate envolve também a questão de como escolher livros infantis de qualidade e trabalhar a literatura nas escolas, privilegiando a formação de leitores.

O escritor Pedro Bandeira, importante autor de livros infantojuvenis, comentou que não seria mesmo bom obrigar os jovens a lerem os clássicos. “Escrevi que os contos de Machado de Assis são fáceis e podem ser lidos por qualquer um, mas que ‘O Ateneu’, de Raul Pompeia, não, esse é muito árido”, contou. Em resposta, uma amiga declara que adorou ler “O Ateneu” quando era criança. Então, segundo ele, predomina a perspectiva de que um mesmo livro pode ser acessado de diferentes maneiras por cada leitor.

Sendo assim, qual o próximo livro que você vai ler?

5 motivos para ler os clássicos

1. São atemporais
Clássicos não envelhecem nunca! Apesar de muitas obras estarem localizadas em épocas específicas, os clássicos são capazes de retratar também questões essenciais à natureza humana e, por isso, permanecem relevantes.

2. São influentes
Ler clássicos nos permite “beber direto da fonte” e conhecer os autores e as histórias favoritas que inspiraram diversos escritores e fomentaram um legado de influências em áreas como cinema, música, pintura, literatura…

3. Uma nova interpretação a cada leitura
A cada releitura, revela-se uma nova camada, cheia de detalhes. São obras que podem crescer junto com a gente, ganhando um significado diferente a cada releitura.

4. Provocam discussões
Essas diversas interpretações possibilitam muitas discussões sobre os livros. Por isso, um clássico traz consigo muitas resenhas, artigos, debates e pesquisas acadêmicas de diferentes épocas, com vários pontos de vista.

5. Conhecer obras que marcaram a história
Quer você ache um clássico bom ou ruim, uma coisa é certa: eles marcaram a história da humanidade! Seja por terem iniciado tendências, descrito acontecimentos históricos ou até mesmo inserido novas palavras no nosso vocabulário, depois que são lançados ao mundo, os clássicos possuem a maravilhosa capacidade de alterá-lo para sempre.

Fonte: Adaptado da editora Antofágica

Leia mais

Afinal, para que ‘serve’ a literatura infantil?

Resumo

Clássicos da literatura brasileira ganham destaque em mural feito por Eduardo Kobra: “Que a literatura nos ajude a alcançar posições mais altas", diz o artista.
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