Como e onde escolher livros de qualidade para as crianças?

Livros para crianças não precisam necessariamente ser simplistas e hipercoloridos. Literatura infantil também é linguagem artística. Confira as entrevistas
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 11.02.2019
por

É muito provável que, em grande parte do Brasil, ao entrar em uma livraria em busca de bons livros para presentear uma criança, o adulto precise vencer montanhas de personagens e livros de colorir. Há também aqueles com botões para apertar, que acendem luzes e cantam com a criança: os chamados livros-brinquedo. Para os bebês, não faltam livros de banho, os cartonados e os de pelúcia. Passam por aí – e por outras muitas pirotecnias audiovisuais, sensoriais e tecnológicas – as imposições mercadológicas do que se entende que um leitor mirim deva ler.

Em alguns casos, não há nenhum problema com essas opções. Porém, quando são a única oferta de livros a que a criança terá acesso, é de se pensar qual relação com o livro e com a arte estamos fomentando e como ela pode ser ampliada para outras possibilidades. Afinal, uma infância leitora é feita de experimentações que vão muito além daquilo que o mercado entrega pronto.

É da artista e ilustradora tcheca Kveta Pacovska – que em 1992 ganhou o Hans Christian Andersen, considerado o mais prestigiado prêmio para a literatura infantil do mundo – a máxima: “Um livro ilustrado é a primeira galeria de arte que uma criança visita”. Para a professora e pesquisadora argentina Cecília Bajour:

“A escolha de textos desafiadores, que não caiam na sedução simplista e demagógica, que provoquem perguntas, silêncios, imagens, gestos e rejeições é a antessala da escuta”

Partindo desse ponto de vista, fica mais fácil imaginar o que um livro bom precisa ter. E também mais fácil supor que um caderno de colorir da Peppa Pig, apesar de poder ser um brinquedo divertido para a criança, é outra coisa…

O que define uma literatura infantil e juvenil de qualidade?

Texto instigante, imagens artisticamente estimulantes, projeto gráfico provocativo. Enfim, elementos que ampliem o horizonte de mundo da criança fazem parte dos critérios que ajudam a identificar a natureza artística de um livro. Mas não só.

Como distinguir os bons livros no meio de tantos que diariamente chegam às prateleiras? Essa é uma dúvida recorrente entre os leitores do Lunetas. Então, fomos ouvir quem pesquisa o assunto.

Com formações e trajetórias distintas, a designer e pesquisadora Ana Paula Campos e a pedagoga e assessora literária Ana Leme trabalham com curadoria e mediação de leitura para crianças.

Ana Paula é autora do projeto “Inventórios“, que foi sua pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), e hoje é uma conta no Instagram que divulga achados do universo literário, incluindo “não ficção poética para crianças. Livros, projetos, inspirações”; Ana Leme é a idealizadora do Movimento Literário, que funciona ao mesmo tempo como uma loja virtual que oferece uma curadoria de livros cuidadosamente selecionados, e também como um braço de militância pela leitura literária nas escolas. Depois de trabalhar por mais de 10 anos como divulgadora escolar e de passar por grandes casas editoriais, ela resolveu encurtar o caminho para chegar no leitor. Hoje, além do site, ela trabalha diretamente com educadores e coordenadores pedagógicos, indicando livros que podem ser adotados nas escolas, mas com intuito artístico, não didático.

Muito além dos ‘livrinhos’: a importância do mediador

O diminutivo costuma ser só uma forma de demonstrar carinho pelo objeto. Mas, histórica e culturalmente, o termo também marca um preconceito sobre aquilo que se entende por literatura infantil. Ou seja, uma opinião de que livros para crianças são menos literatura que os outros. Por que isso acontece? Muitas vezes, porque há uma certa ideia formada de como “deve ser” um livro para crianças. Por trás, está a própria noção de criança. Seria o mesmo que dizer que uma criança não precisa de estímulos literários porque não tem capacidade de absorvê-los.

Daí a importância do mediador. Afinal, geralmente é o adulto que escolhe quais livros chegarão às mãos dos pequenos. Até mesmo quando é a própria criança que alcança na prateleira da livraria qual livro lhe atrai, por exemplo, é preciso lembrar que esse interesse sofre influência da publicidade e de referências externas, ou seja, também é algo que vem do adulto.

“Claro que, como mediadores, não podemos antecipar o que os leitores trarão durante uma leitura de um livro que chamamos de “potente”, repleto de “camadas” que poderão ser alcançadas durante a conversa. Porém, um mediador preparado para este encontro e com boas escolhas literárias, certamente contribuirá muito com a formação do leitor”, diz Ana Leme.

“A escuta é o ponto principal da mediação. A criança fala de várias formas. Muitas verbalizam; outras falam através do corpo e até mesmo através do silêncio”

Ana Paula Campos chama atenção para outra questão crucial quando falamos em mediação de leitura, o fato de que as crianças absorvem mais o exemplo e o comportamento do adulto do que aquilo que ele manda fazer ou apresenta como verdade.

“Escolher livros pode ser muito prazeroso se a pessoa também está interessada, apaixonada, intrigada em relação a essas obras”

“Quando um adulto está genuinamente interessado em criar esse canal sensível com os pequenos, tudo flui melhor”, defende a pesquisadora, que tem se dedicado a estudar os chamados “livros informativos”, aqueles que apresentam um determinado assunto para a criança, como os livros sobre dinossauros, a vida marinha, o corpo humano, as grandes mulheres da História, e por aí vai. Ela defende que a escolha dos livros informativos devem ir de encontro com a curiosidade da criança, o que resulta de uma convivência harmônica com elas, escutando suas curiosidades e seus anseios.

“Acima de tudo, os informativos devem ser livros interessantes, como quaisquer outros. A gente tem que ir atrás do que está chamando a atenção das crianças naquele momento (e também do adulto que vai escolher). E, claro, ouvir muito e dar espaço para isso aparecer de um jeito espontâneo”.

Como descobrir se o livro é “bom” ou “ruim”?

Nossas entrevistadas dividiram com o Lunetas alguns critérios que usam como uma espécie de régua de qualidade do livro, tanto de literatura de ficção quanto de livros informativos. A ideia não é apresentar uma receita pronta e nem julgar isoladamente a qualidade de uma obra, mas oferecer provocações que ajudem a escolher, com mais repertório e consciência, aquilo que se quer. Se a maioria das respostas for “sim” para as questões a seguir, há grandes chances de você ter um bom livro informativo em mãos.

Ana Leme, do Movimento Literário

  • Este livro prima pela qualidade da linguagem?
  • Posso olhar para este livro como um objeto cultural?
  • As ilustrações e o texto dialogam? Ou as imagens são meramente redundâncias do texto? Houve uma preocupação com o estético?
  • E o cuidado gráfico? Traz novas camadas quando olhamos como um todo a obra?
  • Será que essas imagens são estereotipadas? Elas permitem que as crianças (o leitor) possam colocar seus pensamentos em sintonia com a narrativa?

Ana Paula Campos, do Inventórios

  • O texto é claro e explica as coisas de um jeito que mantém o interesse em alta?
  • As ilustrações ajudam a entender e acrescentam algo que não está nos textos?
  • Há variedade de tipos de ilustração? Por exemplo, imagens mais poéticas e outras mais explicativas?
  • Na ficha técnica, você encontra um ou mais revisores técnicos?
  • A editora é reconhecida por realizar um trabalho sério?
  • Há elementos que ajudam a navegar pelo conteúdo, como divisão em capítulos, índice, glossário, lista de referências ou algo do tipo “para saber mais”?
  • O livro é bonito e logo de cara conta do que trata? Tem um bom acabamento, papel, cores, encadernação etc.?
  • As imagens surpreendem e o conteúdo dá uma sensação do tipo “hummm, nunca tinha pensado por esse lado”?

Assessoria literária nas escolas

Você sabia que existe um profissional que trabalha especificamente para ajudar a escolher livros bons para os estudantes? É o assessor literário, que atua diretamente nas escolas, auxiliando professores e coordenadores pedagógicos na tarefa de fazer chegar até as crianças livros com o máximo possível dos critérios anteriormente citados.

“Selecionar não quer dizer restringir, mas exatamente o contrário, selecionar significa valorizar” (Geneviève Patte, bibliotecária francesa)

Principalmente em relação a editais de compras de governo para as escolas, como PNLD Literário (Programa Nacional do Livro Didático), do Ministério da Educação, esse trabalho tem uma função formativa, de criar repertório em quem media a leitura, e também de situá-lo diante de uma quantidade imensa de livros.

Em 2018, foram 97 livros didáticos e outros 704 de literatura (ao todo, foram mais de mil livros inscritos, dos quais mais de 300 foram reprovados pelo governo), divididos entre Educação Infantil (creches e pré-escolas), Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio. Ou seja, é muito livro para dar conta, e improvável que os professores conheçam todos deles, daí a importância de um assessor literário.

“A escola hoje está repleta de funções e currículos que as ‘obriga’ a voltar de forma mais urgente os olhares para as leituras literárias. Precisamos falar sobre a leitura literária na escola e sobre a escuta na infância. Quando leio uma obra que os fará pensar nela por muito tempo, ouço dos professores: ‘quero saber mais sobre isso tudo’. Sinto que é possível fazer a escola voltar mais seus olhos para as obras literárias com o foco na formação literária de cada um, porém é um trabalho de formiguinha, união e resistência”, compartilha Ana Leme.

“Os educadores e alunos estão sucumbidos de informações didáticas”

Quem lê bem um livro, pode ler bem o mundo

Ninguém nasce sabendo ler, nem gostando de ler. É um comportamento socialmente adquirido e aprendido durante toda a vida. Se os adultos do convívio da criança são leitores, o caminho já está na metade. Mas, afinal, qual a importância de apresentar a literatura para a criança, desde a primeiríssima infância?

Conhecer as histórias de ficção e os muitos mundos que podem existir representa uma provocação para os sentidos. Ler é ampliar as percepções para além do universo conhecido, alargar o olhar para o outro e para o mundo, reforçar a pluralidade e a diversidade, desenvolver a empatia, e muitas outras possibilidades.

Para Ana Paula Campos, tudo começa na construção de uma paixão que só tende a crescer. “Se ele for contaminado por esse vírus do prazer de desvendar a leitura tanto verbal quanto visual, aí não tem jeito, ele vai levar essa experiência para a vida toda e possivelmente se tornar um leitor crítico, consciente, sensível”, arremata a pesquisadora.

“E não é de mais pessoas assim que a gente precisa?”

Leia mais

Por que livros devem (ou não) ser classificados por faixa etária?

Resumo

Como distinguir os bons livros no meio de todos os outros que diariamente chegam às prateleiras, muitas vezes de personagens ou pouco atrativos artisticamente? Essa é uma dúvida recorrente entre os leitores do Lunetas. Então, fomos ouvir quem pesquisa o assunto.
Ir para o início
Alguma dica ou sugestão? Encontrou um erro? Clique aqui e compartilhe com a gente!

Tenha Lunetas no seu e-mail