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  • Publicado em: 09.06.2021
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Na minha última coluna, escrevi uma carta aos bebês nascidos durante a pandemia, em que agradecia esses seres pequeninos que tanto respeito e amo. Compartilhei com vocês o meu sentimento de que, quando observo os bebês se desenvolvendo, tudo parece fazer sentido, e nasce em mim um sentimento de esperança e de crença em dias melhores. Queria poder sempre falar da vida, do desenvolvimento das crianças e de todas as coisas belas que me fazem acreditar na humanidade. Contudo, um tiro de fuzil minou a minha esperança.

Novamente, sou levada a escrever sobre perdas, tragédias, violações de direitos. A morte de Kathlen Romeu me impede de ter esperança. Kathlen tinha apenas 24 anos e estava grávida de quatro meses do seu primeiro filho. Suas vidas foram prematuramente interrompidas em mais uma ação desastrosa da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

A desumanização da sua morte, pela ausência de cobertura dos grandes jornais brasileiros e pela falta de indignação coletiva, me faz lembrar que corpos negros continuam sendo alvo prioritário de todas as balas chamadas “perdidas”.

“Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém” 
(“De frente pro crime”, João Bosco, 1974)

Nem mesmo o útero materno foi capaz de proteger Maya ou Zyon (nomes escolhidos por Kathlen para o futuro bebê). Num país que acumula mais de 470 mil mortes por covid-19, mas que segue pronto para sediar um campeonato de futebol, a morte de Kathlen e de seu bebê é mais um “corpo estendido no chão”.

O que faz crescer a indignação, a dor e a revolta é que este não é um fato isolado. De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, entre 2017 e 2020, foram mapeadas 14 mulheres grávidas baleadas na região metropolitana do Rio de Janeiro, sendo que oito dos bebês não resistiram.

O genocídio da população negra, que tanto denunciamos, começa no ventre.

São as crianças negras as que mais morrem de fome, por não terem acesso aos direitos básicos de provisão. São essas mesmas crianças que são mortas pelas “balas perdidas” que saem certeiras do policiamento do Estado. São essas crianças que desaparecem por seis meses e seguem sem ter nem ao menos uma investigação conclusiva. São essas as crianças colocadas sozinhas em um elevador para morrerem ao caírem de um terraço, tentando chamar a mãe que passeia com o cachorro da patroa. Até quando suportaremos o extermínio das nossas crianças?

Tenho a sensação de que a cada corpo preto que tomba, um pouco da nossa esperança se esvai.

No entanto, não me permito ficar apenas em luto, mas advogo pela necessidade de luta. A responsabilidade pela vida e bem-estar das crianças é responsabilidade da família, do Estado e da sociedade, como preconiza a Constituição Federal. Cabe a todos nós defender a vida das crianças pretas e pobres do nosso país.

É justamente por amar tanto os bebês e as crianças, e desejar apenas falar sobre seus lindos feitos, que me junto à dor de todos aqueles que hoje protestam pela morte de Kathlen Romeu e gritam: “basta!”

Que a nossa dor se torne combustível para a mudança e que não haja silêncio de amém!

Não podemos permitir que sigam matando as nossas crianças, pois elas são, não apenas nosso futuro, mas o que temos de mais lindo no presente.  

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Resumo

A morte da modelo Kathlen Romeu, 24, grávida de quatro meses revela mais uma face da desumanização dos corpos negros, alvos prioitários das chamadas “balas perdidas” - uma desumanização que começa na infância.
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