Seleção de histórias: a paixão das crianças por futebol

Será que essa paixão ainda corre pelas veias e bate forte no peito das novas gerações?

Laís Barros Martins Publicado em 23.02.2021
Foto de uma menina segurando uma bola de futebol ao lado do rosto
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Resumo

Um time escalado para investigar como infância e futebol se relacionam nos dias de hoje e se a paixão mantém a mesma força que arrebatou gerações anteriores.

Pontos acumulados ao longo das rodadas, equipes disputam a liderança da tabela e, na partida final – às vezes antes, até -, um time é campeão. No decorrer dessa jornada, torcedores vibram junto de seus representantes em campo, numa relação de verdadeira paixão.

O futebol, parte do imaginário de tantos brasileiros, costuma encontrar na infância um gramado verdinho para os primeiros bate-bolas e os primeiros tira-teimas. Há campo ainda que o chão seja de terra batida e a bola improvisada em pares de meia. Para entender essa relação entre infância e futebol, e como o esporte contribui para a criação de vínculos afetivos entre pais e filhos, o Lunetas uniu algumas torcidas para jogar no mesmo time ao compartilhar histórias.

Paixão hereditária: o amor pela bola que passa de pais para filhos

A paixão pelo futebol é muitas vezes anterior à barriga da mãe ou assim que o casal se descobre “grávido”. Antes de o bebê nascer, pais que amam o esporte já fazem planos para receber o novo torcedor, vesti-lo com o uniforme do time, levá-lo ao estádio, unirem-se num grito de gol…

Caetano teve sua primeira experiência de vitória com apenas 2 meses de vida. “O uniforme completo foi presente da tia dele, minha irmã. Claro que ele poderá escolher para que time torcer, como eu escolhi sozinho, sem influência do meu pai que não ligava tanto para esporte, e mesmo meu avô sendo corinthiano. Enquanto isso, estou fazendo minha parte para ele gostar do Verdão e fazer dessa foto motivo de orgulho”, declara o pai Gabriel Vidal.

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Arquivo pessoal

Gabriel Vidal e Caetano assistindo juntos à final da Libertadores que consagrou o Palmeiras campeão

“O futebol é um grande fator de união entre pais e filhos, não raro o único ponto em comum entre as duas gerações, pelo menos quando os dois torcem pelo mesmo time”, comenta o escritor José Roberto Torero, pai do Matias, 7 anos. “Diferentemente da mãe, que os dois disputam, o amor pelo clube é coletivo, unificador.”

“Uma conexão entre pais e filhos para a vida inteira”, concorda Camila Melo, mãe dos gêmeos Helena e Vítor, 4 anos.

“O futebol transita pelos dois mundos – o adulto e o infantil -, é como se pais e filhos pudessem sentir a mesma coisa, mesmo em universos diferentes”

Luís Fernando Santos é fã do esporte desde pequenininho, “uma paixão mais antiga do que consigo lembrar”, conta. Embora os filhos possam não gostar tanto (ou mesmo nem gostar) do esporte como os adultos, ele diz valer a pena mostrar, aos poucos, as dimensões daquilo que o apaixona ao João, 3 anos: da emoção de ir ao estádio ao grito de “vai, Corinthians”.

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Arquivo pessoal

Luís Fernando Santos e João, dupla assídua para assistir jogos no estádio e gritar juntos “vai, Corinthians”

Memórias de infância e bola na rede: um gol a mais para o placar

Em uma crônica, Torero conta como tardou a escolher para que time torcer. Foi em sua primeira visita ao estádio com o pai, aos 9 anos, que a decisão se deu. Naquela noite, na Vila Belmiro, a arquibancada ficou de pé para aplaudir um jogador do Santos. “Houve um instante de silêncio, como se ninguém acreditasse no que via”, narra o escritor. “O jogador abriu os braços e virou-se, de joelhos, para os quatro lados do estádio”. Ao indagar o pai por que todo mundo estava chorando, descobre que aquele era seu último jogo. Era Pelé. Foi aí que, para consolar o pai que também chorava, o menino declarou: “Pai, acho que vou torcer para o Santos”. Anos mais tarde, Torero seria responsável por escrever, entre outros títulos, uma homenagem aos 70 anos do “atleta do século” e um livro sobre o clube.

A paixão que corre no sangue de Camila é tradição familiar. A avó, de 86 anos, é apaixonada pelo Internacional e “não perde um jogo do Colorado por nada, toda fardada”. Seu pai foi dirigente do time por muitos anos, até 2019, e hoje integra o conselho deliberativo, do qual seu marido, Luciano Iob, também faz parte.

Apesar disso, Camila não foi incentivada a gostar do esporte por não o considerarem “coisa de menina”. Sem deixar a paixão arrefecer, “já crescida, passei a acompanhar todos os jogos do meu clube, ir a campo, debater futebol em rodas de conversa em que mulheres ainda não eram bem-vindas”, diz. Um dia, combinou de ir a um jogo com um colega de trabalho. “Foi justamente num estádio de futebol, há 12 anos, o nosso primeiro encontro ‘romântico’”.

Agora, o casal transmite a herança aos filhos. “Helena e Vítor são também encantados pelas quatro linhas, pelo murmurinho inconfundível que vem da torcida, uma influência direta da paixão que temos pelo esporte, por frequentarmos o estádio, assistirmos aos jogos, acompanharmos as notícias relacionadas ao futebol”. Além disso, tendo o avô dirigente do time, as crianças “acessavam o vestiário, jogavam bola com alguns de seus ídolos, iam a treinos etc.”, conta a mãe.

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Arquivo pessoal

Os gêmeos Helena e Vítor, de 4 anos, ambos fãs de carteirinha do Internacional desde pequenos

Entre as memórias de infância, Camila compartilha a história de quando tinha uns 10 anos e a família estava reunida para assistir ao Grenal. “Meu avô materno, que já estava doente, segurava a TV de tubo Sharp na hora do gol para que ela não caísse, já que umas 15 pessoas pulavam no assoalho de madeira. Tenho pouquíssimas memórias dele, mas sempre recordo com carinho daquele dia. O que me encanta no futebol é justamente a capacidade de celebrar uma vitória em meio às tristezas, mesmo que todos estejam com o coração partido”, diz.

“Não existe solidão no futebol. Sempre haverá alguém sentindo o mesmo que você, no grito de gol ou no choro miúdo da derrota”

Vivências de futebol dentro e fora do campo da infância

“Talvez a maioria dos amores comece na infância”, comenta Torero. “O futebol, por ser uma espécie de escola lúdica, faz parte da infância de muitas formas: é o começo da vida competitiva, é um brinquedo, é um desafio motor, é aprender a trabalhar em equipe e é o início da identificação projetiva, porque escolher um time é começar a fazer parte de uma comunidade.”

“Você aprende movimentos, relações sociais, noção de tempo e espaço, convivência com vitórias e derrotas e, o mais importante, de vez em quando faz um gol”

O que as crianças podem aprender com o futebol?
Oportunidades para a criança se desenvolver dentro e fora de campo
– Desenvolvimento motor
– Convivência social
– Trabalho em equipe e cooperação
– Entendimento de regras
– Saber perder
– Disciplina, persistência e treino
– Tomada de decisões
– Confiança e autoestima
– Respeito por todos

Futebol significa “ser parte do mesmo grupo, da mesma aldeia, com os mesmos objetivos e interesses”, completa Luís Fernando. Além de reforçar esse sentimento de pertencimento, o torcedor acrescenta: “Como mexe fortemente com a emoção, é ter relacionamento em estado bruto, sem amarras ou preocupações”.

Essa vivência faz parte do dia a dia de Helena e Vítor. “Depois de meses de confinamento, encontrei um campinho meio abandonado perto de casa e passamos a frequentá-lo quase todas as tardes: eu, eles e a bola”, conta Camila. Paramentados com caneleiras, chuteiras, luvas, meiões, apito, cartões e até colete dos reservas, entre as brincadeiras preferidas da dupla estão “imitar os trejeitos do goleiro, o corre-corre dos jogadores de linha e até o quadradinho do VAR – Helena fica com o dedinho no ouvido simulando o ponto do árbitro. Passaram a simular até as faltas, se contorcendo de dor no chão, como os jogadores fazem”. Outra diversão é reproduzir as frases dos narradores, arte que Helena domina, como fica comprovado nesse vídeo que viralizou nas redes.

“É uma coisa muito bonita testemunhar o imaginário de uma criança, tão rico em detalhes”

“Tentamos proporcionar que ambos sejam livres e independentes em sua imaginação. Quando meu marido joga futebol com as crianças, é como se tivessem a mesma idade, todos se divertem juntos na mesma brincadeira”, conta Camila. Aliás, o futebol está presente em várias modalidades.

“Eles jogam futebol em casa, na rua, na praça, jogam pebolim (que passou a integrar a decoração da sala) e jogam futebol de botão. Ainda tem aquele campinho em que Helena simula uma partida de futebol com os bonequinhos da Marvel.”

Embora o futebol ainda prevaleça nas relações masculinas, pesando o fato de dominar uma sociedade machista, Torero aponta que “a obrigatoriedade dos clubes terem versões femininas dos times ajuda bastante a ter mais meninas gostando de futebol, sem contar a presença de comentaristas e narradoras”. Além disso, o escritor comenta como era raro ver uma mulher no estádio e “hoje elas frequentam arquibancadas, estão jogando no campo e falando nas cabines de imprensa. É uma melhora razoável. Lenta, mas constante.”

A paixão pelo futebol segue invicta entre as novas gerações?

Como era bastante comum meninos quererem se tornar jogadores de futebol, Torero sonhava em jogar pelo Santos, embora pudesse se contentar com o Jabaquara, brinca. O sonho, contudo, parece menor hoje em dia. “Antigamente, este era o grande assunto, o único assunto. Meu filho Matias sonha hoje em ter um canal de games, por exemplo. Acho que o futebol ainda é muito importante para as crianças, mas menos”, diagnostica o fim do absolutismo do futebol como diversão infantil masculina.

“De certa maneira, saímos da monocultura ludopédica”

Segundo pesquisa da Unicef, a carreira de jogador do futebol apresenta “vulnerabilidades”, impedindo a garantia integral de direitos à saúde, à educação, à convivência familiar e comunitária, e à integridade física (por conta da atividade de alto impacto) e psicológica, o que facilita a ação de aliciadores. A pesquisa mostra também que meninos e meninas que frequentam centros de formação de atletas, como clubes e escolinhas privadas de futebol, são expostos a riscos como profissionalização precoce, exploração e abuso sexual, afastamento do ensino regular, e também estão expostos à discriminação racial e de gênero.

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Torero e Matias, futebol com diferentes pesos: o pai registrou a paixão pelo futebol nos livros e o filho prefere acompanhar canais de games ao esporte

“Hoje, talvez youtubers como Lucas Neto e Gato Galactico sejam mais importantes do que Neymar para muitas crianças. E a atualização do PK XD ou a nova temporada de ‘Irmão do Jorel’ talvez sejam mais ansiosamente esperadas do que a próxima contratação do Corinthians”, arremata o escritor.

Para Luís Fernando, embora haja mais esportes disponíveis e, sem dúvida, mais ídolos a eleger, inclusive outras atividades competindo pela atenção das crianças, “basta vê-las em volta de Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar para entender que isso não mudou tanto”, acredita.

Em sua escalação de ídolos, Luís Fernando convoca “Maradona, por amor ao jogo; Romário, pelo que fez na seleção; Sócrates, por seu papel em favor da democracia; Baresi, por ser o zagueiro mais completo que já vi; Klinsmann e Van Basten porque faziam muitos gols e tinham a explosão de comemoração que todo menino gosta”.

Sobre o risco de meninos e meninas elegerem adultos imperfeitos como ídolos no futebol, Torero acredita que “os jogadores não são diferentes de youtubers, políticos, religiosos, atores, cantores, pais, amigos e professores. Há jogadores machistas como Neymar, mas há jogadores engajados politicamente como Richarlyson; de direita, como Felipe Melo; ou bissexuais assumidos, como Marta. Esses atletas fazem parte de um grande caldo cultural”.

“O importante é conversar sobre tudo com as crianças, sem endeusar este ou aquele”

Já em relação à “imposição” do time a torcer ou a “pressão” para que a criança goste de bola, Torero pondera: “Há pais que não ligam muito para isso e deixam o filho escolher livremente. E há pais malucos que tentam impor um time ao filho a qualquer custo. Mas estes também podem impor gostos estéticos, preferências sexuais e carreiras profissionais”.

“O futebol acaba sendo o menos importante, apesar de muito simbólico”

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