Introdução alimentar: ‘A meta não é comer’, diz educadora

Tire suas dúvidas sobre este assunto tão importante e que gera tanto receio em novos pais: introdução alimentar
  • Publicado em: 10.11.2017
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“Só os passarinhos recebem comida na boca”, observa a educadora Fabiolla Duarte. Crítica em relação ao famoso método da distração ou de utilizar a comida como moeda de troca por recompensa, ela procura trazer um outro olhar sobre a introdução alimentar. “Para dar qualquer salto de desenvolvimento com um bebê, eu tenho que aprender qual é o percurso cognitivo desse indivíduo”, afirma.

E para isso, segundo ela, não existe método, fórmula e nem é necessário o estímulo, apenas deixar com que a criança se interesse pelos alimentos e construa sua própria trajetória de relação com a comida. O papel dos cuidadores? Dar espaço para que isso aconteça, sem pressa. “O desafio é desconstruir a ideia de que nós somos os protagonistas da introdução de alimentos”.

Luven Fotografia

“Cuidar da introdução de alimentos de um bebê é apenas dar espaço para as tentativas dele de se aproximar do cenário alimentar”, afirma Fabiolla Duarte.

Fabiolla se formou na Inglaterra, pelo Emerson College e pela Faculdade Belas Artes de São Paulo com licenciatura em artes visuais. Seu trabalho de conclusão de curso fez o registro cultural da alimentação colonial na obra do pintor francês Jean-Baptiste Debret.

Ela é idealizadora do Colher de Pau, um projeto com foco na introdução de alimentos e no comportamento alimentar infantil, a partir do ponto de vista do desenvolvimento da criança. Conversamos com a especialista sobre prontidão motora, o caminho dos bebês em busca do alimento, possibilidades iniciais e o papel dos adultos nesse processo.

 

Confira a entrevista com Fabiolla Duarte

Como surgiu o Colher de Pau?

Fabiolla Duarte: Foi pensando na introdução de alimentos para o meu filho, Hari, hoje com sete anos. Pesquisei várias linhas, como a macrobiótica, a antroposofia e o crudivorismo. Como todas falavam coisas diferentes, até mesmo os pediatras entre si, fiz uma síntese de todas as linhas e fui experimentando com ele [Hari]. Dei alguns passos para frente e outros para trás até que percebi que era importante esperar meu filho se movimentar na direção da comida. Ou seja, quando percebi que algumas coisas não davam certo e deixei elas acontecerem sozinhas, foi aí que eu aprendi sobre introdução de alimentos.

O bebê sentou, já está pronto para comer?

Fabiolla: Não necessariamente. Sentar é, ao meu ver, uma interpretação superficial do que significa prontidão motora. Prontidão motora é o sinal mais visível e que mais revela sobre maturidade digestiva. É, por exemplo, imaginar que qualquer filhote na natureza só come se vai até o alimento. É pensar que um filhote, em algum momento, movido pela curiosidade, vai na direção de um mundo de possibilidades. Ele vai até a comida movido pelo interesse de saber o que aquilo é e não porque está com fome e a comida vai resolver o problema dele. Ele não tem fome, porque mama no peito ou na mamadeira. O bebê só dá conta de se relacionar com esse novo mundo, cheio de novos tons, cores e novas formas geométricas, no qual a comida está inserida, se ele faz isso pelas próprias pernas. Então, vai muito além do que só sentar.

Existe um melhor método para introduzir os alimentos sólidos?

Não acredito em método nem em receita alguma para nada. Eu acredito em quem é o cuidador e como ele está exercitando uma escuta conectada com a criança. Para dar qualquer salto de desenvolvimento com um bebê – e a introdução alimentar é um salto de desenvolvimento-, eu tenho que aprender qual é o percurso cognitivo desse indivíduo. Para isso, vou utilizando o que ele vai me fornecendo de material, como pista de como lidar com ele. Não uso fórmula e receita para aplicar nele, porque isso achata o indivíduo. O método traz um olhar que tem como expectativa que todos tenham os mesmo resultados, nas mesmas datas, com a mesma performance, caso contrário não deu certo. Essa é uma visão violenta aplicada com as crianças e com nós mesmos.

As crianças podem ter traumas alimentares?

Dependendo do nível de insistência dos adultos, pode deixar alguma cicatriz, desencadear uma reação crônica em relação à comida ou algum trauma. Em suma, cuidar da introdução de alimentos de um bebê é apenas dar espaço para as tentativas dele de se  aproximar do cenário alimentar. É como quando o bebê começa a andar. Eu não olho no relógio e no calendário para isso, mas vamos vendo os ensaios dele e servindo de companhia. Nossa tarefa é deixar a casa mais segura para a exploração dele. Pega essa cena e copia para a introdução de alimentos. Isso muda tudo no resultado final, porque quando uma criança consegue pegar a comida a partir do investimento motor e cognitivo dela, ela tem um banho bioquímico de prazer. E isso entra na canaleta dos sentidos, dentro do campo do aprendizado dela.

Mas e a ideia de que a criança precisa de estímulos, o que você pensa disso? 

Eu detesto a ideia do estímulo. Hoje, na educação e na pediatria moderna não se acredita muito em estímulo, mas em campo do aprendizado. Uma criança não precisa de estímulo para nada, a não ser que ela tenha alguma síndrome ou necessidade específica. Fora disso, a criança está, por exemplo, geneticamente programada para andar e, uma hora ou outra, ela vai conseguir. Ela precisa apenas ter oportunidade de se movimentar quando sentir vontade para isso. E a nossa função é apenas dar espaço para isso acontecer.

Condições sociais e financeiras afetam a estrutura ideal para que isso aconteça?

A meta não é comer. Essa é a premissa básica, seja em casa, com pai, com mãe, com babá, ou seja na creche ou em qualquer cenário. A primeira camada é ele curioso com a comida da casa. Quando se percebe isso, o ideal é dar espaço, mas não dar comida só porque ele está reparando.  Uma hora ele vai tentar pegar. E chega uma hora em que ele cansa de tentar e quer conseguir. Nesse processo, o cérebro está sendo utilizado, ele está desenvolvendo o movimento de pinça, coordenação, mãos, olhos e outras alavancas, mobilizadas pelo interesse.

Estamos falando, então, de um tempo indeterminado?

A introdução de alimentos não precisa acontecer com seis meses.Tem gente que está pronta com seis, mas outras não. A Organização Mundial da Saúde recomenda o aleitamento materno exclusiva até os seis meses e como principal alimento até um ano. Então, o bebê tem tempo para se adaptar e ir criando um repertório, assim como inserindo os nutrientes sem pressa.

Você mencionou as recomendações da OMS, mas no Brasil o aleitamento materno exclusivo até os seis meses gira em torno de 40% apenas. Existe alguma orientação específica para este cenário?

Primeiro é preciso entender por que as mães não conseguem amamentar até esse período. De modo geral, somos mal orientadas. Amamentação não é uma história fácil. Outra questão é que a indústria de alimentos tem um apelo muito grande em relação às fórmulas infantis. Para esse cenário é preciso existir consultores de amamentação e pediatras que estimulem o aleitamento. Outro coisa que eu acredito é que só faz sentido comer, quando se consegue digerir, assimilar e eliminar. Algumas irritações das mucosas internas e em alguns casos de alergias são resultado de introdução precoce de alimentos. Ou seja, mais traz estresse do que aproveitamento. É preciso ter enzimas digestivas, tonos nos músculos peristálticos do intestino e todo um sistema para realizar a digestão. A comida não faz sentido de ser comida se não se pode aproveitá-la.

As crianças precisam comer sempre orgânicos?

 As crianças precisam comer orgânicos, os adultos e os velhinhos. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos proibidos. O assunto é bastante sério, por isso é importante buscar as pesquisas que mostram os efeitos cumulativos e impactos na saúde. Mas não tendo como comprar orgânicos, o melhor é optar por alimentos da época, que necessitam de menos agrotóxico na produção. De todo modo, é preciso ressaltar que o preço dos orgânicos no supermercado são absurdos. Para se ter acesso é preciso ir em feiras. Uma outra estratégia é procurar nas cidades a CSA, ou Comunidade que Sustenta a Agricultora, que, além de ser um sistema de aprendizado, fairtrade e conscientização, é mais barato. Se está sem dinheiro, vai na hora da xepa na feira, mas não use os processados.

Em quem você se inspira para realizar o seu trabalho?

Durante todos esses anos eu fui estudando muitas coisas, fazendo uma síntese e observando os bebês. Mas há referências que respeito muito, como o pediatra espanhol Carlos González, autor do livro “Meu filho não come”, sobre introdução de alimentos e comportamento infantil. Outro livro essencial é o Baby-led Weaning (O desmame guiado pelo bebê, em português), das difusoras do BLW pelo mundo, Gil Rapley e Tracey Murkett.

Alguma outra questão que você considere essencial dentro deste tema?

Nunca forçar uma criança a comer. Nunca distrair uma criança para fazer ela comer. E quando a criança for crescendo, nunca barganhar com ‘se comer arroz e feijão, pode comer sobremesa’. A comida não pode ser algo que tenho que suportar para merecer algo melhor depois.Isso afeta a relação da pessoa com a alimentação mais tarde. Os adultos que conheço que tem uma relação ruim com a comida também tem históricos parecidos na infância. A maioria dos bebês que eu conheci não estavam prontos aos seis meses. Com sete anos, o Colher de Pau já atendeu quase duas mil pessoas e a média de prontidão é de oito meses. Isso não é científico, mas foi a minha observação.

 

 

Resumo

Criadora do projeto Colher de Pau, Fabiolla Duarte traz outro olhar sobre o desenvolvimento infantil: a chave do processo é esperar pelo interesse do bebê. Segundo ela, não existe método, é só deixar que a criança se interesse pela comida.
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