‘Precisamos refletir sobre a comida que chega à nossa mesa’

O desenvolvimento da consciência ambiental pode começar na relação com a comida, dentro das nossas próprias casas, cozinhado com nossos filhos
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 14.07.2021
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Vivemos um momento em que muitas pessoas estão percebendo a necessidade de dar uns passinhos “para trás” para podermos seguir em frente. Em um mundo onde o individualismo se faz presente de forma tão imperativa – cada um com seu dispositivo eletrônico, buscando seus interesses pessoais ditados por algoritmos que nos colocam em bolhas – é fundamental voltar a pensar coletivamente. Perceber que atuamos em rede e que tudo está interligado é o primeiro passo. 

Você já parou para pensar que os principais problemas que enfrentamos hoje têm conexão com nossa forma de consumo?

Ilhas de plástico nos oceanos, crise climática, desmatamento, aumento da poluição, crescente número de pessoas com sobrepeso ou obesas, diferentes níveis de insegurança alimentar (fome e má nutrição), doenças crônicas não transmissíveis, desigualdades sociais, desperdício de alimentos… A conclusão óbvia é que os modos de produção e consumo contemporâneos são insustentáveis. 

Para mudar esse cenário, podemos começar repensando nossos próprios hábitos, dentro das nossas casas, junto de nossos filhos e filhas. Mas, para isso, nós adultos precisamos entender e nos informar sobre como funciona esse sistema e o impacto do consumo ao planeta, a outros seres vivos e à nossa própria sobrevivência. 

Refletir sobre a comida que chega às nossas mesas é um passo importante para começar essa transformação. Contudo, é preciso pensar no alimento de forma integral. É necessário entender que a comida faz parte de um sistema alimentar, ou seja, de uma cadeia de produção, distribuição e consumo.  

Imagine que todos os seres humanos se alimentam, no mínimo, três vezes ao dia, quando podem. Portanto, bilhões de pessoas dependem ou estão diretamente ligados às mais diversas etapas da cadeia de produção alimentar.

Você saberia dizer qual o impacto ambiental de um singelo churrasco no final de semana? Ou a quantidade de agrotóxicos que existe na ração do gado? Sabe dizer como os antibióticos usados nas galinhas – para aumentar peso, tamanho e produção de ovos – podem prejudicar a nossa resistência a esses medicamentos? E a relação entre desmatamento, incêndios florestais e crise hídrica? Tudo está conectado à produção e ao consumo de alimentos. 

Pensando nisso, a Organização das Nações Unidas (ONU) concebeu a Reunião de Cúpula da ONU sobre Sistemas Alimentares 2021, prevista para setembro. Nela, altas autoridades de vários países irão discutir e apresentar propostas sobre nosso sistema alimentar. Para tanto, os diferentes atores desta cadeia alimentar – produtores, distribuidores, consumidores e trabalhadores do sistema – têm de ser ouvidos e suas diferentes visões precisam ser consideradas. 

Transformar nosso sistema alimentar é também uma forma de alcançar alguns dos principais Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela ONU em setembro de 2015, quando 193 países-membros adotaram uma nova política global: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O objetivo desta agenda é elevar o desenvolvimento do mundo e melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas. 

Entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estão: fim da pobreza e da fome e estímulo a uma agricultura sustentável (ODS 1 e 2); promoção de vida saudável e bem-estar (ODS 3); educação de qualidade, inclusiva e equitativa (ODS 4), igualdade entre homens e mulheres (ODS 5); garantia de acesso à água e ao saneamento básico para todos (ODS 6); acesso à energia limpa (ODS 7).

Uma reunião da ONU pode soar muito distante do nosso cotidiano. No entanto, é fundamental percebermos que as discussões e decisões resultantes desses encontros irão influenciar as nossas vidas e a vida das próximas gerações. Portanto, é muito importante acompanhar e ficar por dentro das decisões desta Reunião de Cúpula. 

Entretanto, vale a pena levar estes questionamentos para dentro de nossas casas, mais especificamente para nossas cozinhas! As crianças aprendem muito por meio da observação e acabam reproduzindo o que veem. Ofertar alimentos frescos, variados, num ambiente agradável e convidá-los a pensar é um excelente começo!

Estimular a consciência ambiental e política desde a infância é primordial e pode começar dentro das nossas próprias cozinhas, de forma lúdica.

Trazer um livro de receitas da família, resgatando saberes ancestrais; observar a procedência dos ingredientes que estamos usando; fortalecer a produção local; dar outro significado ao alimento e ao poder do encontro em torno da comida são exemplos possíveis. Tudo isso trará certamente uma sensação de pertencimento, ampliará a consciência ambiental e política e a garantia de direitos das nossas crianças. 

Cozinhe com seus filhos e filhas!

Ariela Doctors é comunicadora, educadora e chef de cozinha. Sua experiência profissional inclui produção, desenvolvimento de projetos, gestão de equipes, educação culinária, desenvolvimento de material didático e metodologias inovadoras de ensino. É fundadora do “Comida e Cultura”, projeto que tem a criança como sujeito, o alimento como objeto e o Brasil como espaço. O objetivo é transformar a maneira como a criança se relaciona com os alimentos, da produção aos efeitos no próprio corpo e seu impacto no planeta. No site, você pode acessar várias receitas para inspirar este momento de conexão entre adultos e crianças na cozinha!

*Este texto é de exclusiva responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Lunetas.

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Resumo

A partir do alimento, Ariela Doctors nos convida a pensar sobre o sistema alimentar, da produção até a distribuição e o consumo. Entender esta cadeia é uma forma de rever hábitos de consumo dentro de casa e estimular a consciência ambiental desde a infância.
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