A necessidade de repetição faz parte do desenvolvimento infantil. Especialistas orientam como lidar com as crianças na rotina de forma tranquila , sem gritos e
Repetir pedidos faz parte da rotina de quem convive com crianças — e isso não é birra nem desobediência. Especialistas explicam por que o cérebro infantil precisa de tempo para responder, como favorecer a cooperação e o que ajuda o adulto a não perder a calma.
Cansada de repetir a mesma coisa todos os dias? Fica tranquila, você não está falhando. Neste texto, o Lunetas explica porque crianças precisam ouvir várias vezes, o que isso revela sobre desenvolvimento infantil e como lidar sem gritos e sem culpa.
“Já falei três vezes”, “quatro”, “cinco… será que eles não me escutam?”. Quem convive com crianças sabe que esse tipo de momento é comum. Além disso, pedidos simples — guardar brinquedos, ir para o banho, desligar a TV — parecem evaporar no ar, como se não tivessem sido ouvidos. É preciso repetir, repetir, repetir. Entre um suspiro e outro, muita gente se pergunta: é birra, desobediência ou provocação?
Na maioria das vezes, nada disso. A princípio, isso é apenas um comportamento esperado durante o desenvolvimento infantil. “O cérebro da criança não consegue priorizar certos comandos, porque as estruturas responsáveis por organizar o comportamento ainda estão em construção”, explica a psicóloga e neurocientista Bruna Velasques. “Isso torna muito difícil atender a um chamado e trocar uma atividade por outra, especialmente quando ela é prazerosa.”

Assim, o pedido do adulto é ignorado porque o cérebro infantil funciona em profundidade, não em rapidez. A criança vive no aqui e agora. Se está brincando, está inteira. Se está imaginando, mergulha fundo. Bruna, que é especialista em desenvolvimento infantil, explica que antes de fazer o que foi solicitado, os pequenos precisam:
“Isso é muita coisa para um cérebro imaturo. E nós, adultos, subestimamos esse esforço”, explica.
A educadora parental Fernanda Fontes lembra que essa dificuldade também está ligada à forma como as crianças entendem o mundo: de maneira concreta, imediata, intensa. Conceitos como “daqui a pouco”, “mais tarde”, “rapidinho” são totalmente abstratos. “Parece que não querem escutar, mas é apenas uma imaturidade neurológica. As crianças ainda não compreendem a noção de tempo e espaço.”

Enquanto o cérebro infantil se desenvolve, os adultos vivem outra dinâmica. Na maioria das vezes, a rotina é corrida, com muitas demandas e acúmulo de tarefas. “Porém, não podemos atropelar as crianças com a nossa pressa”, alerta Fernanda. “Elas precisam que sejamos o lado maduro da relação. Aquele que se aproxima, olha nos olhos, se comunica com carinho e torna a rotina mais fácil.”
Ajustar as expectativas é um bom começo para melhorar a rotina. Fernanda indica “não esperar que a criança tenha um comportamento de adulto, mas entender as suas particularidades, limitações e necessidades”. A educação respeitosa, segundo ela, surge quando o adulto tenta enxergar o mundo pela perspectiva da criança e, ao mesmo tempo, aprende a lidar com as próprias emoções, freando impulsos autoritários e acelerados.
Crianças não fazem o que os pais pedem porque querem agradar ou porque entendem a importância da rotina. De acordo com Bruna, elas respondem aos pedidos quando o cérebro se sente seguro, conectado e preparado para a mudança. “A chave é entender que cooperação não nasce do comando, mas da regulação, da previsibilidade e da forma como o adulto conduz a transição.”
Portanto, a especialista indica algumas práticas, baseadas na neurociência, que podem ajudar a rotina ser mais leve.
Em primeiro lugar, o cérebro infantil não responde bem a comandos dados à distância. A criança precisa se sentir vista para conseguir ouvir. Dessa forma, um pedido funciona melhor quando o adulto se aproxima, chama pelo nome com suavidade, olha nos olhos, é gentil, toca no ombro ou na mão, usa frases curtas e claras. Tudo isso ativa o circuito da atenção e reduz a sobrecarga emocional da transição.
Mudanças bruscas geram estresse para o cérebro imaturo. Por outro lado, avisos simples permitem uma preparação. Algumas frases eliminam a “surpresa” e ajudam no processo:
A verdade é que poder escolher algo aumenta a sensação de controle — e esse é um dos maiores organizadores emocionais da infância. O adulto continua no comando da tarefa, mas oferece à criança um espaço para se sentir participante. Por exemplo:
O cérebro infantil aprende brincando. Ao transformar uma tarefa em desafio, a cooperação aumenta muito. Algumas ideias:
Por fim, demandas amplas demais confundem o cérebro infantil. Portanto, troque o “guarde tudo isso agora” por “vamos guardar esse primeiro, depois esse e, mais tarde, aquele ali”. É mais lento para o adulto, mas mais rápido para a aprendizagem.
Quadro ou mural para anotar as tarefas de cada dia e cartões ilustrados com os afazeres ajudam a transformar “instrução” em previsibilidade concreta. Isso reduz a ansiedade e melhora muito as respostas.
No dia a dia, a criança tem direito de se frustrar, reclamar, demorar, não achar graça, não estar no mesmo ritmo do seu cuidador. Por outro lado, o adulto tem o papel de reconhecer, acolher e conduzir. Frases que funcionam:
A ajuda aumenta quando o ambiente facilita. Por isso, é importante: desligar a TV antes do pedido, tirar brinquedos do campo de visão e aproximar a criança do local da tarefa.
Os pequenos aprendem a ajudar vivendo a experiência de serem guiados por um adulto regulado. Por isso, a regra é: se o adulto regula as emoções, a criança coopera. Se acelera, ela resiste. E se há grito e violência, ela entra em modo de defesa.
Mesmo mudando hábitos e a forma de se comunicar, a repetição vai continuar existindo em alguns momentos. Mas como manter a calma quando algo precisa ser dito muitas e muitas vezes?
A educadora parental Fernanda Fontes lembra que as crianças têm um grande desejo de aprender, mas ainda são imaturas. Por isso, “busque conexão com elas em momentos de diversão, através das conversas, da proximidade na rotina”, orienta. “Essa intimidade melhora a relação e também a cooperação. Nos momentos difíceis, se acolha: não é sobre perfeição, mas sobre ser segurança para a criança.”
Para Bruna, é fundamental nomear algo essencial: não existe regulação infantil sem regulação adulta.
A especialista sugere que mães, pais e cuidadores adotem estratégias para atravessar esses momentos sem gritar, sem perder a paciência e não se afogar em culpa. “É importante se preparar. Ninguém se regula na hora da crise, mas antes que ela aconteça”.
Tenha momentos simples de autocuidado e consciência dos próprios gatilhos. Antes de chamar a criança, foque por 10 segundos na sua respiração, beba água e alongue o corpo.
Quando o cérebro adulto vai para o “modo alarme”, ele perde acesso ao raciocínio e funciona no automático. Algumas frases ajudam a reorganizar os pensamentos:
Adultos exaustos têm menos controle e tolerância, e mais reatividade. Reconhecer que está cansado e sem recursos ajuda a sair do lugar da culpa e entrar no lugar da responsabilidade possível.
Muitos adultos explodem porque esperam comportamentos que não são compatíveis com a idade. Quando o que é possível se alinha ao neurodesenvolvimento, o conflito diminui.
“A infância é um território de repetição, previsibilidade e paciência — três coisas que se chocam diretamente com o ritmo do mundo adulto. Mas quando pais e cuidadores repetem com afeto e vínculo, se constrói segurança neural, previsibilidade emocional e confiança.” – Bruna Velasques
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