Política não precisa ficar restrita aos anos eleitorais, e as crianças podem aprender cedo a diferença entre discordar e odiar, defende promotora de Justiça
Política e democracia são temas que podem ser abordados com as crianças não só nos anos eleitorais. Perguntas cotidianas e livros podem ajudar a desencadear e mediar as conversas.
“Por que a minha rua alaga toda vez que chove e a rua da escola não?”, “Por que eu tenho um quarto só para mim e o menino que vende bala no sinal não está na escola?” ou “Por que quase todas as pessoas que limpam o prédio são negras?”
Essas são algumas das perguntas políticas que as crianças fazem no dia a dia, mesmo sem saber que estão falando de política. Para Lívia Sant’Anna Vaz, promotora de Justiça do Ministério Público da Bahia, é justamente por isso que as conversas sobre o tema não precisam ficar restritas aos anos eleitorais. “Política é a forma como decidimos, juntos, a vida em comum”, resume.

A jurista considera esse tipo de questionamento “precioso” e alerta que a maneira como os adultos respondem a ele também contribui para a formação cidadã. Segundo ela, respostas como “é assim mesmo” ou “é porque nós nos esforçamos mais”, por exemplo, interrompem a reflexão e ajudam a naturalizar as desigualdades.
O desafio, explica Lívia, não é fazer a criança se sentir culpada pelas injustiças que observa, mas ajudá-la a compreender de onde elas vêm e que não precisam ser permanentes. “Trata-se de ajudá-la a entender que essas diferenças têm história, foram produzidas por decisões humanas e, por isso mesmo, podem ser transformadas por outras decisões humanas. Isso é educação política no sentido mais profundo.”
Em tempos de polarização política, Lívia considera importante distinguir discordância de ódio. Segundo ela, a democracia vive de divergência e não há nada de errado em a criança perceber que as pessoas pensam diferente.
“O problema é quando o adversário passa a ser tratado como inimigo, alguém a ser eliminado, odiado. Crianças aprendem muito mais com o que veem, com os exemplos do cotidiano, do que com o que dizemos. Se, em casa, o almoço de domingo vira campo de batalha, se o parente que vota diferente é ridicularizado, é isso que elas vão reproduzir no recreio”, salienta.
Para explicar a ideia, Lívia recorre à imagem da roda de capoeira. “O capoeirista joga com o outro, não contra o outro. Há regras, há a vez de cada um, há o momento de entrar e de sair, e o jogo só existe porque há dois corpos diferentes dialogando. A democracia deveria ser assim.” O respeito às diferenças inclui ensinar que existem limites e que o direito do outro de existir com dignidade não está em debate, acrescenta a promotora.
“Como mãe, sei que a tentação é proteger as crianças desses temas. Mas o silêncio também pode educar ou deseducar, ao ensinar que política é assunto ‘dos outros’, de poucos, geralmente de homens brancos de terno”, conta. Para Lívia, romper esse silêncio, com linguagem adequada à idade, é dizer a cada criança que o mundo também é dela e que ela tem o direito e a potência de transformá-lo. “Eu gostaria que nossas crianças crescessem sabendo disso: ninguém transforma o mundo sozinho.”
A formação cidadã também passa pela escola, que pode trabalhar o conceito da democracia a partir de situações cotidianas que ajudam as crianças a entender como as escolhas individuais e coletivas influenciam a vida em sociedade.
Esse é o objetivo do projeto “Eleições na Floresta”, uma iniciativa que leva às escolas públicas uma experiência eleitoral completa, com candidatos, propostas, campanhas, título de eleitor, mesários, cabine de votação e urna. Damila Bonato, gerente de marketing e produto da Aprende Brasil Educação, empresa do Grupo Positivo que oferece soluções educacionais para redes públicas de ensino, criou a iniciativa depois de ouvir um garoto perguntar à mãe, na fila da padaria: “Se o leão é o rei da floresta, quem é o rei do Brasil?”
“Percebi ali que as crianças convivem com as eleições, ouvem falar delas em casa e na TV, mas ninguém explica como a democracia funciona”, conta Damila.
Os candidatos são personagens inspirados na fauna e na flora brasileiras, e suas propostas giram em torno do cuidado com a natureza. As crianças participam de todas as etapas: fazem campanha, discutem ideias, cobram os candidatos e, por fim, votam em um tablet que funciona como urna eletrônica, com direito ao conhecido som de confirmação do voto. Voltado a crianças de 6 a 11 anos, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, o projeto acontece em escolas públicas municipais que utilizam os sistemas de ensino da Aprende Brasil Educação.
Para Damila, a iniciativa ajuda a desenvolver a cidadania desde cedo. “A criança aprende que o voto deve ser uma escolha baseada em propostas, que é preciso respeitar quem pensa diferente e saber ganhar e perder”, afirma. “Ao mesmo tempo, o projeto mobiliza conhecimentos de várias disciplinas: matemática, na contagem dos votos; língua portuguesa, na elaboração das propostas e dos títulos; além de trabalhar oratória, cidadania, inclusão e educação ambiental”, complementa.
Dentro e fora da escola, a literatura pode ser uma aliada para conversar sobre o tema com crianças de diferentes idades. Segundo Lívia, a literatura faz o que nenhum manual consegue, porque “permite que a criança viva, em sua imaginação, uma experiência que não é a dela”. “Ler sobre um personagem que é silenciado, excluído ou que se une a outros para enfrentar um desafio é uma forma de ensaio da vida democrática. A empatia que a história desperta pode ser uma base para a cidadania”, diz.
Confira uma seleção de livros para ajudar nas conversas sobre política e democracia:

Autoras: Lívia Sant’Anna Vaz e Chiara Ramos
Editora: Yellowfante
Faixa etária: a partir de 8 anos
Escrito pela própria Lívia em parceria com Chiara Ramos, o livro acompanha sete irmãs guerreiras ashantis que precisam se unir para enfrentar um desafio que ameaça seu povoado. Inspirada na filosofia Ubuntu — “eu sou porque nós somos” —, a narrativa valoriza a ancestralidade, a cooperação e a força da coletividade.

Autora: Ruth Rocha
Editora: Salamandra
Faixa etária: a partir de 7 anos
Um rei autoritário ordena que todos se calem, até que as pessoas perdem a capacidade de falar. A história abre espaço para discutir abuso de poder, liberdade de expressão e a importância de poder questionar quem governa.

Autores: Davide Calì e Marco Somà
Editora: Pulo do Gato
Faixa etária: a partir dos 6 anos
Uma rã encontra uma coroa e é proclamada rainha. Com o novo poder, surgem privilégios, ordens e regras que mudam a vida de todos os habitantes do lago. A fábula convida a questionar o autoritarismo e por que alguém teria o direito de mandar nos demais.

Autoras: Márcia Leite e Bruna Lubambo
Editora: Joaquina
Ao encontrar um homem dormindo na calçada, uma menina faz perguntas à mãe sobre quem ele é e por que vive naquela situação. O diálogo aborda pobreza, invisibilidade social, desigualdade e a importância de acolher as perguntas das crianças, mesmo quando não há respostas simples.

Autores: Franck Pavloff e Mariana Zanetti
Editora: Olho de Vidro
Faixa etária: a partir de 12 anos
Dois amigos levam uma vida comum até que um regime político começa a impor regras cada vez mais absurdas. A aparente aceitação de pequenas restrições revela como o autoritarismo avança quando as pessoas deixam de questionar as imposições.
Comunicar erro