Ao atrelar a torcida à expectativa de lucro, as bets esvaziam o sentido cultural do esporte e reforçam a ilusão do dinheiro fácil
Quando as bets entram em campo durante os jogos da Copa do Mundo transformam a experiência de torcer e interferem na formação de crianças e adolescentes ao associar esporte à expectativa de ganho financeiro.
Durante muito tempo, perder um jogo de Copa do Mundo significava lidar apenas com a tristeza pela eliminação da seleção. Hoje, porém, a popularização das apostas esportivas tem transformado a forma de torcer. Para milhões de pessoas, a frustração pode ser dupla: além da derrota em campo, há também o prejuízo financeiro de uma aposta que não deu certo.
“A emoção do gol e do lucro começam a se misturar”, afirma a psicóloga Lara D’Almeida, doutora em Distúrbios do Desenvolvimento. Nesse contexto, as apostas criam um novo ambiente de exposição para crianças e adolescentes, que passam a conviver cada vez mais cedo com a associação entre esporte, dinheiro e risco.
Quando a experiência de torcer durante uma Copa do Mundo passa a ser mediada pelo dinheiro, o jogo deixa de ser acompanhado apenas pela paixão. O resultado passa a representar também uma possibilidade de ganho ou perda financeira.
Quando a família adere às bets, as apostas podem acabar sendo percebidas como uma extensão natural do lazer esportivo, explica Monique Evelle, referência em construção de marcas e comportamento.
“Perde-se o lugar da torcida coletiva, no único momento em que a gente poderia juntar o Brasil para torcer por algo. Perdemos esse fio condutor”, diz. “Em vez de desenvolver valores ligados ao espírito esportivo, à convivência com a frustração e à superação, adolescentes podem passar a enxergar cada partida como uma oportunidade de ganho financeiro.”
Quando os adultos apostam com frequência, o jogo pode passar a ser percebido pelas crianças como parte natural do lazer esportivo.
“Filhos de pais com atitudes permissivas em relação ao jogo têm probabilidade maior de desenvolver comportamentos problemáticos relacionados aos jogos e apostas. O que parece determinar isso não é apenas a permissão explícita, mas a normalização cotidiana”, explica a psicóloga Lara.
Mesmo sendo proibido por lei, 10,5% dos adolescentes de 14 a 17 anos — o equivalente a 1,4 milhão de pessoas — fizeram apostas em 2022, segundo a pesquisa “Jogo de aposta na população brasileira”, realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo Monique, as apostas alimentam a crença perigosa de que o acaso vale mais do que a preparação, enfraquecendo a percepção de que conquistas relevantes — na carreira, nos estudos, nos esportes ou nos negócios — são resultado de esforço, planejamento e constância. Para ela, é preciso investir em referências que valorizem o “aprendizado, a jornada, a capacidade de construir resultados sustentáveis.”
“Os jovens podem começar a acreditar que prosperidade depende mais de acertar uma aposta do que estudar, construir uma carreira, empreender ou desenvolver habilidades”, afirma. “Como ainda estão formando seu repertório e seus valores, as mensagens que recebem sobre dinheiro influenciam diretamente a maneira como compreenderão o sucesso.”
Na mesma linha, a educadora financeira Adriana Ricci afirma que as apostas fazem crianças e adolescentes associarem dinheiro à sorte, e não ao trabalho e ao planejamento. “Precisamos ensinar que riqueza consistente é fruto de disciplina e de longo prazo, não de apostas. Ensinar que dinheiro vem da sorte, e não do trabalho, pode custar muito caro.”
O problema não é o esporte competitivo, mas a lógica das apostas sobreposta a ele. Sem essa interferência, o esporte pode ser um importante espaço de desenvolvimento emocional por proporcionar experiências concretas de vitória, derrota, cooperação e superação.
Segundo Lara, estudos com atletas adolescentes mostram que a prática esportiva está associada ao desenvolvimento da resiliência, da regulação emocional, da tolerância ao estresse e de habilidades sociais que ultrapassam as quadras e os campos. Isso acontece porque o esporte desafia os jovens a lidar com incertezas, frustrações e superação em um ambiente estruturado.
Entre os oito e os 12 anos, porém, a capacidade de regular emoções ainda está em formação. Nessa fase, explica a psicóloga, o apoio dos adultos é decisivo para transformar derrotas em oportunidades de aprendizado. Recomenda-se acolher os sentimentos da criança, dar nome às emoções e incentivar a reflexão sobre a experiência.
“Uma criança que ouve: ‘Eu vi que você ficou triste. O que foi mais difícil para você?’ tem mais chance de aprender a processar a frustração do que aquela que ouve apenas ‘esquece’ ou ‘deixa para lá’.”
Vinícius, de 13 anos, é apaixonado por futebol e disputa campeonatos regionais e interestaduais. “Nos primeiros campeonatos, quando perdia, ele saía de campo sempre culpando alguém e dizendo que tinha sido trapaceado. Ensinamos que a derrota faz parte do esporte e, muitas vezes, significa apenas que o adversário jogou melhor”, conta Adriana Ricci. “É muito mais honesto e saudável ensinar isso aos nossos filhos do que atribuir a derrota a uma suposta injustiça, como infelizmente vemos acontecer no mundo adulto.”
Para Adriana, aprender a reconhecer os próprios erros e assumir responsabilidades ajuda o filho a amadurecer e a lidar melhor tanto com as vitórias quanto com as frustrações. “Na vida, nem sempre vamos ganhar. Em vez de sair de uma partida dizendo que o outro errou, prefiro que ele se pergunte: ‘O que eu posso fazer para jogar melhor na próxima vez?’.”
Para especialistas, a principal diferença é que o esporte ensina crianças a lidar com esforço, frustração e superação. As apostas, ao contrário, tendem a deslocar o foco para o ganho imediato e para a ilusão de que o sucesso depende da sorte. É justamente essa mudança na forma de torcer que merece atenção.
Priorize o diálogo em vez da proibição: Converse sobre as plataformas explicando que elas são desenhadas para que a maioria das pessoas perca dinheiro, e além disso elas os jogos têm um potencial alto de “viciar.”
Desconstrua a “lógica da sorte”: Ensine que o dinheiro é fruto de trabalho, planejamento e disciplina, e não do acaso. Ajude o jovem a diferenciar o que é investimento e trabalho do que é puramente jogo de azar.
Ensine a processar a frustração: O esporte é uma excelente ferramenta para desenvolver a resiliência. Após uma derrota, em vez de dizer “esquece isso”, pergunte às crianças ou adolescentes o que foi mais difícil e como ele se sente. Isso ajuda a criança a tolerar emoções intensas sem precisar de uma “solução” imediata ou financeira.
Questione o estilo de vida das propagandas: Discuta como os influenciadores e atletas associam as apostas ao luxo, e que o sucesso é muito relativo e depende do projeto de vida de cada um.
Preserve a emoção do esporte: Não deixe que o jogo se torne uma experiência exclusivamente transacional. Incentive crianças e adolescentes a torcerem pelo pertencimento e pela identidade coletiva dos times e das seleções, mantendo a “emoção do gol” separada da “emoção do lucro”.
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) vai analisar se a divulgação de apostas esportivas durante as transmissões da Copa do Mundo respeitou as normas de publicidade e se houve incentivo a apostas impulsivas sem o devido esclarecimento dos riscos envolvidos — prática proibida pela legislação.