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Afinal, por que as crianças mordem e como lidar com isso?

Crianças mordem para conhecer e se comunicar. “É natural, mas não pode ser ignorada”, afirma psicóloga.
Mordidas Istock
  • Publicado em: 12.11.2018
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Boca, fonte de descobertas. A boca recebe, sente e emite. Para os bebês, tudo é novo: peso, tamanho, gostos, formas e texturas. Morder faz parte desse universo. E novidades nascem junto com dentes, grandes aliados nesse primeiro diálogo com o mundo e também emissores de sinais que chegam antes da palavra.

“Morder é a forma de contato sensorial com o desconhecido e a comunicação corporal que as crianças possuem numa determinada fase do desenvolvimento”, explica a psicóloga e coordenadora do Instituto Avisa Lá, Cisele Ortiz. Partindo deste olhar, segundo ela, podemos pensar que as crianças mordem outras crianças, assim como fazem naturalmente com os objetos.

“Mordendo um objeto, a criança pode perceber muitas coisas. A diferença entre duro e mole, por exemplo. Também pode perceber a novidade que é o susto, o choro ou o espanto da criança mordida. Descobrir que a outra reage a uma grande aventura!

Morder pode ser fascinante. Tão fascinante que a criança pode querer repetir.”

A explicação de Ana Maria Mello e Tema Vitória aparece em “Mordidas: agressividade ou aprendizagem?”, texto que integra “Os Fazeres na Educação Infantil”. O livro é resultado de vivências e práticas de um grupo de educadores e pesquisadores da Universidade de São Paulo, na Creche Carochinha, em Ribeirão Preto, e propõe revisões e redirecionamentos de práticas pedagógicas com as crianças, explorando suas potencialidades e evitando julgamentos.

Investigando motivações

Mas, apesar de mordidas serem episódios comuns em ambientes coletivos como creches e escolas, não significa que elas devam ser ignoradas, segundo Cisele. Isso, porque, ao contrário de muitas outras formas de expressão não verbal que podem passar despercebidas, a mordida deixa marcas e quem é mordido sente na pele o “nhac” do outro. Aí se inicia a investigação: por que a criança mordeu?.

Faça perguntas

Andréia Alfaz, gestora do Centro Municipal de Educação Infantil Brilho do Sol, no bairro Tatuquara, em Curitiba (PR), aponta algumas perguntas que podem ajudar os adultos a identificar a causa das mordidas para pensar mediações: Qual a idade da criança? Em que local ocorreu? Em qual horário? Qual era o contexto? Havia professores? Havia brinquedos disponíveis? Foi durante uma atividade ou a criança estava ociosa? É a primeira vez ou é caso recorrente? A criança já fala e ainda sim mordeu? É sempre a mesma criança mordida ou crianças diferentes? São casos coletivos?

Para Andreia, que lida com as mordidas no cotidiano escolar, todas essas perguntas são importantes. “É preciso compreender que as crianças não nascem sabendo como dizer ‘estou gostando’ ou ‘não estou gostando disso’. É por meio das interações que percebem essa capacidade”, reforça.

Morder é comunicar

De acordo com Cisele Ortiz, a fome, o cansaço ou excesso de estímulos do ambiente podem incentivar as mordidas. Por isso, além das etapas naturais da dentição e desbravamento sensorial, um dos primeiros fatores a serem observados é o ambiente: se a criança é atendida em suas necessidades, morder se torna uma exceção. “Se estamos falando de uma boa oferta de condições e de práticas pedagógicas, não vamos buscar as causas no ambiente, mas na criança.”

Entre as causas mais frequentes de mordidas no CMEI Brilho do Sol, Andreia identifica as situações de disputa por espaço, atenção ou brinquedos; reação a uma ação inesperada de outra criança; demonstração de afeto ou imitação de gestos que observa em casa e incômodo por ociosidade. Ou seja, sem recursos verbais ou outras habilidades para organizar sentimentos de desejo, afeto, frustração ou raiva, a ansiedade é transformada em mordida. “É importante fazer registros, ficar atento a suas motivações e falar com as famílias se for necessário, mas nunca desintegrar uma criança das atividades por esse motivo”, afirma Andreia.

Não rotule

“Seja qual o for o fator que leve à mordida, é preciso muito cuidado para não rotular a criança como ‘mordedor’”, registram Ana Maria Mello e Tema Vitória. Elas notam que com a rotulagem todos passam a esperar que a criança volte a ter aquela reação, o que pode aumentar sua ansiedade e levá-la a novas mordidas, acentuando um comportamento sem motivo aparente. Com uma nova mordida, a ideia de “mordedor” é reforçada. “Um ciclo sem fim”, garantem.

O que fazer?

Diante de muitas motivações possíveis, sabemos que levar uma mordida é fácil. Mas deve haver alguma receita para evitá-las, certo? A resposta é não. Mas as situações podem ser mediadas de acordo com a faixa etária. “Se a criança tem entre um e dois anos e ainda usa mais a linguagem corporal do que verbal, o adulto pode emprestar uma linguagem para evidenciar o que aconteceu. E ela começa a estabelecer uma relação de causa e efeito.”, diz Cisele. Em se tratando de crianças maiores de dois anos que continuam mordendo forte, a ideia é apontar outros caminhos de expressão, já que ela possui outras habilidades.

A prática dos professores no CMEI Brilho do Sol, é tratar com naturalidade, acolher quem é mordido e mostrar para a criança que mordeu que aquela conduta causa dor, utilizando expressões faciais de desaprovação, tristeza ou mostrando a marca que deixou no colega. Ao mesmo tempo, é possível mostrar a ela que existem outras caminhos para se expressar.

É comum, portanto, que as mordidas ocorram uma hora ou outra, especialmente com crianças entre um e três anos. “A mordida faz parte do desenvolvimento humano e, no geral, vai desaparecendo conforme a criança apresenta outras formas de se comunicar como a fala”, relembra Andreia. Sobretudo, ela sugere a importância de observar as crianças dentro de um conjunto de ações e não apenas identificá-las no momento de uma conduta que é desaprovada.

“A criança é aquilo que ela come, a forma como se relaciona com os pares, como se expressa, sorri e como olha o mundo, não apenas aquela que morde.”

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Resumo

Por meio da mordida, crianças desbravam o mundo e buscam se comunicar. É um processo natural dos primeiros anos de vida. Mas em ambientes coletivos, essa conduta pede investigação e acolhimento. Confira saídas para lidar com isso.
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