Nas brechas do cotidiano podem haver oportunidades de troca muito interessantes para as famílias
Na adolescência, o silêncio costuma ganhar espaço, mas alguns momentos do cotidiano podem abrir brechas para conversas genuínas. Saiba como aproveitar essas oportunidades para fortalecer vínculos e ampliar o diálogo nessa fase.
Pode ser no carro ou na caminhada entre casa e escola, à mesa nas refeições, lavando louça ou na hora de dormir. Os momentos em que os adolescentes abandonam as monossílabas, quebram o silêncio e se mostram mais dispostos a conversar nem sempre coincidem com o tempo dos adultos — por isso, é preciso reconhecer e aproveitar essas brechas do cotidiano.
No interior de São Paulo, na cidade de Itupeva, a executiva de vendas Gabriela Marques conta que boas conversas acontecem nos deslocamentos dentro do carro com a filha Carolina, de 14 anos. A mais recente envolvia a dificuldade de entrosamento na nova escola e um convite de uma colega para “sair para beber.” “Na hora fiquei meio nervosa, não imaginei isso nessa idade, mas vi que ela se sentiu à vontade para me contar.”
Gabriela disse à filha que conversaria com a escola sobre o episódio, mas ouviu um pedido imediato para que não fizesse isso. No dia seguinte, novamente durante um trajeto de carro, retomou o assunto com a garota.
“Disse que ainda não era o momento de ela consumir álcool, mas havia adolescentes mais precoces que faziam isso, talvez sem entender as consequências”, conta. A filha então completou: “Relaxa, mãe, eu não vou beber”. Gabriela aproveitou o gancho para brincar: “Então você aprende a dirigir, porque aí quem vai poder beber sou eu”. As duas caíram na risada.
Para a escritora e comunicadora Elisama Santos, conviver com um adolescente – ela tem dois pré-adolescentes, de 11 e 13 anos – é como estar diante de um carro de vidros fechados: a chave da conexão está em identificar o momento raro e precioso em que o jovem decide baixar o vidro e abrir uma “janela de interesse.” “Não é que a gente só vai conversar nesses momentos, mas é importante entender que eles existem e que precisamos aproveitá-los.”
Para que o diálogo flua, é preciso abandonar as tradicionais “conversas verticais” mais presentes com as crianças em favor de uma relação mais “horizontal”. Isso significa tratar o adolescente com o mesmo respeito e interesse real que os adultos dedicariam a qualquer pessoa. No entanto, “uma“ escuta com respeito e interesse não quer dizer que a gente vai fazer o que o adolescente quer.”

Ao contrário do que muitas vezes pode parecer e fazer os pais sentirem, os vínculos neste período não estão rompidos. O que ocorre, como explica a psicóloga Clarissa Temer, é que os jovens precisam “se contrapor ao saber dos pais para sentirem a tal autonomia tão necessária para o crescimento”, afirma. “Às vezes precisam atacar muito, justamente porque o vínculo é forte. Eles clamam por liberdade de pensar e agir, enquanto os pais aflitos, clamam por controle, o que provoca um distanciamento certo.”
Para Clarissa, perguntas diretas podem soar como invasão ou inquérito, e os comentários, como julgamento. O caminho, segundo ela, seria o de observar, acolher e respeitar a personalidade de cada filho e a partir daí encontrar o lugar, meio e circunstâncias na qual ele se sente à vontade para falar e, principalmente, pedir ajuda.
“Alguns gostam de falar no carro, outros por mensagens de texto enviadas aleatoriamente no meio do dia, outros quando estão quase dormindo e quase todos, através de histórias, personagens, fofocas das redes, filmes, livros e séries”, diz.
Essas situações podem levar a boas conversas, mas a psicóloga lembra que deve ser uma “via de mão dupla e não uma ‘palestrinha’ dos pais”. “Como em toda relação é preciso tato, sensibilidade e sobretudo respeito a quem o outro é.”
Elisama frisa que os adultos frequentemente desqualificam o que os adolescentes escutam, leem ou valorizam. Frases como “eles ainda não sabem o que é bom” ou “um dia você vai entender”, mesmo ditas sem intenção de ferir, podem encerrar uma conversa antes de ela acontecer. “Todas as vezes que a gente acha que sabe mais do que o adolescente, estamos prejudicando a conversa. Muitas vezes ignoramos o que eles falam.”
Para abrir esse caminho é necessário demonstrar curiosidade real sobre a vida deles. “É preciso perguntar como ele está vendo a vida, o que está acontecendo com ele”, complementa.
“Eu posso até imaginar, mas só ele pode me contar.”
A criadora de conteúdo digital Estéfi Machado sempre apostou nessa lógica para fortalecer o vínculo e garantir uma boa relação com o filho Teo, de 18 anos. Para ela, as melhores conversas nascem, de forma espontânea, nos momentos em que estão juntos. Então, vê o pedido para ouvir a playlist do filho ou o convite para assistirem uma série, como oportunidades para discutir temas atuais que podem desembocar em situações vividas por ambos. “Sempre vem um debate, se não é algo sobre a letra da música, é alguma situação que eu vivi que me fez lembrar e ele complementa.”
Por outro lado, Estéfi critica a tendência de muitos adultos transformarem a conversa com os filhos numa espécie de “entrevista” insistindo para que eles falem. “Talvez a conversa não seja cavada, mas a situação sim. É preciso se empenhar para se interessar pelo mundo deles. É preciso que ele sinta que você valide o que ele sente, gosta e sua visão de mundo.”
Quando um adolescente finalmente abre uma trégua e resolve falar e contar sobre o problema, os adultos acreditam que precisam ter uma resposta rápida ou oferecer uma solução. Mas nem sempre é isso que eles gostariam. Muitas vezes a própria escuta já é a resposta que eles buscam, diz Elisama. “Pai e mãe precisam entender que escutar é uma ação. Escutar é fazer alguma coisa. A gente trata a escuta como se ela não fosse nada.”
Além disso, à medida que eles crescem, a complexidade dos desafios também evolui e vamos percebendo “a nossa pequenez cada vez maior”. “Percebemos que são problemas que a gente não consegue mais resolver com as mesmas ferramentas que tínhamos para lidar com as questões de quando eram crianças.”
Uma forma de ajudar a apaziguar o coração de ambos é validar o sentimento, se mostrar solidário e acolhedor. “O que você tem a fazer é falar: estou do seu lado, vamos pensar juntos como é que você quer lidar com isso? Às vezes não há mais nada além de falar ‘eu sinto muito’ e ‘você não vai passar por isso sozinho’”.
Você tem uma dúvida sobre como se aproximar do seu adolescente, uma situação que não soube bem como lidar ou um tema que acha que a gente deveria abordar? Preencha o formulário e a sua história pode virar matéria aqui.

Baseado nas descobertas e desafios de três adolescentes – Mia (Paloma Souza), Thiago (Allan Jeon) e Felipe (João Pedro Mariano) -, o banco de trás do carro é o personagem principal do microdrama vertical “Me conta no caminho”. Nesses trajetos, a motorista Carmem (Bella Piero) oferece um espaço seguro para os amigos, com escuta cuidadosa e conselhos.
O primeiro de dez episódios estreou na segunda-feira (25), nos perfis do Instagram, TikTok e YouTube do Omelete. Também será possível assistir a “Me conta no caminho” nas redes do Alana e do Portal Lunetas.
Clarissa conta que a ideia de retratar os adolescentes conversando com a motorista brinca um pouco com a imagem do paciente em um divã, enquanto o analista está na poltrona atrás. É o momento em que eles se escutam, mas não se encaram. “Olhar para o outro não é proibido”, diz. “O paciente pode se virar e encontrar o rosto do analista, assim como o passageiro e o motorista através do retrovisor.”
Os episódios também serão o ponto de partida para um e-book e guia de conversas para estimular diálogos e reflexões entre educadores, pais e adolescentes.
* A produção da Maria Farinha Filmes, realizada em coprodução com a PlayAction, é uma adaptação brasileira da obra original de Federico Veiroj e Martín Molinaro, com direção de Gabi Biga, e roteiro de Felipe Sali e da psicóloga Clarissa Temer.
Para entender
Em muitas famílias, essas conversas espontâneas acabam encontrando nas mães um espaço de escuta. O estudo “A comunicação em famílias com filhos adolescentes” mostrou que são elas as pessoas mais procuradas pelos filhos para desabafar: 50% dos entrevistados de 11 a 16 anos disseram recorrer à mãe quando querem conversar, enquanto só 12% citaram o pai. Por outro lado, 96% consideram a comunicação familiar algo muito importante.