O silenciamento da perda gestacional impacta a saúde mental da mulher e deixa crianças sem respostas
A perda gestacional exige um olhar cuidadoso para a saúde mental materna e para a inclusão das crianças no processo de luto. Com ajuda de especialistas, discutimos como transformar o silêncio em acolhimento.
O silêncio que sucede uma perda gestacional é, muitas vezes, preenchido por frases que tentam, sem sucesso, abreviar a dor. “Você é nova, logo terá outro”, “Ainda bem que foi no início” ou “Foi melhor assim” são expressões comuns que mães e famílias escutam quando o sonho de um filho é interrompido. Contudo, essa tentativa de “focar no futuro” pode invalidar uma experiência profunda de luto. Nesta reportagem, conversamos com uma psicóloga, uma escritora e uma mãe enlutada sobre como passar por um período tão delicado sem ignorar a dor.
Há um ano, Helena Ribas, de 32 anos, perdia um filho aos 8 meses de gestação. Mãe de uma menina de 4 anos, ela viu a expectativa do segundo filho se transformar em um luto invisibilizado. “Parecia que eu não tinha o direito de sofrer porque ‘já tinha uma filha'”, conta. O impacto de uma perda gestacional na família reverbera não apenas no corpo da mulher, mas em toda a estrutura emocional da casa, exigindo que o invisível ganhe nome e contorno para ser curado.
Nesse sentido, a psicóloga especialista em luto Ana Clara Bastos ressalta que a cultura brasileira tem uma dificuldade imensa em lidar com perdas simbólicas. De acordo com a especialista, a sociedade tende a qualificar a dor a partir do tamanho da vinculação concreta.
“A gente acaba avaliando o luto a partir da concretude. Mas, independente do momento, há uma perda de uma vida e de diversos simbolismos: o sonho da parentalidade, o planejamento e o ‘vir a ser’ mãe ou pai”, explica Ana Clara.
Para Helena, a dificuldade foi exatamente lidar com esse simbolismo interrompido enquanto a rotina da casa seguia. “Eu me sentia em um labirinto. Ao mesmo tempo em que estava arrasada pela perda do meu bebê, eu tinha que preparar o café da manhã e brincar de boneca com a minha filha mais velha. É um luto duplo: você sofre pelo filho que não veio e sofre pela dor da criança que ficou esperando”, desabafa.
No Brasil, estima-se que cerca de 15% a 20% das gravidezes confirmadas terminam em perda gestacional espontânea, segundo dados do Ministério da Saúde. Embora seja um evento biológico comum, o acolhimento psicológico ainda é escasso. Para a psicóloga, acolher não é tirar a dor, mas cuidar dela. “A dor de um luto precisa ser processada e sentida. Se o ‘ser forte’ silencia essa dor, o risco é de uma complicação futura, pois a dor não evapora, ela transborda”, alerta.

Por outro lado, quando já existe uma criança pequena na família, o desafio ganha uma nova camada. Como explicar para uma criança de 4 anos, como a filha de Helena, que o irmãozinho que ela tanto esperou não vai mais chegar? “A maior dificuldade foi encontrar as palavras. Ela perguntava da barriga todo dia. Eu sentia que, se eu falasse, eu ia desmoronar na frente dela, e se eu não falasse, eu estaria mentindo”, relembra Helena.
Muitas vezes, o desejo de proteção dos adultos se manifesta através do silêncio. No entanto, Ana Clara Bastos adverte que a criança não deve ser deixada à deriva. “O luto infantil é ainda mais tabu. A proteção muitas vezes vem em torno do silêncio, mas a criança já está envolvida no processo, na expectativa do quarto, do nome”, ressalta.Ainda segundo a especialista, a comunicação precisa ser mediada pela capacidade cognitiva da infância. O uso de metáforas, embora tentador, pode ser confuso. “Dizer que ‘virou uma estrelinha’ pode gerar ansiedade. A criança pode querer pegar um avião para buscar o irmão”, pontua a psicóloga. A honestidade, adaptada à linguagem da primeira infância, é o caminho mais seguro para que a criança processe a ruptura sem se sentir excluída da história familiar.
Recentemente, a jornalista Jules de Faria lançou o livro “Ela Passou Rapidinho para Deixar um Beijinho“ (Editora Quelônio), que nasceu justamente da necessidade de dar forma a esse “vazio” que, na verdade, é cheio de presença. Em entrevista, Jules compartilha que o grande desafio era mostrar que alguém pode passar rápido, mas ainda assim deixar um legado. “Não é sobre ausência, é sobre lastro. A criança percebe quando algo não está sendo dito”, afirma a autora.

O livro utiliza a imagem do “beijinho” para comunicar amor e limite. De acordo com Jules, o beijinho encerra a saudade, mas dá uma forma para ela, sendo uma ferramenta potente para crianças e adultos. “A literatura tem o poder de dar nome ao que a criança já sente. O livro é um convite para que os adultos se autorizem a sentir e chorar na frente dos filhos, mostrando que esse sentir faz parte da vida”, reflete a jornalista. A obra se torna, assim, um recurso pedagógico e afetivo para famílias em travessia.
A existência de um filho anterior, como no caso de Helena, traz uma ambivalência complexa. Se por um lado a criança é uma “pulsão de vida” que obriga a mãe a levantar da cama, por outro, pode gerar uma pressão exaustiva para estar sempre bem. “Havia dias em que eu só queria ficar no escuro, mas ela me puxava pela mão para ver um desenho que fez. Esse contraste entre a morte interna e a vida vibrante dela no corredor é exaustivo”, desabafa Helena.
Ana Clara Bastos explica que essa oscilação entre vivenciar a perda e reconstruir a rotina é o que se espera de um luto saudável. “O outro filho pode ser um fator de proteção, uma esperança de reconexão. Mas é preciso cuidado para que essa mãe não coloque a dor ‘debaixo do tapete’ para parecer forte”, orienta.Além disso, a legislação brasileira avançou com a Lei do Luto Parental, que propõe rituais de cuidado nas maternidades, como o registro do pé ou o contato com o bebê. Esses rituais são pontes simbólicas. Como afirma a psicóloga, o luto é a transição entre “amar o que está vivo para amar o que morreu”. Manter a continuidade desse amor, através de fotos, memórias ou conversas, ajuda a dar contorno à dor e permite que a família se reconfigure sem apagar a história do bebê que passou.
Para ajudar famílias que atravessam esse momento, reunimos algumas orientações baseadas nas falas de nossas especialistas para mediar esse processo com as crianças:
O compartilhamento de histórias é uma das formas mais potentes de elaborar o luto. Abaixo, selecionamos obras reais que tratam do tema com a sensibilidade necessária:
uma história reconfortante sobre o fio de amor que une as pessoas, mesmo quando não podem estar juntas fisicamente.
um livro ilustrado que fala sobre como lidar com a sensação de perda e a busca por preencher o que falta.
para conversar com crianças pequenas sobre a brevidade da vida e a permanência do afeto.
A perda gestacional não precisa ser um segredo guardado em uma gaveta. Quando abrimos espaço para a fala, permitimos que Helena, sua filha e tantas outras famílias transformem o silêncio em memória e a dor em um vínculo de amor que, embora invisível, jamais deixa de existir.
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Não existe uma receita pronta para falar sobre a morte, mas a psicóloga Ana Clara Bastos indica que alguns caminhos podem dificultar a elaboração do luto infantil. Saiba o que evitar: