Por meio de experiências que envolvem escuta, troca e convivência elas aprendem o valor de fazer parte de grupos
Experiências que envolvem literatura e teatro podem ajudar as crianças a desenvolverem o valor de pertencer a um grupo e o espírito de coletividade.
O teatro e a literatura podem ser caminhos diferentes para um mesmo aprendizado: o senso de coletividade entre crianças e adolescentes. Nas experiências da arte educadora Sabryna Mato Grosso, à frente de projetos teatrais, em São Paulo, e de Elma Reis, que organiza uma biblioteca comunitária, no Maranhão, o espírito de comunidade não nasce de discursos, mas das relações construídas no dia a dia. É na convivência, na escuta, na troca de experiências e na participação que crianças, adolescentes e toda a comunidade descobrem o valor de fazer parte de um grupo.
Em Manoelzinho, uma comunidade rural na cidade de Barreirinhas (MA), Elma é voluntária na Biblioteca Canto do Saber, criada em parceria com a ONG Vaga Lume que implementa bibliotecas comunitárias em diferentes territórios da Amazônia Legal.

“É um trabalho muito lindo e importante porque leva o acesso aos livros e à leitura a comunidades que, muitas vezes, têm dificuldade de chegar a esses recursos, como aldeias, quilombos e comunidades ribeirinhas e rurais.”
O espaço existe há quase 20 anos e aos poucos se tornou muito mais do que um acervo de livros. Elma conta que a biblioteca é um local de encontro, aprendizagem, brincadeiras e troca de experiências com atividades de leitura, contação de histórias, jogos e momentos de convivência com crianças, adolescentes e voluntários, envolvendo toda a comunidade. “O mais bonito é perceber que a biblioteca vai sendo construída todos os dias por quem participa dela.”
Lá, Elma observa que o senso de coletividade se desenvolve nas pequenas atitudes do cotidiano, como dividir materiais, cuidar dos livros e organizar os espaços. O clube de leitura que reúne adolescentes semanalmente para ler e discutir obras, também estimula a troca de ideias e o aprendizado coletivo. Mutirões de limpeza, brincadeiras cooperativas e atividades em grupo reforçam a percepção de que cuidar de um espaço compartilhado é responsabilidade de todos.
Inspirada pelo legado da mãe Maria do Rosário, umas das primeiras professoras da comunidade, que compartilhava livros e conhecimentos com crianças e famílias, Elma lembra que o exemplo dos adultos é fundamental nesse processo. “Não adianta falar sobre cuidado e respeito se nossas atitudes mostram o contrário. As crianças aprendem muito observando como tratamos as pessoas e como cuidamos dos espaços que compartilhamos.”
Para Elma, quando a comunidade se une para cuidar de um espaço as pessoas também aprendem a cuidar umas das outras. “Quando oferecemos às crianças e aos adolescentes um espaço onde são acolhidos, ouvidos e incentivados a participar, estamos dizendo que eles são importantes, que suas vozes têm valor e que também podem contribuir com a comunidade.”
Assim como a leitura, o teatro pode ser um caminho para desenvolver o espírito de coletividade. Sabryna Mato Grosso o define como a “arte do encontro, da troca e da presença” e lembra que para acontecer ele necessita do outro, até mesmo em um monólogo, já que a presença da plateia é indispensável.

Ela acredita que o aprendizado sobre o respeito à diversidade e ao ritmo do outro é desenvolvido durante a vivência de expressões artísticas, sem que o educador precise recorrer a discursos teóricos ou até lições de moral.
“Não é possível trabalhar um exercício rítmico quando cada pessoa está em um ritmo diferente. É preciso parar e escutar para vibrar na mesma pulsação que o outro. No jogo cênico o caminhar é coletivo e a criança vai aprendendo, naturalmente, pela troca, que ela precisa do outro”, diz Sabryna. “Ela acaba fazendo essa ligação para o contexto da vida, respeitando o tempo do outro também na escola e nas demais relações.”
Sabryna diz que o simples gesto de compor uma roda no início de uma aula de teatro, onde todos dão as mãos, olham-se nos olhos e mantêm o mesmo alinhamento, já é exercício de cidadania. “Ninguém está em destaque, há um espaço de igualdade, respeitando a diversidade, tempo e ritmo de cada pessoa.”
Uma das experiências mais marcantes de sua trajetória aconteceu quando ela ministrou aulas de teatro para meninas de 10 a 14 anos consideradas “difíceis e agressivas” em um projeto extracurricular. No início, os encontros eram marcados por brincadeiras de luta e deboche quando alguma participante tentava realizar os exercícios cênicos.
Para construir um ambiente de confiança, a professora propôs jogos coletivos que evitavam a exposição individual e estimulavam a escuta, a concentração e o respeito mútuo. Após quase seis meses, Sabryna chegou à sala e encontrou as meninas sentadas em roda, fazendo o aquecimento por conta própria, com calma e organização.
“Elas foram percebendo que precisavam respeitar a colega para que o exercício acontecesse, para que o dia fosse divertido. Entenderam que precisavam se apoiar, que não adiantava ir sozinha, já que o teatro é coletivo. E eu percebi que tinha conquistado um dos maiores tesouros da minha carreira como artista educadora.”