Qual a relação entre telas e políticas públicas para a infância?

Sem creches, contraturno ou espaços seguros, o celular vira substituto do cuidado na vida de muitas crianças — sintoma de um país que não prioriza a infância

Fernanda Martinez Publicado em 14.01.2026
Imagem que ilustra matéria sobre telas e políticas públicas mostra duas crianças sentadas em balanços em um parque. Cada uma está olhando para a tela de um celular. Uma faixa rosa cobre a região dos olhos de ambas.

Resumo

Em muitas famílias, o celular não é escolha, mas o que resta diante da ausência de creches, segurança e políticas de cuidado. Especialistas apontam que o excesso de telas é um sintoma da falta de incentivos para proteger a infância.

“A tela não é o problema. A falta de Estado é”, afirma a doutora em Ciências Sociais Enid Rocha, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). “Quando não há políticas públicas suficientes, o uso do celular na infância é o substituto do cuidado, e não um desvio moral das famílias.”

Entre a promessa constitucional de proteção e um cotidiano atravessado pela precarização, o celular se instala na rotina de muitas crianças. Não como vilão, nem como luxo. Mas como a rede de apoio possível.

De acordo com Enid, faltam creches em tempo integral, opções de contraturno escolar e espaços seguros de convivência, “enquanto sobra violência fora e dentro de casa”. Por isso, “responsabilizar apenas as famílias pelo uso de telas na infância é injusto”, diz. Principalmente quando a “falta de políticas de cuidado prejudica mais mães solo, negras e pobres, e consequentemente, as infâncias negras, periféricas, indígenas, quilombolas e ribeirinhas”.

“A criança não escolhe a tela — a tela, muitas vezes, é o que sobra.”

Esta reportagem integra a série “Crianças e celular”. Leia também: [Um papo sobre o mundo digital]; [Primeiro celular: decisão individual ou pacto coletivo?] e [Redes sociais na infância: quando é hora de permitir — e como].

O cotidiano que cabe na palma da mão

Rebeca, 9 anos, e Ravi, 5, passam a tarde com o avô. A mãe, Ana Paula Santana, trabalha; o pai também. Antes, as crianças tinham alguém que as acompanhava no contraturno escolar. Brincavam, assistiam TV, inventavam histórias. Mas agora a rotina funciona como dá. O avô tem outras atividades e menos recursos, e o celular é o único entretenimento para ocupar as horas vagas.

“Dei um celular pra cada um. Hoje ficam a tarde toda, mais de cinco horas por dia”, conta Ana Paula. Ela tenta acompanhar o que veem, monitora o que eles baixam, regula horários. Mas sabe que, na prática, o uso excessivo não está só em suas mãos. “Se eu pudesse parar de trabalhar e ficar com eles, seria diferente. Mas dependo da ajuda do meu pai e ainda bem que tenho essa ajuda. Não sei o que seria sem ele.”

Um país que investe pouco na infância

De acordo com um estudo realizado pelo Ipea e pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), o Brasil destinou, em 2024, R$ 246 bilhões para ações voltadas à infância. Quando o valor é distribuído entre 49 milhões de crianças e adolescentes no país — quase um quarto da população—, restam cerca de R$ 400 por mês por criança. Por dia, R$ 15 é o preço de um lanche simples.

É com esse valor que se espera garantir educação, saúde, assistência, cultura, lazer, proteção e oportunidades. Ou seja, é “muito pouco para reverter desigualdades e assegurar os direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA”, aponta Enid. “Estamos longe de tratar a infância como prioridade orçamentária.”

Além de insuficiente, o orçamento é engessado. Mais de 90% dos recursos federais ligados à infância se concentram em três áreas: alívio à pobreza, educação e saúde. Assim, sobra quase nada para políticas igualmente essenciais, que promovam cultura, esportes, espaços de convivência, contraturno escolar e saneamento.

Onde faltam políticas públicas, sobram telas

A pesquisadora reforça que “o excesso de telas não nasce dentro das casas, mas na ausência de territórios seguros com alternativas de cuidado”. Isso envolve falta de:

  • Equipamentos públicos voltados para famílias com crianças;
  • Segurança;
  • Políticas de cuidado em horários atípicos, ou seja, fora do horário escolar e comercial, como à noite, fins de semana e feriados;
  • Articulação entre saúde, assistência e educação.

Quando está sem o celular, “Ravi fica como se estivesse em abstinência”, descreve a mãe Ana Paula. Ele se irrita, se desespera, corre pela casa. “Virou um vício e, muitas vezes, eu cedo porque preciso de paz.”

Essa “busca pela paz” não é apenas fruto de escolhas, mas também das limitações enfrentadas pela família: muito trabalho, deslocamentos longos, ausência de atividades gratuitas perto de casa.

Para Enid, a intervenção mais urgente não tem a ver com proibir ou limitar celulares, mas com prioridades imediatas para reduzir o uso prejudicial e cuidar dessas crianças. Portanto, para isso, é preciso:

  • Ampliar creches e pré-escolas, especialmente em tempo integral;
  • Ciar políticas de contraturno escolar;
  • Fortalecer locais comunitários, como bibliotecas, quadras, centros culturais;
  • Oferecer apoio à parentalidade em Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e escolas.

Dessa forma, com políticas de cuidado funcionando, a tela pode voltar a ser uma ferramenta, não a única alternativa.

Enquanto políticas não chegam… o que pode ajudar as famílias agora?

Para garantir uma infância mais protegida, alguns caminhos podem ajudar a diminuir a dependência do celular. “Entre tudo e nada, existe o possível”, lembra Rodrigo Nejm, psicólogo e especialista em educação digital do Instituto Alana.

Assim, o primeiro passo, segundo Rodrigo, é ampliar o repertório: videogames e televisão ainda são alternativas menos agressivas do que o celular, especialmente para crianças pequenas. Canais infantis e serviços de áudio e vídeo por assinatura com perfis protegidos — usados com tempo limitado e respeitando a classificação indicativa — já reduzem parte dos riscos dos vídeos curtos e do feed infinito.

Além disso, outro ponto é resgatar algo essencial, mas frequentemente esquecido: o direito ao tédio. Nejm lembra que, mesmo em contextos de vulnerabilidade, não fazer nada é uma opção válida e precisa ser incentivada. “Crianças podem criar suas próprias brincadeiras, reinventar objetos, explorar brinquedos simples e interagir com vizinhos, primos ou colegas quando há um mínimo de segurança no entorno.”

Ainda assim, Nejm reforça que o peso dessa equação não pode continuar sobre as famílias. A nova Lei 15.211, conhecida como ECA Digital, que obriga plataformas digitais a oferecer mecanismos de controle parental acessíveis e a comunicar riscos do uso precoce, é um avanço. Porém, só funciona se for acompanhada de cobrança pública para que as empresas façam a sua parte — e deixem de empurrar as crianças para ambientes que não foram feitos para elas.

A equidade digital, ou seja, a garantia de que todos tenham igual acesso e oportunidades de usar a tecnologia de forma benéfica, também é importante, segundo Enid, para garantir que crianças e adolescentes das periferias e áreas rurais tenham mediação digital qualificada em escolas e espaços comunitários. “A tela não pode ocupar o lugar das políticas de cuidado, mas a tecnologia precisa ser aliada.”

“Não é sobre demonizar telas. É sobre equilíbrio possível e responsabilidade compartilhada.” – Rodrigo Nejm

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