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Não tenha um filho para lhe satisfazer Istock
  • Publicado em: 27.11.2018
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Há que se ter muita coragem para ter filhos, e mais coragem ainda para não os ter. Decidiram, sem nos perguntarem antes, que uma vida sem eles é uma vida menor. Não há muitas barbaridades maiores do que esta, que coloca nos filhos e na parentalidade a satisfação de toda uma existência adulta. Essa premissa é opressiva, julgadora e transforma um bocado de vidas femininas em histórias de menor valor social. Há, sim, tanta vida lá fora, além-mar, do outro lado do oceano das vidas com filhos.

Pessoas sem filhos podem, sim, desenvolver biografias dotadas de cenas muito potentes, capazes de fazer sentir os tais efêmeros instantes de felicidade cotidiana. Mas o mundo ainda acredita que não – e trata de julgar, sobretudo as mulheres sem filhos, de egoístas e individualistas. Estas mulheres, que ousam questionar a maternidade como o destino mais imediato de suas vidas adultas, merecem todo nosso respeito e admiração. Elas também abrem o caminho para a autonomia do desejo das mulheres com trajetórias mais tradicionais. Muitas mães podem, secretamente, invejar a história de vida das mulheres sem filhos, já que a maternidade não é um destino de alegrias insuperáveis.

Para quem decide tê-los, se descobre gestante num susto que demora a passar, ou até mesmo que escolhe a vida da adoção, os desafios múltiplos já se mostram evidentes no processo da espera. Esperar por alguém que não se sabe como será, o que fará da vida, que desejos trará consigo, que relação afetiva conseguirá desenvolver com quem dele ou dela cuidar. Esperar, aqui, significa imaginar alguém para ir habitando os sonhos, os projetos de vida, as histórias familiares. Todas as pessoas em volta do bebê fazem isso, em silêncio ou de forma mais compartilhada. Não importa que digamos que “não, eu não idealizo nenhum bebê, o que vier para mim está ótimo”. É impossível não construir alguém na cabeça e no coração, quando este alguém estará ligado a mim de forma indelével.

O filho é o primeiro grande compromisso com a eternidade para muitas e muitos.

Traz consigo a responsabilidade do cuidado, da educação, da socialização, de prezar por quem ele quiser ser ou por quem eu gostaria que ele fosse. A eternização do vínculo com o filho assusta, por isso há tanta ambivalência na gravidez, mesmo que ela tenha sido muito desejada, e aguardada por anos de tentativas. Quando a resposta definitiva da chegada do filho vem, traz consigo esta pergunta: qual o meu preparo emocional para dar conta desta tarefa maiúscula da existência humana?

Há motivações inimagináveis para se ter um filho. Quando paramos para pensar, dificilmente as respostas aparecem com facilidade. Somos desconhecedores contumazes de nossas paixões mais profundas. Somos alheios a uma grande parte de nós, e este é um dos mistérios da vida, que tratamos de preencher com certezas vãs que se esvaziam, com frases feitas que não sobrevivem a questionamentos mais complexos, com terapias de toda sorte que podem durar anos a fio.

Nossa dor é perceber, que apesar de termos feito tudo tudo o que fizemos, ainda projetamos da mesma forma como nossos pais fizeram conosco.

Tudo o que falamos deles, todas as frases jorradas aos gritos ou às lágrimas com aqueles que nos criaram, “você não entende que eu sou diferente daquilo que você imagina ou quer!”, “você ainda não me conhece?”, passam a ser as frases dos nossos filhos atônitos diante do olhar projetivo que eles vêem, sentem e com o qual se incomodam muito. Esta é a matemática do estranhamento da relação entre mães, pais e filhos – estamos sempre pendentes de uma conversa que falta, de uma palavra que resta a ser dita. Muitas conversas entre estas pessoas são necessárias, para que minimamente se construa um consenso sobre quem estas pessoas são, o que querem e quais as limitações tremendas que todas têm para trilhar o caminho juntas.

A beleza é justamente esta, a de nos reconhecermos imperfeitas e imperfeitos. O fato de não conseguirmos, nem mães, nem pais e nem filhos, dissolvermo-nos das projeções do que gostaríamos que o outro fosse, é um dos grandes aprendizados da existência inteira. Entender isto durante os primeiros momentos com um filho é um presente para ele. Podemos tratar a maternidade e a paternidade como uma oportunidade pedagógica ímpar, de não fazer do filho um objeto das minhas vontades, dos meus desejos não realizados, o avesso dos medos que eu tive de fazer o que eu não fiz. Esta é uma chave que abre portas gigantes, como a de um país das maravilhas, em que somos Alices caídas de um buraco que nem imaginávamos existir.

Os filhos não chegam até nós como a redenção final para aquilo que não conseguimos ser.

Eles querem que sejamos o amparo para suas dúvidas, a mão dada em seus caminhos estranhos a nossa história. Nós precisamos querer muito, mas muito mesmo, dar as mãos para alguém trilhar uma história que nunca nos pertenceu. Precisamos ser pessoas curiosas sobre mundos que nos são alheios. Precisamos querer a autonomia deles como o maior dos legados a lhe serem ofertados como herança.

O resultado deste esforço hercúleo é o laço entre nós e eles, que fica mais forte a cada ousadia nossa em referendar suas escolhas. Claro que haverá vários nãos, para protege-los de riscos ou para dizer-lhes que “isto aí eu não sou capaz de fazer e de te dar”. É deles a tarefa de compreender nossas fragilidades. Mas suspeito que, para aquelas ou aqueles que se propõem a criar filhos, não haja muitas sensações mais surpreendentes do que reconhecer a capacidade que não imaginávamos ter para apoiar as escolhas estranhas, inéditas, transgressoras de um filho. Porque este mundo, minha gente, está doente. Criar filhos para adaptá-los a esta realidade pode ser mesmo o maior dos equívocos. Dar-lhes asas e mãos dadas sempre, para que possam se descobrir donos de uma história e de um futuro, pode ser uma das únicas formas de salvá-los dos tempos tortos em que vivemos.

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Resumo

"O filho é o primeiro grande compromisso com a eternidade para muitas e muitos". Confira a reflexão do nosso colunista Alexandre Coimbra Amaral!
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