Meme e infância: o riso está permitido à custa de uma criança?

“A exposição de uma criança não é ética”, alerta Luci Pfeiffer, especialista que estuda os impactos da era digital na saúde de crianças e adolescentes
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 21.10.2020
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Aniversário é o dia da gente. Um momento festivo que lembra quando chegamos ao mundo e deve ser celebrado com aqueles que querem o nosso bem, com direito a bolo e a assoprar velinhas. Opa, ‘péra. Quer dizer, se nenhum convidado – ou a sua irmã mais velha – não assoprar antes de você e atravessar o seu momentinho.

Sim, estamos falando do vídeo das irmãs Maria Eduarda, de três anos, e Maria Antônia, de seis, brigando na hora do parabéns que viralizou essa semana, virou meme e fez muita gente rir. Entre os assuntos mais comentados, a festinha de aniversário extrapolou os limites da casa da família e foi compartilhada por muita gente nas redes sociais por causa da disputa por assoprar a vela do bolo. Na gravação, a aniversariante estava prestes a soprar suas velinhas quando a irmã mais velha se intrometeu e assoprou primeiro. A solução foi responder ao desaforo partindo para a briga. 

“A reação de quem vê pode ser que seja de riso”, assume a psicanalista e pediatra Luci Pfeiffer, que estuda os impactos das mídias nas crianças e participa de um grupo de trabalho da SBP sobre saúde na era digital. “Mas seria de pouca sensibilidade”, alerta ela, “porque é uma cena bastante invasiva da irmã maior para a menor, e muito agressiva da pequena para a maior”.

Qual é o limite do entretenimento nas redes quando envolve a infância?

De repente, estamos todos julgando a relação das irmãs – ou fiscais de quarentena julgando a festinha aglomerada em tempos de pandemia e o ato de soprar a vela liberando gotículas em cima do bolo (sim, até isso rolou!). Mas, em primeiro lugar, Luci lembra: “a exposição de uma criança não é ética, independente de ser considerado engraçado ou poder viralizar”. Para a especialista, “publicizar o privado, aquilo que é íntimo e particular de cada criança, não deveria ser exposto em redes sociais por seus responsáveis. Crianças são para serem protegidas e cuidadas”, enfatiza. “A melhor forma de evitar que se tornem motivo de humor ou virem piada é não ‘curtir’, não comentar, não estimular que outros pais usem seus filhos para ter alguns minutos de maior publicidade”, recomenda.

Criança é prioridade absoluta e seus sentimentos precisam ser validados, não minimizados, a partir de uma relação saudável que dê conta de cada individualidade. Para Luci, antes mesmo do ápice do vídeo, quando a irmã rouba a cena da aniversariante, já dava para perceber “no rostinho da mais velha o quanto ela estava aborrecida e triste ali do lado, vendo o bolo, e a irmã em destaque, na cadeirinha mais alta. Aí ela vai e apaga a vela, numa demonstração bastante grande de concorrência e de ciúme, uma reação praticamente normal, exacerbada por uma agressividade, que não deveria ser criticada, mas entender de onde vem”, pondera. 

“Crianças devem saber que a festa é de uma e depois vai chegar a festa da outra. O presente é para uma e depois haverá o da outra”, pontua Luci. “Lidar com pequenas situações de frustração é importante para que se possa lidar com outras situações que virão com a vida”. A especialista indica que um responsável precisava ter interrompido a cena. “Alguém podia ter se ocupado de abraçar a maior, trazê-la para perto e questionar ‘será que é você que gostaria de estar fazendo aniversário?’ e explicar ‘tudo bem que você queria que fosse seu aniversário, mas hoje é aniversário da sua irmã, ela que vai apagar a vela’; enquanto outro adulto consolava a menor dizendo ‘sua irmã também queria estar cantando parabéns’”. 

“Que ambas entendessem a posição de cada uma seria de muito valor, mas o que vimos foi uma conduta distorcida e talvez muito sem pensar, por causa da surpresa da situação”, reflete Luci. “O contornar depende muito da criatividade e do entrosamento que os pais têm com seus filhos. Quanto maior a convivência, a escuta e o diálogo, mais facilmente eles poderão dar conta do imprevisto ou daquilo que não era esperado e perceber as manifestações diretas ou indiretas que a criança dá quando tem algo incomodando”, comenta. “A criança precisa ser ouvida, precisa poder dizer dos seus sentimentos e não adianta dizer a ela ‘você não pode, não deve ter ciúme’”. 

“A gente não consegue impedir que o ciúme exista”

Meme: uma vez na internet, sempre na internet

Quem nunca brigou na infância que atire a primeira pedra. Mas, embora seja uma situação comum entre irmãos, ter a intimidade exposta para além dos convidados da festa, na internet, pode ter impactos para a saúde emocional da criança.

“Como uma vai ficar em relação à outra depois da exposição de uma cena extremamente agressiva? Como será que essas duas menininhas vão se sentir no futuro sabendo que foram motivo de piada de muitos? Pode ser que elas não se importem, mas a simples possibilidade do prejuízo já deveria ser um alerta para que todos os pais se perguntassem se gostariam de ficar famosos ou serem vistos com frequência na rede social a partir de uma conduta que não é correta”, questiona a psicanalista. 

“Que fama é essa que expõe duas crianças tão pequenas num espaço sem limite como a internet?”

O impacto das mídias na infância precisa ser considerado pelos adultos responsáveis. “Os pais devem pensar no que estranhos podem fazer com essas imagens de crianças expostas em redes – seus rostinhos, seu corpo, suas falas, seus modos de ser criança”. A pediatra e psicanalista faz um paralelo entre um tempo recente em que se protegia as crianças de estranhos e hoje elas são expostas a quatro bilhões de internautas no mundo todo, entre os quais “há pessoas normais, saudáveis psiquicamente, mas também pessoas perversas que podem fazer mau uso desse material”, alerta. 

Além de criticar a exposição de crianças, Luci recomenda protegê-las dos comentários ou das críticas que vídeos como esse podem trazer e mesmo, de forma inversa, elogios que possam receber frente a um material exposto. “Não seria justo que se levasse a público essa situação e seria destruidor expô-las a um julgamento ao lhes revelar os comentários desse público”, comenta.

Em entrevista a outros veículos, a madrinha das meninas, responsável por ter publicado o vídeo na internet, comentou que a situação foi resolvida rapidamente. Maria Antônia chorou envergonhada porque todo mundo começou a rir, mas depois até ajudou a irmã a continuar a celebração e a cortar o bolo. “Coisa de irmã”, definiu.

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Resumo

Luci Pfeiffer, psicanalista, pediatra e hebiatra que estuda os impactos da era digital nesses públicos, ajuda a entender quais são os limites do entretenimento na rede quando uma criança está envolvida e é exposta.
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