João Pedro e a história das “crianças matáveis” no Brasil

João Pedro, 14, foi morto durante operação policial, em São Gonçalo (RJ), enquanto brincava com seus primos, dentro de casa
joão-pedro-por-pevê-azevedo Ilustração: Pevê Azevedo (@peveazevedo)
  • Publicado em: 20.05.2020
  • Atualização: 26.05.2020
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Hoje (e sempre) precisamos falar de João Pedro. Em meio a uma pandemia, quando o Brasil atinge a marca de 1.179 mortos em um único dia por Covid-19 (1 morte a cada 73 segundos), uma família preta e pobre de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, enterra o seu filho João Pedro de apenas 14 anos. Enquanto brincava em sua casa, ele foi morto a tiros em mais uma ação desastrosa e assassina do Estado.

Acompanhar a dor dessa família preta dilacerada exige que pensemos sobre o porquê de tantas mortes de crianças e adolescentes pretas e pobres no nosso país. Há um discurso que nos quer fazer crer que crianças e adolescentes brasileiros vivem sob as mesmas condições e, por isso, devem, inclusive, se preparar para o Enem, se “esforçar” para não permitir que o Brasil pare.

Mas há em nosso país um conjunto de crianças matáveis. Não há como dizer isso de outra maneira, ou de forma mais suave.

Há em nosso país um conjunto de crianças cujos corpos são sempre os alvos das balas perdidas, das ações fracassadas do Estado. Crianças que não conseguem ser protegidas desse genocídio, mesmo quando estão usando a farda da escola (Marcos Vinícius da Silva, 14 anos), quando estão na escola (Maria Eduarda, 13 anos), quando andam acompanhadas da família (Ágatha Félix, 8 anos) ou quando brincam supostamente em segurança na sala de suas casas (Vanessa Vitória, 10 anos). 

João Pedro entrou para essa lista de mortes absolutamente evitáveis, mas que não são por acaso. A violência que mata meninas e meninos pretos e pobres no Brasil não é um acidente, é um “projeto de Estado”. Isso acontece quando defendemos a redução da maioridade penal; quando retiramos do Estado a responsabilidade em prover habitação, educação, segurança, saneamento básico, saúde para todos; quando naturalizamos as mortes das pessoas pretas e pobres, afirmando que bandido bom é bandido morto; e quando consideramos o encarceramento em massa a melhor alternativa. 

As balas que mataram as nossas Ághatas, Vanessas, Marcos, Paulos e tantas outras crianças e adolescentes não foram disparadas por nós, mas inegavelmente têm a conivência social. Os dados sobre mortalidade por armas de fogo são assustadores. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, a cada 60 minutos morre uma criança ou adolescente por arma de fogo no Brasil. No Atlas da Violência, consta que os homicídios foram a causa de 51,8% dos óbitos de jovens de 15 a 19 anos em 2019.

Há uma música do grupo Facção Central, que se chama “Eu não pedi pra nascer”, cujo refrão é um coro de vozes infantis que clama: “O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim. Não me espancar, torturar, machucar, me bater. Eu não pedi pra nascer”. 

As vidas das nossas crianças e dos nossos adolescentes pretos e pobres importam. Elas podem não ter pedido para nascer, mas devemos lutar para não deixá-las morrer! 

É urgente que não esqueçamos seus nomes e rostos, nem permitamos que virem apenas números frios que pouco parecem dizer das dores dessas famílias e das histórias interrompidas dessas crianças.

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é papel da família, do Estado e da sociedade prover os direitos das crianças e adolescentes brasileiros. Precisamos entender que as crianças pretas e pobres também estão incluídas nessa máxima. É preciso exigir justiça e reconhecer que o racismo mata e tem matado muitas crianças e adolescentes pobres e pretos. Não há como falar de infância(s), sem considerar os atravessamentos sociais de classe, gênero e raça. Crianças e adolescentes não vivem (e, principalmente, não morrem ou são mortas) da mesma forma. 

Em uma charge emocionante que circulou nas redes sociais, Nando Motta retrata a menina Ágatha com seu traje de menina-mulher maravilha recebendo João Pedro no céu.

Desenho de uma menina negra, Ágatha, vestida de super-heroína, está caminhando com um menino negro, João Pedro. Ela o acompanha no céu, onde é recebido por várias crianças negras.
Nando Motta

Charge de Nando Motta, retratando João Pedro com Ágatha Félix, morta em setembro de 2019

Que as nossas lágrimas de tristeza e indignação possam se transformar em força para enfrentar o extermínio de nossas crianças e de nossos adolescentes pretos e pobres. 

Às nossas crianças mortas, nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas. João Pedro, presente!

*Juliana Prates Santana é psicóloga com mestrado em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Estudos da Criança pela Universidade do Minho. É vice-diretora do Instituto de Psicologia da UFBA, e coordena os projetos Crianças na UFBA e Infância em Cena.

 

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Resumo

João Pedro, 14, morto durante operação policial em São Gonçalo (RJ), faz parte de um "conjunto de crianças matáveis", "cujos corpos são sempre os alvos das balas perdidas, das ações fracassadas e desastrosas do Estado". Leia o artigo da psicóloga Juliana Prates Santana.
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