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Ágatha: símbolo da facilidade com que desprotegemos as infâncias

Ághata foi morta por um tiro de fuzil que a atingiu nas costas, enquanto passeava com a família, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro
Ágatha Félix Pevê Azevedo/peveazevedo.com.br/Reprodução Lunetas
  • Publicado em: 24.09.2019
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É hora de voltar a escrever aqui. Durante algum tempo estive colocando outras partes da vida em ação, sentindo falta de deixar as letras escritas falarem o que o silêncio de minha boca jamais conseguirá dizer. Eu agradeço enormemente à equipe do Lunetas, pela disponibilidade de esperar o tempo da vida operar este retorno. E, na hora em que decidi retornar, tentando escrever algo sobre as emoções da infância, não consigo pensar em outra coisa. Estamos assolados por uma morte icônica, de Ágatha Félix, uma menina de oito anos de idade, o maior símbolo até aqui da facilidade com que estes tempos se esmeram em desproteger as infâncias, as adolescências e as adultezas negras e indígenas do Brasil.

Ágatha morre como criança e nasce como símbolo

Na madrugada do dia 21 de setembro, um sábado, Ághata foi morta por um tiro de fuzil que a atingiu nas costas, enquanto passeava com a família dentro de uma kombi, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. Clique aqui para saber mais.

A sua trágica partida é a ilustração mais nítida daquilo em que nos transformamos. Somos um país que deixa de ver o corpo de uma criança negra

Fomos ensinados de forma insistente a cegarmos seletivamente o coração para as dores de quem porta a cor dos escravizados. Há quinhentos anos, antes de cada um de nós saber o que queira ser na vida, aprende perfeitamente a fazer da cor escura na pele alheia um manto de invisibilidade.

Até chegarmos aqui, neste ano nefasto, carregado de misérias políticas em série, a ponto de adoecer quem deseja fertilizar outro solo para a convivência humana. Chegamos a este momento, em que um corpo estendido no chão é mais um. Desde quando passamos a ser este país, que se arvora ao direito de matar uma criança à luz do dia, da mesma forma que se deu a indesculpável autorização para escravizar e exterminar povos originários?

Eu sei que você, que me lê agora, não apertou o gatilho que fulminou a vida da garota que será imortalizada na pele da mulher-maravilha que acreditava poder ser. Mas eu, você e todos os demais brasileiros somos parte de um tecido doente. Há um câncer que se espalha em metástase. Não há quimioterapia prescrita para esta multiplicação descontrolada do ódio entre nós. Passamos a valorizar o ódio como fundamento da ligação entre as pessoas.

Grupos inteiros de brasileiros que se unem, legitimando o ódio como verdade construída entre eles, porque é a concordância que têm a ofertar uns aos outros. O ódio descontrolado é a imagem que nos envergonha no mundo. Deixamos de ser o país cordial para ser a morada do desejo de aniquilar: os pretos, os indígenas, os que pensam politicamente diferente, a natureza – a vida, enfim.

Numa pulsão de morte que não encontra aparente freio, sentimos todos o espanto com o trator da cultura que se faz presente. Individualmente não conseguimos imaginar solução, embora sigamos no destino de fazer, cada um em seu quadrado, espaços de construção de um mundo novo, em que a celebração da diferença seja a crença básica e fundante. Mas se nossos olhos se transformam em drones a ver o país de cima, a imagem é brutal. O desafio é maiúsculo.

Desde quando passamos a normalizar o ódio?

Desde quando deixamos pensamentos destrutivos virarem palavras, atos e rituais? Socialmente, desde sempre. Um país como o nosso sempre teve uma existência violenta (termo cunhado pela sempre brilhante Eliane Brum). Mas é hora de uma reflexão biográfica interna, individual, para rastrear as origens na vida privada da permissão ao ódio. Não haverá saída para esta morte rápida de um país, se cada um não se comprometer a uma restauração da alma individual.

É hora de olhar pra dentro, para fora e para os lados. Olhando para dentro, escutamos o silêncio das cenas esquecidas, para entender o que elas gritam e não queremos escutar. Cada um de nós tem cenas que gritam, que espelham este tipo de gênese da liberdade para odiar o outro. Há que se tratar este material, como uma criança refaz uma argila. Tome estas cenas pela mão, chore se necessário esta dor. Sinta que a argila da sua história de vida pode ser reconfigurada. Perceba que são as suas mãos que refazem os conceitos que norteiam o seu presente e o seu futuro.

Quando você encontrar a origem de um ódio, entenda também que há gente que ensinou e sustentou esta imagem

Há pessoas amadas que, em seu tempo histórico de vida, aprenderam a normalizar o que hoje sabemos ser preconceito e intolerância à diferença. Estas pessoas sim, fizeram coisas por você, e podem ser reverenciadas por isto. Mas no meio do amor que elas lhe ofertaram, há cenas que merecem ser repaginadas, lições que merecem ser desaprendidas. Isto não desonra ninguém, não desmerece o que elas fizeram de belo. Apenas assume a humanidade, e portanto a existência errática, que há em qualquer de nós. Crescer significa dar-se o direito de desaprender o que foi mal aprendido, ainda que os professores tenham sido gentes que habitam lugares cativos do coração.

Você vai perceber que, ao voltar no tempo da sua história, se sentirá mais autor do que quer ser. Somos aprendizes da existência, e esta condição só termina no extremo fim. Enquanto estivermos grandes, envelhecendo, ainda temos o direito e a capacidade de mudar o curso do olhar para a vida. Por exemplo, Agatha. Podemos escolher vê-la. Podemos escolher ver as Ágathas, as Marielles, os Marcos Vinícius. Podemos escolher ver os indígenas, podemos escolher ver os LGBTs, podemos escolher ver quem é visto como indigno de existir da forma que sua alma lhe ensina a ser. Podemos escolher. Mas, para isso, é necessária uma revisão ampla, geral e irrestrita de nossas vísceras históricas. Compreender o injustificável que aprendemos a ser. Captar a dissonância entre o que acreditamos ser e o que, de fato, somos. Há tempo, ainda, ainda que os fogos amazônicos nos relembrem da urgência de se refazer o mundo que ainda habitamos.

Enquanto ficarmos cegos aos ódios que proferimos sem sentir que são mortais, corpos e árvores cairão ao lado

Os céus que escureceram São Paulo já nos alertaram: está tudo conectado, não tenhamos a ilusão de separação entre quem vive e quem morre. A metástase de um país tomado pelo ódio, pela ignorância e pela cegueira seletiva pode receber um remédio que parte do interior da alma de cada um, e vai se amalgamando em células ínfimas de esperança.

A reversão é coletiva, mas a responsabilidade da transformação individual é a cola necessária para um novo coletivo amoroso poder acontecer, de fato, entre nós.

 

*A ilustração acima foi cedida pelo ilustrador e designer Pevê Azevedo.

 

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Resumo

"Estamos assolados por uma morte icônica, de Ágatha, uma menina de oito anos de idade, o maior símbolo até aqui da facilidade com que estes tempos se esmeram em desproteger as infâncias". Leia Alexandre Coimbra Amaral.
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