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Um país feito de raiva: de onde vem o desejo de dizimar o outro?

Neste momento histórico, somos crianças acuadas, iradas, que no final das contas precisam de colo para decantar o choro do desespero
Raiva Istock
  • Publicado em: 03.10.2018
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Antes de você começar a ler este texto, eu quero lhe prometer que não vamos falar de Eleições. Eu quero te pedir a licença de podermos conversar sobre o que não se conversa, por puro descrédito. Eu sei que, independentemente de quem você seja, a vida anda dura demais, os amigos e familiares já não são mais os mesmos. Você não consegue se sentir representado por muita gente que já falou a sua língua, e assim os muros tornam-se inevitáveis. Relações foram desfeitas, e as estradas que levavam a tanta gente querida foram interditadas. E tudo isso lhe provoca tristeza, raiva e medo.

Talvez um pouco de saudade de um tempo em que as relações à sua volta podiam ainda acontecer de forma diferente. Se você se identifica com este prólogo, estas linhas querem muito conversar com você. Sente aqui, fique o mais confortável que puder. Eu estou olhando para você, e meu olhar quer dizer apenas bem-vinda, bem-vindo ou bem-vinde. Nada mais. Não existe mais nada além disso nos meus olhos, além do desejo honesto de me encontrar com o humano que mora em você. Que bom ter você ao alcance da minha esperança de conversar. E muito obrigado por permitir que este encontro aconteça.

O futuro já começou, e infelizmente não anda trazendo boas notícias sobre nós. Nunca esperávamos que a nossa imagem de um país que dança, que sorri, que joga bola, que se reinventa a cada manhã, pudesse ser substituída pelo seu espelho ao contrário.

“Somos hoje um país de cenhos franzidos, corações desistidos e palavras venenosas nos grupos de familiares e amigos de mensagens no celular”

Somos milhões de rompimentos, de afastamentos, de lágrimas vertidas de tristeza ou desertos de raiva seca.

Ao invés de sermos um lindo sorriso gargalhante, somos uma boca banguela, cheia de lágrimas se misturando à saliva, e estas águas parecem querer só jorrar em um cuspe contra alguém, contra gentes que antes dizíamos amar e respeitar. Quando éramos crianças, nós chorávamos o assombro do pesadelo de perder quem amávamos, saindo da cama aos prantos e indo buscar a mãe que dormia no quarto ao lado.

Hoje nós somos o próprio pesadelo, somos a cena temida, viramos o fantasma que acreditávamos ter sido aniquilado com a saída da infância amedrontada. Dizemos que amamos, mas o coração não consegue pulsar da mesma forma. O amor está de pernas bambas, parece ter perdido consistência, e só consegue se sentir firme na dureza das palavras ácidas e das ações destrutivas. Parece que é algum tipo de fim, game over, e por favor, onde está o botão para darmos um control alt del neste sistema?

Recomeçar é o nome da urgência que precisa surgir. Parece que as histórias de nossos vínculos mais íntimos estão como as estradas esburacadas, para as quais o remendo não parece ser nem remédio paliativo. Mas não sabemos ainda como reconstruir um asfalto; o piche está na cara das pessoas, jorrado de algum diálogo de ódio. Mas, e se as mesmas pedras que atiramos contra os outros puderem se transformar no chão firme em que pisaremos outros futuros menos sombrios?

“E se ainda existir alguma saída para a magnitude do abismo em que não paramos de cair?”

A desistência é uma senhora ardilosa. Ela abre a porta de nossas casas e nos convida a deitarmos na cama, fazendo dela o caixão das nossas vontades de ser. A desistência faz de nós mortos-vivos, dilacera a força criativa que existe em nós para fazer do fel um mel. O que eu proponho é, em primeiro lugar, chamar a desistência para conversar, já que ela de tão frequente em nossas casas terminou se transformando naquele hóspede sem noção que precisaria se mancar que está incomodando.

Eu quero conversar com a desistência, mas também com o desencanto. Eu quero convidar para sentir também o medo, a raiva, a mágoa, a decepção e o descrédito. Quero conversar com a incoerência, com o desejo de aniquilar o outro, que consegue estar de mãos dadas com a necessidade universal de amar e ser amado por alguém ao lado.

Eu não me importo em ser grão. Em sentar com uma só pessoa. Mas quando eu estiver ali, esta pessoa poderá ter a certeza de que meus olhos estarão à sua disposição.

“Eu não quero só escutar, eu quero conversar”

Escutar é abraçar com o silêncio, e conversar é esperançar com uma pergunta. Eu quero escutar a história da raiva, do medo, da desesperança, da desistência, do rompimento. Porque em cada história há uma coerência, há razão naquilo que podemos ver como somente loucura. Quando nos dispomos a escutar o caminho que uma vida fez até abraçar o pior de si, entendemos também que esta estrada tem mão dupla e que é possível caminhar no sentido oposto.

“Para encontrar o caminho de volta, é necessário escutar o caminho de ida”

Conversar com curiosidade genuína, sem saber de antemão quem aquela pessoa é, como vive, o que pensa, sente e faz da vida. Quando vamos conversar com alguém, precisamos sentir no coração que não o conhecemos – mesmo que seja alguém muito íntimo.

O fato de nos surpreendermos com as pessoas é a prova cabal de que não as conhecemos. Por isso, o diálogo é o tapete vermelho da curiosidade pelo humano. No diálogo, não falamos somente de idéias. O verdadeiro encontro é o abraço na história de cada uma destas idéias. E quando digo história, falo de cenas da vida vivida. Pessoas não são categorias, não são conceitos. As ideias não correspondem aos fatos, já dizia o poeta que sempre estará vivo.

As pessoas são um filme, são histórias cheias de curvas, surpresas, viradas dramáticas e paradoxos que se mostram como encruzilhadas. As histórias humanas têm sentido, as emoções dormem na cama das histórias de vida. Para dissolver as mais desagradáveis emoções, aquelas que nos levam ao pior de nós, precisamos nos disponibilizar a escutar e conversar com a gênese dos nossos apocalipses internos.

“Neste momento histórico, somos crianças acuadas, iradas, que no final das contas precisam de colo para decantar o choro do desespero de não saber como lidar com a vida”

Quando a criança está assim, não precisa da solução, mas sim de alguém que lhe oferte a conexão, o encontro potente que faz com que ela não se sinta desamparada. O desamparo e a solidão são o deserto onde a desesperança fertiliza suas ervas daninhas. O encontro é o seu antônimo: ali, nos recuperamos de alguma energia interna que imaginávamos enterrada no passado distante. Através do diálogo interessado na história do outro, renascemos. Ambos se transformam, porque a imprevisibilidade passa a ser a grande mestra de cerimônias. Ali, na conversa íntima sobre a história da dor, quem fala agradece ao outro por simplesmente escutá-lo e fazer-lhe as perguntas que abrem novas portas e novos caminhos.

“Eu sei que não estou sozinho nesta decisão de conversar, conversar, conversar”

Esperançar, encontrar, olhar olhos nos olhos, abraçar do jeito que o outro quiser ou der conta de ser abraçado. Eu vou passar os próximos anos construindo diálogos com todo tipo de gente, com qualquer emoção que quiser se encontrar comigo. Estou disposto a escutar, ainda que venha falar comigo uma catarse violenta, e que depois esvazia o pote de ódio e dá espaço para algum oxigênio amoroso caber ali dentro. E, assumo, não será nada fácil. Vou precisar de muita ajuda. Vou precisar de colo, apoio, abraços, de gente que queira dançar comigo, que queira rir de pequenas bobagens e chorar de emoção com as corujices sobre os filhos.

Vou precisar de amor comigo, abastecendo o corpo que pode se esgotar de fazer o sonho do encontro voltar a acontecer. Eu sei que sou vulnerável e finito, mas há algo em mim que parece ter se convencido definitivamente da necessidade de conversar com as piores sombras da alma humana. Eu vou precisar também de gente que queira caminhar comigo, nesta sanha incansável de querer conversar para dissolver o desencanto. Eu sei, inclusive, que minha ideia não é nada genial, mas uma decisão simples e corriqueira.

“Um diálogo nunca é o início de nada, sempre há algo que existiu antes dele”

Não estou, portanto, sendo pioneiro em absoluto, só quero subir no carro do futuro sonhado e andar pelas estradas detonadas deste presente possível. Eu sou mais um. Mas sou único. Assim como a história e as histórias que me disponho a escutar.

Eu sou um diálogo que quer acontecer. Sente aqui, olhe nos meus olhos, sinta comigo a beleza de estarmos juntos. Quando vejo os seus olhos, eu sinto vontade de saber muito de você. O que você quer me contar?

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Resumo

"Somos hoje um país de cenhos franzidos, corações desistidos e palavras venenosas nos grupos de familiares e amigos de mensagens no celular". Confira a reflexão do nosso colunista Alexandre Coimbra Amaral neste momento pré-eleições!
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