FIV: técnica gerou mais de 7 milhões de bebês no mundo em 45 anos

Evolução da medicina reprodutiva segue sendo alternativa ao sonho da maternidade 45 anos após o nascimento do primeiro bebê de proveta

Célia Fernanda Lima Publicado em 17.07.2023
Mulher branca segura bebê branco no colo e o beija na testa
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Resumo

Com novas tecnologias menos invasivas, a fertilização in vitro é responsável pelo nascimento de mais de 7 milhões de bebês no mundo e dá esperanças para pacientes com infertilidade.

O ano era 1978 e nascia a primeira “bebê de proveta do mundo”, na Inglaterra. Seis anos mais tarde, Ana Paula Caldeira, gerada por fertilização in vitro (FIV), inaugurava a técnica bem-sucedida no Brasil e na América Latina. À época, era difícil imaginar o começo da vida humana em um laboratório antes de chegar ao ventre materno.

Questionamentos sobre o assunto acompanharam a infância de Caldeira. Em live transmitida com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRH), em 2021, ela recordou que sempre “queriam saber se me sentia diferente, se tinha todos os dedos das mãos e dos pés, e se eu ficava doente com frequência”.

Com a evolução da medicina, a técnica passou a ser uma aliada para o sonho da maternidade e paternidade para quem é infértil. Um a cada seis adultos enfrenta questões reprodutivas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). “A medicina reprodutiva avançou bastante e a própria FIV é muito mais assertiva daquela de anos atrás”, explica Raphael Haber, médico especialista em reprodução. Atualmente, a taxa de sucesso da fertilização varia entre 40% e 55%, dependendo da idade e condições gerais de saúde dos pacientes.

A fertilização in vitro (FIV) é uma das técnicas de reprodução assistida, em que o óvulo e o espermatozoide são fecundados em ambiente laboratorial, formando embriões que serão cultivados e transferidos para o útero materno. Todo o processo é acompanhado por uma equipe médica especializada.

 

Haber conta que o perfil das famílias que procuram o procedimento é diverso. “Há casais heteroafetivos, homoafetivos e futuras mães solos”. Mas, a predominância é de “casais com mulheres de mais de 35 anos e que já têm filhos de outros relacionamentos”. Casos semelhantes ao de Caldeira, cuja mãe já tinha cinco filhos do primeiro casamento.

Sei o quanto o meu nascimento é especial e importante para a medicina, para as mulheres que não podem ter filhos e para os casais que não podem construir uma família. Mas meus pais sempre trataram isso com muita naturalidade dentro de casa, nunca como uma diferença”, diz Caldeira.

No Brasil, Ana Paula Caldeira foi a primeira criança a nascer após a fertilização in vitro. Na época, as primeiras coletas eram feitas por cirurgias, que foram substituídas por ultrassom e outros procedimentos mais avançados.

Novas técnicas são aliadas do sonho da maternidade

“A primeira coleta para a FIV precisou acompanhar a ovulação direta da mulher e foi necessário fazer uma cirurgia. Hoje, fazemos tudo por ultrassonografia, que é muito menos agressiva”, explica a ginecologista e obstetra Hitomi Nakagawa, membro da diretoria da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA). Novas técnicas que auxiliam no procedimento da fertilização in vitro também incluem laser, investigação genética e exames de imagem sem precisar de cirurgias e anestesias. “Espero que até a inteligência artificial, por exemplo, possa melhorar as taxas de sucesso e tornar a reprodução assistida mais acessível.”

Após 45 anos, mais de 7 milhões de bebês no mundo nasceram a partir da FIV, segundo a Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE). No Brasil, mais de 45 mil fertilizações in vitro ocorreram em 2021, de acordo com o relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio).

A evolução da medicina reprodutiva e dos direitos civis possibilitou a indicação da FIV para duas principais vertentes, “a médica e a social”, explica Nakagawa. Segundo ela, as indicações médicas estão relacionadas à preservação de fertilidade em pacientes com alguma doença como câncer, lúpus, endometriose e HIV, por exemplo. Já a indicação social entra no contexto do “adiamento de gestação de mulheres que passaram a entrar cada vez mais no mercado de trabalho, além dos novos modelos de família com mães ou pais solos, e casais homoafetivos.”

Entenda mais sobre as técnicas que auxiliam o processo de fertilização:

Assisted hatching
Procedimento que utiliza um laser na película que envolve o embrião para facilitar sua implantação no útero materno.

• Fertilização por injeção intracitoplasmática de espermatozoide
Técnica sugerida para casos de infertilidade masculina em que apenas um espermatozoide é escolhido para ser injetado no interior do óvulo.

• Rastreamento genético de pré-implantacional
A partir de uma análise de células do embrião que formarão a placenta, é possível diagnosticar eventuais alterações do número de cromossomos e mutações genéticas.

Fonte: Dra. Hitomi Nakagawa, Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA)

FIV para diferentes realidades

Optar pela FIV requer planejamento familiar e financeiro, já que custa de 15 a 30 mil reais, em média, dependendo do local escolhido, da quantidade de medicamentos, consultas, exames e procedimentos que serão realizados.

Após duas perdas gestacionais e a retirada das trompas, aos 24 anos, Renata Wenceslau foi diagnosticada com infertilidade. A partir de então, iniciou o tratamento para continuar com o sonho de ser mãe. “Na primeira tentativa deu certo. Fertilizamos três embriões, fizemos a transferência de dois, mas só um implantou, que é a minha Catarina”. A menina completou 3 anos este ano.

Wenceslau conseguiu realizar todo o processo pré e pós-gestacional pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Quando perdi meus bebês, não tinha esperança de fazer um tratamento que custava caro”, conta. “Passamos por uma triagem e seguimos todas as orientações médicas. Fiz a medicação para estimulação ovariana e esperei dois meses para a transferência embrionária, além de diversos exames.”

Desde 2012, a partir da portaria 3.149, é possível realizar a FIV e inseminação artificial pelo SUS, com o diagnóstico de infertilidade. O paciente pode pedir o encaminhamento médico para o atendimento em hospitais de referência vinculados ao sistema, se o programa estiver disponível na cidade. Os pacientes passarão por uma triagem para então fazer as primeiras consultas.

Para a família, o nascimento de Catarina foi um sonho realizado, graças à reprodução assistida acessível e mais avançada. “Eu achava que não seria mais uma mãe de gestar. Sempre quis ter a sensação de uma gravidez. Hoje, minha filha é tudo pra mim, eu lutei muito para ter ela.”

Catarina, 3, nasceu por fertilização in vitro após duas perdas gestacionais da mãe, Renata Wenceslau, que realizou todo o procedimento pelo SUS. “Quando perdi meus bebês, não tinha esperança de fazer um tratamento que custava caro”.

Principais dúvidas sobre a fertilização in vitro (FIV): 

A técnica é completamente eficaz?
As condições variam conforme a situação e fatores como a qualidade dos óvulos ou dos espermatozoides utilizados.

É possível escolher o sexo do bebê?
O Código de Ética do Conselho Federal de Medicina proíbe a escolha prévia do sexo do bebê, exceto em casos de doenças genéticas ligadas ao gênero.

Crianças geradas por fertilização in vitro têm a saúde frágil?
Não. Bebês gerados por FIV se desenvolvem da mesma maneira que um bebê concebido naturalmente.

Qual a diferença entre inseminação artificial e fertilização in vitro?
Na fertilização in vitro, a fecundação é feita em laboratório, a partir da extração dos óvulos e coleta de espermatozoides. Após um período de cultivo, o embrião é transferido para o útero materno. Já na inseminação artificial, espermatozoides previamente preparados são inseridos no útero na época da ovulação, e a fertilização acontece dentro do sistema reprodutivo da mulher.

Quantos embriões cada paciente pode receber?
De acordo com o Código de Ética do Conselho Federal de Medicina, o número máximo de embriões depende da idade materna: dois embriões para mulheres até 37 anos; três para mulheres acima dessa faixa etária.

Fontes: Dra. Hitomi Nakagawa, Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA)

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