Produzir energia limpa, recuperar ecossistemas ou absorver carbono: de acordo com a Unesco, agência das Nações Unidas, a cultura oceânica pode trazer soluções para os principais desafios ambientais de hoje. É por isso que o Brasil está implementando o chamado “currículo azul” nas escolas, para ensinar às crianças a importância da relação humana com as águas.
Assim, a proposta é deixar evidente “como o oceano impacta nossa vida e como nossas ações impactam o oceano”. É o que diz Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar (Unifesp) e copresidente do grupo de especialistas em Cultura Oceânica da Unesco.
“Vivemos no planeta ‘Terra’, mas que deveria se chamar ‘Água’”, defende.
Isso porque, além de cobrir 70% do globo e ser fonte de alimentação para mais de um bilhão de pessoas, o oceano inspira diversas culturas e práticas de povos ao redor do mundo. Mesmo assim, “conhecemos mais da superfície da lua do que do fundo do mar”, diz.
Ronaldo explica que, desde que a ONU instituiu a “Década Internacional da Ciência para o Desenvolvimento Sustentável” (2021-2030), conhecida como “Década dos Oceanos”, os países adotaram ações para promover a cultura oceânica, incluindo o diálogo com as crianças. O Brasil foi o primeiro a assumir esse compromisso nacionalmente.
Lei pioneira do ‘currículo azul’
Ensinar uma criança que os desastres ambientais estão relacionados às temperaturas do ar e do oceano pode parecer uma ideia abstrata. Então, ao invés disso, escolas em Santos, no litoral de São Paulo, passaram a levar os alunos para coletas de lixo na praia, ao mercado de peixe ou ao emissário marinho, local que transporta esgoto tratado para o mar.
Embora algumas ações de sensibilização e valorização da cultura oceânica possam parecer “excursões escolares”, a técnica em Educação da Prefeitura de Santos, Valéria Vegas, explica que se trata de um “estudo do meio”. “As crianças precisam chegar ao local com conhecimento prévio e depois retornar o objeto de estudo em sala de aula”, diz. Para que a atividade seja produtiva e potente, a Secretaria Municipal de Educação passou a disponibilizar materiais inovadores para compartilhamento e livre acesso das escolas.
As iniciativas estão previstas na “Lei dos Oceanos”, como ficou conhecida a lei municipal “Oceano afora, oceano adentro, oceano imenso” (nº 3.935/2021), a primeira do mundo a incluir o currículo azul na rede municipal de ensino. O objetivo de torná-lo política pública, como explica Ronaldo Christofoletti, é que as escolas funcionem como semeadoras de aprendizado e consciência, reverberando para toda a sociedade. “A partir da experiência de Santos, com apoio da Marinha, o Brasil passou a ter outras 24 leis municipais e quatro estaduais nessa temática.”
Valéria, uma das responsáveis pela elaboração da lei em Santos, conta que a ideia é fugir de uma abordagem didática tradicional e estabelecer um “ensino por investigação”, trabalhando o oceano de forma interdisciplinar e transversal, seja por meio de arte e literatura ou relacionada a outras disciplinas curriculares.
Mas para que o “currículo azul” seja implementado dessa maneira nas escolas, “além das discussões com os tomadores de decisão, é preciso formar professores”, afirma Ronaldo. Buscando preencher essa lacuna, no início de julho, a Universidade Aberta do Brasil (UAB), anunciou um curso de pós-graduação em Cultura Oceânica e Sustentabilidade na Educação Básica. Sete instituições de ensino superior, nas cinco regiões do Brasil, ofertarão 1.210 vagas ao todo.
Multiplicando ‘escolas azuis’
“Mesmo mostrando o globo terrestre, a maior parte das crianças acreditava que existia mais prédios e casas no mundo do que mar”, diz a professora Tatiane Caetano. Autora do projeto “Nossa escola azul: um oceano de aprendizagens”, ela ganhou, em 2024, o prêmio Educador Santista, pelo trabalho realizado com o 1º ano do ensino fundamental, na UME João Papa Sobrinho. O objetivo é desenvolver “um sentimento de pertencimento” entre os alunos recém-matriculados, relata.
O que são “escolas azuis”?
O conceito de “escola azul” nasceu em Portugal para trabalhar o tema oceano de forma transversal no currículo escolar. No Brasil, o programa tem apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para engajar a comunidade escolar, desenvolver o pensamento crítico e criar laços afetivos para uma mudança de comportamento em relação à cultura oceânica. Podem participar do programa escolas públicas e privadas de todo o país, da educação infantil ao ensino médio, estando perto ou longe do mar.
A certificação via projeto de extensão Maré de Ciência, da Unifesp, exige que as escolas desenvolvam um projeto interdisciplinar com duração de um a dois anos, abordem a cultura oceânica integrada ao bioma local (mostrando como o território se conecta ao oceano), inclua diferentes faixas etárias e turmas, e proponha ações práticas e reflexivas com a comunidade escolar e local. Atualmente, o Brasil possui 388 “escolas azuis”, em 24 estados.
Em parceria com a ONG Surf Limpeza, Tatiane levou as crianças para coletar bitucas de cigarro, tampinhas de garrafa e canudos na faixa de areia da praia mais próxima à escola. “Depois de separar plástico duro e plástico mole, e do tratamento do lixo, fizemos a contagem, com pareamento, estimativa de quantidade e adição”, conta.
Por fim, os alunos realizaram uma oficina com plástico mole e resina, produzindo miniaturas de animais marinhos, como peixes, tartarugas e baleias. Para que pudessem compreender o tamanho real das baleias, por exemplo, compararam o tamanho das crianças e dos pavimentos da escola. Assim, por meio da conversão de medidas, os alunos passaram a imaginar o tamanho do “azul” que viam no mapa.
Engajamento da sociedade
Em muitos casos, o primeiro passo para aproximar a cultura oceânica das escolas é interagir com quem já trabalha com o tema. O projeto Aruanã, que atua com conservação de tartarugas no Rio de Janeiro, é um exemplo de organização que busca essa troca de conhecimento com as escolas de Niterói e da região.
“Nosso objetivo é trazer o mundo das tartarugas e da biologia marinha para a sala de aula, ouvir as perguntas das crianças, estimular sua curiosidade e o pensamento científico”, diz a bióloga e coordenadora de educação ambiental da organização, Thaís Amaral. Desde 2013, a ONG promove uma exposição itinerante de materiais biológicos de tartarugas nas escolas e leva as turmas para atividades ao ar livre, como acompanhar a soltura de animais monitorados pelo projeto.
Para ela, essa aproximação ajuda a sensibilizar as crianças sobre as ameaças da ação humana para a vida das tartarugas e de outras espécies. Além disso, “é muito gratificante observar o brilho no olho de uma criança que vê os filhotes conservados de perto, toca no casco de uma tartaruga e percebe que ela tem coluna e costelas como nós”.
E quem está longe do mar?
A “Olimpíada do Oceano”, inaugurada em 2021 pelo projeto Maré de Ciência, é um exemplo de que é possível se relacionar com a cultura oceânica mesmo não estando no litoral. “A importância do oceano na nossa vida independe do local onde a gente habita”, diz a coordenadora da iniciativa Jussara Lemos.
Jussara, que também é diretora-geral do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia (Neap), da Universidade Federal do Pará, explica que a Olimpíada é mais do que um projeto educativo. “É uma ação de popularização da ciência oceânica.”
Isso porque qualquer pessoa pode participar, inclusive quem não está matriculado em nenhuma instituição de ensino. Por isso, a prova passou de três mil participantes no ano inicial a quase 62 mil em 2024, tornando-se internacional. Dessa forma, a ação é capaz de estimular crianças, adolescentes e jovens que vivem em todos os ecossistemas.
Além disso, a proposta é que todas as iniciativas inscritas sejam valorizadas, desde desenhos de crianças da educação infantil a podcasts de ciências produzidos por especialistas. “Estamos incentivando uma forma de educação transdisciplinar voltada ao desenvolvimento sustentável”, afirma Jussara. Para Ronaldo Christofoletti, “o sonho é que todos sejam medalhistas de ouro quando o assunto é oceano”.
Como levar a cultura oceânica para as escolas?
- Saber quem pode ser o “embaixador” na escola: por exemplo, um professor, educador, inspetor ou mesmo um aluno deve se identificar com a temática e tomar a iniciativa para garantir a ampliação desse ensino.
- Observar o que é feito nas escolas: promover a cultura oceânica não exige necessariamente mais carga horária, mas enxergar as atividades que já existem sob uma “lente azul”, ou seja, buscando dialogar com a temática.
- Usar datas comemorativas: muitas ações escolares são programadas a partir de efemérides. Então, basta incluir as datas relacionadas à cultura oceânica nessa lista.
- Torne-se uma “escola azul”: é possível buscar a certificação do governo federal, unindo o currículo formal a ações junto à comunidade. Uma opção é se associar a espaços não formais de ensino da região ou de outros lugares do Brasil e do mundo que já disseminaram o “pensamento azul”.
- Permitir que estudantes sejam protagonistas: um ponto-chave é entender o que interessa às crianças, quais dúvidas têm e o que o mar representa para cada um. As crianças precisam estar envolvidas na construção das ações, se apropriar do tema e se comunicar entre elas, para se transformarem assim em agentes de mudança para além dos muros da escola.
Fonte: As dicas são do site de jornalismo ambiental (O) Eco e do programa Maré de Ciências.
A pesquisa “Oceano sem mistérios: a relação dos brasileiros com o mar”, publicada em 2025 pela Fundação Boticário, em parceria com a Unifesp, mostra que aproximadamente 40% da população no Brasil não reconhece que as ações humanas impactam o oceano. Apesar disso, 90% dos brasileiros entrevistados afirmam que a cultura oceânica deveria estar nas escolas e fazer parte dos currículos como política pública.