Como o garimpo ilegal ameaça a vida de crianças yanomami

Sob embates e ameaças de invasão de garimpeiros, famílias e crianças yanonami em Roraima ficam expostas à violência e sem acesso a serviços essenciais de saúde
Foto: Mídia Ninja/Expedição Yanomami Okrapomai
  • Publicado em: 27.05.2021
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As noites na comunidade de Palimiú, em Roraima, têm sido marcadas por medo e apreensão entre os yanomami. As invasões por garimpeiros armados registradas nas últimas semanas transformaram a rotina das famílias e especialmente das crianças, que vivem em meio a um conflito cada vez mais violento. A infância marcada pelo brincar livre em equilíbrio com a vida na floresta está em risco, apesar dos pedidos de socorro.

“O garimpo prejudica a vida da mãe terra. É uma ameaça à floresta, aos povos indígenas, às nossas crianças”, denuncia Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami. A fala de um dos mais importantes líderes yanomami revela a dimensão do dano causado pelo avanço do garimpo ilegal: a destruição da floresta atinge o modo de vida dos povos indígenas e afeta diretamente as crianças, que ficam mais vulnerabilizadas diante desse cenário.

A antropóloga Ana Maria Machado, membro da Rede Pró-Yanomami e Ye’kuana, aponta alguns dos efeitos desse avanço. “Há uma grande desestruturação social e geração de caos: com os invasores, as pessoas ficam menos dispostas a viver a vida de uma aldeia saudável. A presença dos garimpeiros na comunidade faz com que o cotidiano e a transmissão do conhecimento yanomami sejam impactados”, explica.

Esses impactos implicam diretamente na saúde das comunidades. “Como os próprios yanomami dizem, o garimpo é sempre acompanhado pela malária e uma série de outras doenças. Há também o aumento do aliciamento de menores para trabalhar com os garimpeiros, além da prostituição de crianças e adolescentes”, alerta a antropóloga.

Ao Lunetas, durante entrevista coletiva realizada no dia 19, Dário Yanomami falou sobre a situação das crianças de Palimiú, denunciando a violência, a crise sanitária e a falta de atendimento médico na região. “A situação continua tensa e as crianças estão correndo risco. Elas não conheciam barulho de metralhadora. No domingo (16), jogaram bombas de gás e começaram a enfraquecer porque respiraram muita fumaça.”

Por causa dos conflitos, o atendimento médico em Palimiú foi suspenso, deixando as crianças que já estavam doentes em situação mais vulnerável. “Estamos há nove dias sem assistência. As crianças estão com sintomas de malária, diarreia, gripe. No dia 10, quando elas dormiram no mato [fugindo de um ataque], choveu bastante e sinais de pneumonia apareceram. Elas estão correndo risco”, informou Dário.  

Em um dos ataques mais violentos deste mês, no dia 10, duas crianças se perderam na floresta. Elas foram encontradas mortas no rio dois dias depois. Segundo nota divulgada pela Hutukara, em meio às invasões de garimpeiros e ao desespero, algumas crianças ficaram sozinhas, próximo ao rio Uraricoera. “No dia 11, os adultos saíram à sua procura. Muitas foram encontradas, mas dois meninos continuaram desaparecidos. No dia 12, acharam os corpos dos meninos na água, já sem vida. As crianças estavam afogadas. Uma criança tinha um e a outra cinco anos.”

O presidente do Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’Kuana, Júnior Yanomami, confirma a crise no atendimento de saúde na região. Segundo ele, 40% dos profissionais estão afastados por doenças. Há postos fechados e faltam medicamentos. “Já encaminhei vários documentos ao Ministério da Saúde, mas não conseguimos resposta”, conta. A Unidade Básica de Palimiú é responsável pelo atendimento de 1.200 pessoas naquela região. Com o posto fechado, Júnior precisa se deslocar com a equipe de saúde em dias alternados, e ainda sem apoio policial. “Os profissionais fizeram atendimentos e exames nas pessoas com suspeita de malária. Lá é uma área endêmica. Há crianças doentes e ainda tem gente escondida na floresta, porque todas as noites os garimpeiros intimidam a comunidade, e estas pessoas não conseguem chegar até nós”, relata.

Arquivo pessoal

Júnior Yanomami em Palimiú entre os indígenas moradores da comunidade

Malária e desnutrição entre as crianças yanomami

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denunciou um surto de malária nas comunidades de Roraima. A petição enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) para a retirada de invasores em Terras Indígenas aponta mais de 19 mil casos notificados em 2020; até meados de maio deste ano, mais de 5 mil foram registrados. A organização mencionou que o surto está diretamente ligado ao aumento da atividade de garimpo em territórios yanomami. “Nós temos medo, pois sabemos que o garimpo mata as nossas lideranças, contamina as nossas águas, altera os modos de vida nas nossas terras. Somos perseguidos e ameaçados”, declarou Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Apib.

A malária causa várias complicações, sobretudo nas crianças. No dia 10 de maio, a imagem de uma menina yanomami da aldeia de Maimasi, desnutrida e muito debilitada, publicada pela Folha de S. Paulo, ganhou repercussão nacional. Ela estava com malária, verminose e anemia. Com oito anos, pesava apenas 12 quilos. 

A foto denuncia a realidade apontada por uma recente pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O estudo, desenvolvido em comunidades yanomami de Roraima e Amazonas, constatou que 80% das crianças abaixo dos cinco anos apresentam desnutrição crônica, 48% têm sinais de desnutrição aguda e 67% de anemia. 

“Hoje, os yanomami enfrentam uma situação sanitária desesperadora, que inclui pandemias sobrepostas de covid-19 e de malária, contaminação endêmica por mercúrio oriunda do garimpo, e quadros nutricionais associados à insegurança alimentar, com alta prevalência de anemia e desnutrição infantil”, cita documento da Apib. Outra denúncia é a morte de quatro bebês, em agosto do ano passado, vítimas de covid. Na semana passada, uma criança yanomami da comunidade de Yaritha, na Venezuela, faleceu por complicações de desnutrição, no polo base da fronteira com o Brasil. 

O cenário enfrentado pelas crianças requer medidas emergenciais. O direito à infância tem sido negligenciado, com o acirramento de problemas antigos, como lembra Ana Maria Machado. “Nos anos 1980, a comunidade Papiú, por exemplo, teve o quadro demográfico alterado. Não houve crianças nascidas entre 1987 e 1989. Esse achatamento na curva de natalidade aconteceu porque as crianças nasciam e morriam ou nem nasciam, de tão precária a situação sanitária e de desnutrição”, diz a antropóloga. 

A Apib também alerta para a iminência de um massacre. “A situação lembra a tragédia que assolou os yanomami na corrida do ouro dos anos 1980, quando, em regiões com intensa presença de garimpo, comunidades inteiras desapareceram ou tiveram sua estrutura demográfica comprometida”, diz o relatório da entidade.

A realidade da exploração da floresta atinge a preservação da vida e da história dos yanomami. As crianças são injustamente as mais afetadas e convivem com o medo daquilo que já viveram seus antepassados. Ainda na quarta-feira (19), no décimo dia seguido de invasão, por volta das dez horas da noite, doze barcos com garimpeiros tentaram avançar em Palimiú. Enquanto elas deveriam dormir, precisaram, mais uma vez, despertar para fugir dos mesmos ataques que as ameaçam há muitas gerações.

O brincar yanomami em tempos de paz

Caçar passarinhos e calangos, coletar frutas, ajudar a fazer a comida. As crianças yanomami têm uma rotina de brincadeiras que refletem o agir dos adultos. Elas reproduzem, com seus brinquedos, as atividades do grupo: a caçada com arco e flecha, a preparação do alimento e o contato direto com animais e plantas. O assunto preferido é falar sobre os passarinhos. Elas ouvem os mais velhos e brincam imitando os cantos e danças. Quando uma comunidade é invadida, toda a rotina é afetada.
Fonte: Portal Mirim – Instituto Socioambiental

O garimpo ilegal e as Terras Yanomami

Um dos povos originários mais antigos da América do Sul, os Yanomami vivem em Terras Indígenas do Norte do Brasil e no Sul da Venezuela. Atualmente, são 372 comunidades nos estados de Roraima e do Amazonas, somando uma população de 29 mil pessoas habitando a maior reserva indígena do país, com 9,6 milhões de hectares.

Há mais de 30 anos, os Yanomami sofrem ataques em função da exploração ilegal de ouro em seu território, demarcado em 1992. De acordo com o último levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), cerca de 20 mil garimpeiros circulam em territórios yanomami. Com o avanço de 30% dessa atividade, foram 500 hectares devastados de janeiro a dezembro de 2020. 

Esse aumento é um reflexo diretamente ligado à iminência da aprovação de dois projetos de lei que propõem mudanças na legislação sobre a ocupação de terras da União. Criticados por ambientalistas como os “PLs da Grilagem”, os projetos 510/2021 e 2.633/2020 abrem brechas para que terras públicas, já griladas, se tornem propriedade dos exploradores. 

O que dizem os representantes do Governo Federal

O Ministério da Saúde informou, em nota, que a menina de Maimasi continua internada no Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista (RR). Ela apresenta quadro de saúde estável e ganhou 4 quilos. O tratamento para malária já foi concluído e a paciente segue em acompanhamento com a equipe multidisciplinar de Saúde Indígena. Em relação à falta de medicamentos, o ministério informou em nota que há quantitativo suficiente de medicação para as demandas.

Em resposta à petição da Apib, o ministro do STF Luís Roberto Barroso ordenou ao Governo Federal a retirada dos invasores nas terras dos Yanomami (RR) e Munduruku (PA). A decisão do ministro prevê que o governo apresente um planejamento para expulsar e impedir o retorno dos garimpeiros. O plano deve ser entregue em 30 dias. 

O presidente Jair Bolsonaro não se pronunciou até o momento sobre a situação em Palimiú. Em live promovida em seu canal do YouTube do dia 26 de abril, ele voltou a defender a legalização do garimpo.

Resumo

A vida das crianças yanomami são ameaçadas pelo garimpo ilegal nos territórios indígenas de Roraima. Os impactos causados pela exploração da floresta afetam diretamente a saúde e o modo de vida das comunidades.
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