A maioria não busca enriquecimento — busca reconhecimento e uma saída para a angústia de uma geração que cresceu num mundo digital onde tudo tem preço
As apostas online têm atraído cada vez mais adolescentes brasileiros. Mais de 10% já apostam dinheiro, e mais da metade apresenta sinais de comportamento de risco. A reportagem explica os impactos desse hábito e como as famílias podem agir.
Toda segunda-feira, Matheus, 16 anos, recebia dos pais um dinheiro para o lanche da escola e para comer depois dos treinos de judô. Em casa, seu principal passatempo era videogame no quarto, horas de jogo online com fone de ouvido, conversando com um grupo de amigos. Como sempre tirou boas notas e também tinha uma vida social ativa, a família achava normal. Coisa de adolescente.
Mas Matheus foi se interessando cada vez mais por clipes que mostravam cantores exibindo carros, motos e maços de dinheiro — e atribuindo tudo aquilo a ganhos em plataformas de aposta. Em março do ano passado, Simone, 42 anos, ouviu por acaso uma chamada de grupo no celular do filho: os amigos comemoravam uma “rodada boa” e pediam que ele apostasse mais. Naquela mesma noite, ela descobriu que Matheus estava transferindo para uma plataforma de apostas o dinheiro que recebia para alimentação.
No dia seguinte, os dois conversaram. Matheus teve uma crise de choro, abraçou a mãe e confessou que estava tentando parar havia dois meses e não conseguia. Pediu muito para não ser proibido de falar com os amigos do videogame, que esses eram seus melhores amigos. “Descobri que dois daqueles meninos estudavam na mesma escola dele. Fui direto à coordenação para alertar que os meninos estavam apostando dentro da escola“, conta Simone.
Depois, orientada pela escola, a mãe procurou um Centro de Atenção Psicossocial — Álcool e Drogas (CAPS AD) perto de casa. Convencer Matheus a entrar foi um processo longo. A batalha começou em março do ano passado e segue até hoje. É um dia de cada vez.
Bets são plataformas de apostas esportivas online — casas como Bet365, Betano e Esportes da Sorte — regulamentadas no Brasil desde dezembro de 2023 pela Lei 14.790. Funcionam por apostas de cota fixa: o usuário prevê um resultado e a plataforma define previamente quanto paga em caso de acerto. Jogos como o Aviator e o Fortune Tiger (o “Tigrinho”) são caça-níqueis virtuais, tecnicamente ilegais no Brasil como jogos de azar puro, mas que circulam integrados a diversas plataformas de apostas. Ambos são proibidos para menores de 18 anos. Mas esse bloqueio é frequentemente burlado por meio de CPFs de familiares ou verificações de idade insuficientes.
A história de Simone e Matheus se repete em muitas casas do Brasil. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) ouviu mais de 16 mil pessoas e identificou que 10,5% dos adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos apostaram em dinheiro no último ano. Entre meninos de 16 e 17 anos, esse percentual chega a 20%. A pesquisa, realizada pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), estima que cerca de 1 milhão de menores estejam envolvidos em plataformas digitais de apostas.
O dado que mais chama a atenção dos pesquisadores, porém, não é a prevalência, mas o perfil de risco. 55,2% dos adolescentes que apostaram já apresentam sinais de jogo de risco ou jogo problemático, proporção significativamente maior do que a encontrada entre adultos apostadores (38,8%). Um estudo recente da UNIFESP, liderado pela pesquisadora Clarice Sandi Madruga, descobriu que adolescentes têm mais do que o dobro das chances de desenvolver jogo problemático em relação a adultos. Mas, ao comparar quem usava bets com quem apostava em outros formatos, esse risco maior da adolescência praticamente desapareceu.
“O produto em si é tão aditivo que anula as diferenças de idade”, resume Clarice Sandi Madruga, pesquisadora da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) e da UNIFESP, especialista em dependências. “Quem aposta em plataformas digitais tem quase quatro vezes mais chance de desenvolver padrão problemático do que quem aposta em outras modalidades — independentemente de ser homem ou mulher, de maior ou menor renda, do Norte ou do Sul do país.”
Para entender por que as bets chegam com tanta força à vida de jovens como Matheus, é preciso olhar para além do produto e observar o que ele representa dentro do mundo simbólico adolescente. A aposta não chega como um produto financeiro de risco. Ela chega como linguagem de pertencimento.
Matheus não foi atrás das apostas. Ele foi atraído por conteúdos de ostentação no feed, amigos do grupo de videogame compartilhando estratégias de “gráfico”, figuras admiradas exibindo ganhos. Cada um desses pontos de contato reforça a mesma mensagem: dinheiro rápido é possível, é valorizado, é o que os que estão “na frente” fazem.
“O adolescente não compreende o jogo como uma perda estatística programada”, explica a psicóloga clínica Cláudia Menezes, especialista em desenvolvimento de adolescentes. “Como a interface imita os videogames que ele domina, ele projeta ali uma lógica de mérito: acredita que, se estudar o gráfico ou entender o padrão do algoritmo, vai desenvolver uma habilidade técnica capaz de vencer o sistema.”
“O conceito de ganhar dinheiro deixa de estar associado ao esforço produtivo e passa a ser visto como resultado de uma estratégia pessoal. Isso transforma o ato de apostar em uma espécie de profissão informal na mente do jovem.”
O que está por trás dessa lógica, segundo ela, é algo mais amplo do que a aposta em si: a busca por um lugar reconhecível num ambiente social em que o dinheiro funciona como marcador de status. “A plataforma de apostas promete um atalho para esse reconhecimento. Para o adolescente que ainda não tem renda própria nem autonomia, essa promessa tem peso real.”
De acordo com os dados do LENAD III, os adolescentes que mais apostam são, proporcionalmente, os de menor renda familiar. Para quem as vias convencionais de ascensão parecem mais distantes, a aposta funciona como uma resposta disponível e imediata a uma angústia de longo prazo.
As plataformas de redes sociais funcionam por sistemas de recomendação que priorizam conteúdos com maior taxa de engajamento — curtidas, compartilhamentos, tempo de visualização. Vídeos de ganhos em apostas geram reação emocional intensa e por isso tendem a ser amplificados. Um adolescente que interage uma vez com esse conteúdo recebe mais conteúdo similar, criando um ciclo que normaliza as apostas como prática cotidiana. Além disso, as próprias plataformas de bets usam notificações personalizadas, bônus de reativação e missões diárias — ferramentas de gamificação projetadas para aumentar a frequência de acesso e o tempo dentro do aplicativo.
Clarice Sandi Madruga usa uma imagem direta para explicar. Imagine dois sistemas operando ao mesmo tempo — um acelerador e um freio. O acelerador, ligado à busca de prazer imediato, está completamente formado desde o início da adolescência. Já o freio, responsável por avaliar consequências e controlar impulsos, só termina de se desenvolver por volta dos 25 anos.
As plataformas de bets exploram esse descompasso por meio do que a ciência do comportamento chama de reforço intermitente de razão variável, quando a recompensa não vem sempre, mas pode vir a qualquer momento. Ou seja, cada resultado que “quase foi” — quando o multiplicador quase chegou ao valor apostado — ativa o cérebro como se fosse uma vitória real. Some-se a isso a disponibilidade das plataformas 24 horas por dia, apostas ao vivo com ciclos de segundos e pagamentos instantâneos. Tudo isso é projetado para manter o ciclo ativo.
“A descarga de dopamina não acontece quando o jovem ganha, mas durante a expectativa do resultado — no momento exato em que o multiplicador sobe na tela. Esse pico de excitação gera habituação rápida, exigindo apostas cada vez maiores para produzir o mesmo efeito. Assim, quando chegam as perdas, o circuito muda para ansiedade, e o jovem entra no comportamento de tentar recuperar o que perdeu para aliviar o desconforto”, explica Cláudia Menezes.
Veja a seguir como começa o ciclo de comportamento compulsivo em apostas, segundo os especialistas ouvidos pelo Lunetas.
Passo 1) Exposição: o adolescente entra em contato com apostas pelo grupo social, pelas redes sociais ou pela publicidade. A primeira aposta frequentemente é incentivada por bônus de boas-vindas;
Passo 2) Antecipação: o cérebro libera dopamina durante a espera pelo resultado. O prazer está na expectativa, não necessariamente no ganho;
Passo 3) Reforço intermitente: pequenos ganhos intercalados com perdas mantêm o sistema em estado de alerta. O “quase ganhou” funciona como uma vitória real no circuito cerebral;
Passo 4) Tolerância: o jovem passa a precisar de apostas maiores e mais frequentes para sentir o mesmo nível de excitação;
Passo 5) Perda de controle: tenta parar e não consegue. As perdas geram ansiedade e o impulso de recuperar o que saiu alimenta novas apostas. O comportamento começa a ser ocultado da família;
Passo 6) Consequências: O dinheiro destinado a outros fins desaparece. O isolamento aumenta. O estigma em torno de buscar ajuda dificulta que o jovem peça socorro.
Cláudia Menezes chama atenção ainda para o papel do estigma na dificuldade do tratamento. “Quando o colapso financeiro acontece, o jovem experimenta uma vergonha intensa, porque percebe que quebrou a confiança da família. Essa humilhação íntima impede que peça socorro e explica a resistência a aceitar acompanhamento de saúde mental“, diz.
Foi exatamente o que Simone viu em casa. Matheus resistiu por meses a ir ao CAPS AD, dizia que era “lugar de maluco”, que os amigos iriam rir dele. Convencê-lo foi um processo gradual, que envolveu escuta, negociação e persistência.
Do ponto de vista clínico, essa resistência não é simplesmente teimosia adolescente — é um dos sintomas da exposição às apostas. O estigma em torno de comportamentos compulsivos ligados a dinheiro opera como uma barreira concreta de acesso ao cuidado. Nomear isso dentro de casa, sem julgamento, costuma ser o primeiro passo para que o jovem consiga aceitar ajuda.
A publicidade das plataformas contribui para criar esse ambiente. Por isso, antes de qualquer aposta ser feita, a promessa repetida de ganho rápido, veiculada por figuras que o jovem admira — atletas, streamers, influenciadores —, já ativa circuitos de antecipação no cérebro adolescente. A ciência do comportamento chama esse processo de modelagem social: quando o comportamento de uma figura admirada é apresentado como lucrativo e sem consequências visíveis, o sistema de recompensa começa a antecipar os mesmos resultados.
Do ponto de vista jurídico, o marco regulatório ganha muito com o ECA Digital, como elucida Maraísa Cezarino, sócia do escritório DANIEL e mestra em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo ela, o ECA Digital — Lei nº 15.211/2025 e seu decreto regulamentador — enquadra as apostas online como atividade inadequada e serviço proibido para menores de 18 anos. “Trata-se de uma harmonização necessária entre o ambiente digital e as restrições que já existiam no mercado físico”, explica a advogada.
Porém, o problema prático, como o caso de Matheus demonstra, é a facilidade de burlar essas barreiras. “O preenchimento isolado de um número de CPF já não é considerado uma medida suficiente de verificação para serviços de maior risco”, afirma Maraísa Cezarino. A ANPD adota uma abordagem baseada em risco: quanto maior o potencial de dano ao público jovem, maiores as exigências técnicas. Dessa forma, para plataformas de apostas, isso significa sistemas de verificação de identidade mais robustos, que vão além do cadastro tradicional.
Na publicidade, a lei também aponta responsabilidades. “A proibição do perfilamento comportamental de crianças e adolescentes para fins publicitários é um dos pilares do ECA Digital. As grandes empresas de tecnologia podem ser corresponsabilizadas junto aos anunciantes caso as ferramentas automatizadas de direcionamento de anúncios falhem em filtrar o público menor de 18 anos para essa categoria de produto”, afirma.
Antes de confrontar, observe. Dinheiro destinado a lanche ou transporte desaparecendo sem explicação, mudanças de humor intensas ligadas ao uso do celular, isolamento progressivo e histórias contraditórias sobre onde o dinheiro foi são sinais que merecem atenção. Além disso, a tabela de sinais de risco mais acima nesta reportagem traz um comparativo útil entre comportamentos comuns da adolescência e indicadores de alerta.
Especialistas recomendam escolher um momento calmo, fora de um episódio de perda ou conflito recente. Comece pela curiosidade, não pela acusação: “Vi você usando esse aplicativo — pode me contar o que é?” O objetivo inicial não é encerrar o comportamento, mas abrir o canal de comunicação. A negociação construída com consistência dentro de casa tende a ser mais efetiva do que a proibição unilateral. Adolescentes que sentem espaço para falar costumam resistir menos ao cuidado.
O primeiro passo é a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de casa, que faz a triagem e encaminha para o serviço adequado. O Centro de Atenção Psicossocial — Álcool e Drogas (CAPS AD) atende transtornos por uso de substâncias e dependências comportamentais, incluindo jogo compulsivo, de forma gratuita. O CAPS Infantojuvenil (CAPSij) é o serviço específico para crianças e adolescentes em sofrimento psíquico. Para localizar o CAPS mais próximo, acesse o site do Ministério da Saúde ou ligue para o Disque Saúde (136), disponível 24 horas, gratuitamente, em todo o Brasil.
O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo 188 e pelo chat em cvv.org.br. Jogadores Anônimos têm grupos presenciais e online em todo o Brasil — o site jogadoresanonimos.org.br lista os encontros por estado. Famílias de Jogadores Anônimos (JOGAM) oferecem grupos de apoio específicos para familiares de pessoas com transtorno do jogo.
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda mantém um sistema de autoexclusão. O responsável legal por um menor pode registrar o CPF do adolescente para bloqueio nas plataformas regulamentadas acessando gov.br e buscando pelo serviço de autoexclusão de apostas. O bloqueio se aplica às plataformas licenciadas no Brasil, mas não garante o bloqueio em sites não regulamentados que operam no exterior.
Casos em que plataformas permitem o acesso de menores de forma sistemática podem ser denunciados ao Procon do estado, à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) pelo site consumidor.gov.br e à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) em anpd.gov.br. Quando houver suspeita de uso de CPF de terceiros por menores, a família pode registrar boletim de ocorrência. Escolas que identificarem apostas em grupo entre estudantes devem notificar o Conselho Tutelar local.
Disque Saúde: 136 (24h, gratuito, todo o Brasil)
CVV: 188 ou cvv.org.br (24h, crise emocional)
CAPS AD: encaminhamento pela UBS mais próxima
CAPSij: para adolescentes — encaminhamento pela UBS
Jogadores Anônimos: jogadoresanonimos.org.br
*Os nomes de Simone e Matheus foram alterados para preservar as identidades dos entrevistados.
Leia mais
Comunicar erro