A escola precisa deixar de ver a diferença como um problema

Como a tecnologia pode ser uma aliada na construção de uma escola para todos? Confira o bate-papo com Rita Bersch e Odara Dèlé
Tecnologia e educação: Uma menina negra, vestindo camisa jeans está sorrindo e acenando em língua de sinais (Libras), enquanto uma pessoa adulta (de costas, desfocada) aparece à sua frente fazendo o mesmo sinal iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 27.07.2020
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Para discutirmos tecnologia e educação na infância é preciso, antes de tudo, reconhecer que somos diferentes e temos necessidades e caminhos diversos de aprendizagem, compreensão, participação e expressão no mundo. 

Por esta razão, o Instituto Alana convidou duas profissionais que trabalham para que escolas e sociedade assumam a perspectiva da educação integral, eliminem barreiras e criem apoios para que todas as crianças possam ter um desenvolvimento pleno na vida e na sociedade.

Uma delas é a Rita Bersch, fisioterapeuta especialista em tecnologia assistiva, e a outra é Odara Dèlé, educadora e empreendedora social da empresa Alfabantu. As duas protagonizaram mais uma edição da série “Ser criança no mundo digital”, discutindo como tecnologia pode ser uma oportunidade de educação para todos, com mediação de Raquel Franzim, coordenadora de educação no Instituto Alana. “O que a gente quer hoje é debater uma escola que compreende e que busca romper mecanismos de exclusão e de fracasso escolar, historicamente presentes no processo de escolarização de crianças e adolescentes negros, moradores de comunidades periféricas e do campo, e estudantes com deficiência”, iniciou Raquel.

Para debater a normatividade escolar que privilegia e mantém uma escola para pouquíssimas crianças, Rita e Odara compartilharam suas experiências e pensamentos para construir uma escola para todos. Odara, que é autora do livro infantil bilíngue “Lukenya e Seu Poder Poderoso”, trouxe o convite para pensarmos a partir de uma perspectiva afrocentrada, ou seja, sentindo o mundo a partir de uma experiência africana.  

“A infância dentro de uma perspectiva africana é diferente do que é pensado no mundo ocidental. A infância é um milagre, é a possibilidade das crianças participarem efetivamente da vida em coletivo, mesmo estando no ventre das suas mães”, explica. 

“Para as crianças negras, esse processo de ser visto como o corpo que não pensa, o corpo que não tem valor é muito maior”

No cenário brasileiro em que aos corpos negros não é garantido o direito à vida, em que crianças negras morrem assassinadas diariamente, Odara reflete sobre como, para as crianças negras, é negada a possibilidade de projeção, imaginação e sonhos.

Ao transpor este pensamento para a educação formal o cenário se intensifica, pois reproduz as disparidades e as crianças seguem vivendo violências que as impedem de discutir e pensar possibilidades de projeção a longo prazo na sua carreira acadêmica. 

“Para romper com essa lógica de desumanização e violência, surgiu a Lei 10.639/2003 [que estabelece a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afro-brasileira” nas disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio] para pensarmos uma educação igualitária e trazer um novo olhar para a ciência e a tecnologia, viabilizando o acesso à informação, que durante anos foi negado”.

Rita Bersch trouxe para o bate-papo o conceito de desenho universal para aprendizagem, que consiste em um conjunto de possibilidades – materiais flexíveis, técnicas e estratégias – que busca ampliar a aprendizagem de alunos com ou sem deficiência. “Muitos professores tentam ensinar a turma mirando um aluno médio. Essa média é mítica e representa uma construção do que nós enquadramos como normal”.

Para Rita, ao tentar buscar um diagnóstico para tratar o estudante e corrigir possíveis falhas de aprendizado, a mensagem transmitida a ele é: “a sua diferença é o problema a ser corrigido”. Na abordagem de desenho universal, o estudante pode acessar seu aprendizado de diferentes modos. 

“Eu posso transmitir o que eu sei e o que eu não sei, escrevendo, falando, desenhando, mostrando um vídeo ou um filme. A proposta é tornar o aluno especialista em aprendizado e, para isso, é preciso olhar seu modo de aprender e verificar quais são seus pontos fortes nesta conquista”. Ela explica que a escola que vê a diferença como um problema e defende “a atenção individualizada para trazer este aluno à média não é uma escola inclusiva”.

“A escola inclusiva deixa de ver a diferença como um problema e compreende a diferença como a norma”

Rita advoga no sentido de direcionar o olhar para o contexto. “Este contexto  gera desmotivação e perda de sentido de estar na escola”. É quando as crianças não conseguem acessar as informações importantes para seu aprendizado e não vivenciam formas desafiadoras e positivas na experiência de aprender.

O papel da tecnologia na construção de uma escola para todos

Nesta entrevista para o Portal Lunetas em junho, Rita define a tecnologia assistiva como “a criatividade para a resolução de problemas funcionais de participação e execução de tarefas”. Portanto, a  tecnologia assistiva é um recurso que busca alcançar a igualdade de oportunidades. Ela nos convida a pensar na tecnologia como aplicação para resolução de problemas, diferente do senso comum que associa tecnologia com dispositivos high-tech, com as última novidades na comunicação. 

“Na tecnologia assistiva, para as atividades no dia a dia, podemos pensar na aplicação de estratégias que não levam nenhum recurso como, por exemplo, piscar para dizer sim. A tecnologia na escola vem para ampliar formas de apresentação de um mesmo conteúdo. Por isso, ela também pode servir para todos. Aquilo que agrega para uns pode ser indispensável para outros. Quando é indispensável torna-se tecnologia assistiva”, determina.

A educadora Odara, da mesma forma, associa inovação à resolução de problemas. “Inovação, na verdade, são coisas que funcionam. Se você tem uma e consegue solucioná-la, sua solução é inovadora”, pontuou. Foi por isso que Odara, que é professora da rede estadual de São Paulo, idealizou o aplicativo Alfabantu, que tem como proposta auxiliar na alfabetização de crianças por meio de jogos digitais e da contação de histórias sobre os povos africanos Bantu. 

“A tecnologia hoje tem um papel importante de disseminar as vozes que muita vezes foram marginalizadas”

Ser criança no mundo digital

Como as crianças se relacionam com o mundo digital? Qual o papel das famílias, escolas, empresas de tecnologia e do governo nessa interação? Para discutir esses desafios, o Instituto Alana – com o apoio do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), da SaferNet e do Portal Lunetas – está realizando uma série de conversas on-line, com especialistas das áreas da educação, psicologia, tecnologia e direito. Confira as próximas datas e inscreva-se aqui.

Saiba mais sobre as conversas anteriores:

Resumo

É preciso que escolas e sociedade assumam a perspectiva da educação integral, eliminem barreiras e criem caminhos para que todas as crianças possam ter um desenvolvimento pleno. Saiba mais em debate promovido pelo Instituto Alana com Rita Bersch e Odara Dèlé.
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