Ao longo de 20 anos de experiência em unidades de educação infantil, educadora observou que crianças negras recebem menos colo do que as brancas
Bebês negros recebem menos colo e afeto nas unidades de educação infantil. É o que observa a educadora com 20 anos de experiência, autora do livro “Democratização do colo”. O racismo na primeira infância impacta saúde física e saúde socioemocional ao longo da vida.
Bebês negros podem vivenciar o racismo antes mesmo de começar a falar. Ao longo das duas décadas em que trabalhou em unidades de educação infantil, a educadora Jussara Santos conta ter observado que crianças negras recebiam menos colo e atenção do que as brancas. O colo, na visão de Jussara, vai além do ato físico de carregar uma criança nos braços: ele inclui olhar para a criança e escutá-la atentamente, representando, também, segurança emocional.

Quando o colo é negado por vieses racistas (mesmo que inconscientes), a criança tem sua identidade estruturada a partir do sentimento de desamparo. “São crianças que podem se tornar adultos mais inseguros, que demoram mais para andar e têm mais dificuldade de tomar decisões de forma autônoma por conta dessa ausência de colo que não é exclusivamente o ato de pegar nos braços.”
Jussara reforça que é preciso considerar a realidade das condições do trabalho das professoras da infância, quase sempre sobrecarregadas. “Mas é verdade que as fatalidades advindas de todas as condições objetivas recaem, geralmente, em corpos negros”, complementa.
Na primeira infância, o racismo impacta tanto a saúde física quanto a socioemocional, a autopercepção e a socialização, comprometendo o desenvolvimento integral da criança.
A educadora conta que ela própria sofreu racismo por parte de suas colegas, enquanto trabalhava no ambiente escolar. “Me colocavam apelidos, riam de mim. Quando eu via os bebês sofrendo racismo, muitas vezes eu fui omissa, não conseguia defendê-los, porque eu não queria me expor em uma situação em que eu também era vítima.”
Se no início de sua carreira a própria vulnerabilidade a impedia de reagir ao racismo, o acúmulo de experiência a transformou em uma defensora ativa dos direitos dos bebês e das crianças pequenas. A materialização dessa jornada é o livro “Democratização do colo”, lançado em 2025 pela editora Papirus. O título foi selecionado pelo PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático), do governo federal, para ser disponibilizado às escolas públicas. Jussara define a obra como o livro que “gostaria de ter entregue às suas colegas de trabalho” ao longo de sua vida profissional.

A urgência dessa discussão, porém, ultrapassa a experiência individual de Jussara e encontra respaldo em dados sobre o cotidiano de crianças negras no país. Segundo a pesquisa “Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo”, realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e pelo DataFolha, em 2025, 16% dos cuidadores relataram que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram discriminação, sendo creches e pré-escolas como os ambientes mais citados (54%).
O racismo constrói imaginários perversos de que os corpos negros são mais resistentes, aguentam mais dor ou não merecem credibilidade, como define a educadora e escritora Odailta Alves, que trabalha com formação antirracista na Secretaria de Educação de Pernambuco.

Ela diz que essa lógica desumanizadora começa no ventre — estudos apontam que mulheres negras têm maior risco de não ter um pré-natal adequado e menor probabilidade de receber anestesia local quando submetidas à episiotomia durante o parto — e se estende aos bebês, vistos erroneamente como capazes de suportar a negligência por “sobreviverem a qualquer coisa”.
“Quando uma criança negra chora ela vai ser rotulada como mimada ou ‘fazendo birra’, enquanto a criança branca ganha todo carinho, cuidado e afeto”, diz Odailta. “Crianças negras vão ser vistas como mais maduras e autônomas também a partir dessa ótica racista, que vai ser construída dentro dessa perspectiva do processo de escravidão que desumanizou os corpos negros, colocando-os como não sensíveis”, completa.
As mudanças passam por reconhecer as práticas racistas. Jussara conta que durante toda a sua carreira na educação – ela atuou como professora, coordenadora pedagógica e na produção de políticas públicas – presenciou pessoas sendo racistas, embora não admitissem.
Por isso, as escolas ocupam um papel central e decisivo nesse contexto. Elas podem perpetuar a negligência e a violência racial ou atuar como agentes fundamentais de humanização e acolhimento das infâncias.
A Lei nº 10.639/03, que obriga as escolas a incluírem história e cultura afro-brasileira nos currículos, completou 23 anos. As diretrizes que regulamentam sua implementação atribuem às redes de ensino a responsabilidade de promover a formação de professores nesta temática.
É preciso garantir que os governos cumpram a lei e apoiem os docentes em sua formação, até por uma “questão de humanidade”, como diz Odailta, mas é preciso lembrar algo que vai além: o compromisso ético individual. “Eu quero ser aquele profissional que acolhe, que respeita, que é comprometido com a diversidade étnico-racial dentro da minha sala de aula? Ou apenas estou a serviço apenas de um sistema que vai muitas vezes se colocando como opressor? Precisamos nos posicionar e fazer uma autocrítica”, aponta a educadora.
Outra necessidade é a de desconstruir a ideia de que a primeira infância estaria imune ou preservada do preconceito. “Os bebês e as crianças reproduzem racismo, por isso penso que um caminho para a mudança é a paridade de presença nos espaços, com turmas constituídas por crianças negras, presença de profissionais não só no serviço de limpeza, mas também nos espaços de tomada de decisão”, finaliza Jussara.