“Um conto sombrio dos Grimm” e os limites do terror para crianças

A classificação indicativa da série mudou após ser alvo de críticas e considerada imprópria para crianças. Entenda a polêmica
Divulgação Netflix/Arte Lunetas
  • Publicado em: 06.12.2021
  • Atualização: 14.12.2021
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“Houve um tempo em que os contos de fadas eram incríveis. Sei que você não acredita. Acha que são fofos e cheios de fadas, mas eles não são. Os verdadeiros contos de fadas são assustadores.”

Essa é a abertura da série “Um conto sombrio dos Grimm”, da Netflix, que nos convida a acompanhar duas crianças enquanto elas se aventuram em uma história sinistra, trazendo à tona o debate sobre os limites do terror em produções infantis. Conteúdos de terror despertam interesse de meninos e meninas ao redor do mundo mas, afinal, em que medida devemos proteger os pequenos do medo, da violência e do grotesco? Qual é o papel dos adultos e das empresas na mediação dos conteúdos infantis? E ainda, será que esse tipo de linguagem tem espaço no universo infantil?

Com um humor bastante ácido e cenas que muitas vezes trazem para o primeiro plano situações assustadoras, a releitura audiovisual do livro premiado de Adam Gidwitz, de 2010, narra as aventuras de João e Maria através de contos clássicos. A partir de conflitos e contradições familiares que se desenvolvem ao longo dos episódios, os irmãos nem sempre tomam as decisões corretas e vão amadurecendo durante a jornada.

Para os realizadores, essa é uma história profunda que fala da compreensão mútua entre pais e filhos, reforçando a importância de adultos e crianças assistirem a série juntos. Em entrevista para a ComingSoon, o diretor Simon Otto vê uma oportunidade de ajudar os pequenos a se prepararem para enfrentar desafios e medos compartilhados a partir do diálogo, dar algumas risadas e reforçar laços que nos auxiliam a atravessar até mesmo a floresta mais sombria.

“De certa forma, a série evidencia o fato de que a vida é complexa e permite que as crianças vivenciem dificuldades e emoções através de algo divertido”

Apesar de combinar elementos de terror e fantasia, e inclusive demonstrar a preocupação em suavizar determinadas cenas, a série ganhou uma repercussão polêmica a partir do olhar dos adultos. Alguns pais, como Hanna Mota, mãe de Levi, 5, e Heitor, de 10 anos, não se sentiram confortáveis com o programa. “Enquanto eles assistiam, achei que a série tinha cenas inadequadas para a faixa etária. Pelo menos eu estava lá ao lado deles para prepará-los.” Mas, afinal, o que o terror pode oferecer aos pequenos?

Quando foi lançada no Brasil, a série “Um conto sombrio dos Grimm” integrou o catálogo infantil com classificação indicativa a partir dos 10 anos de idade. Contudo, com a repercussão do tema nas redes sociais, em que pais se posicionaram contra o conteúdo, a série passou a ser sugerida para o público maior de 12 anos.

O lado obscuro dos contos de fadas e o fascínio pelo sombrio

“Todas as histórias têm uma parte triste. Eu sei que dói quando um personagem morre e o outro é deixado sozinho num conto sombrio, mas o que podemos dizer é que vai melhorar. Só que não agora” – Corvo William

O trio de corvos falantes, responsável pela narração das histórias na série, cumpre um papel importante na mediação do conteúdo para os espectadores. Ao longo da trama, eles interrompem a história para verificar se as crianças estão bem, alertando sobre as cenas pesadas que se aproximam e também fazendo comentários irônicos e divertidos, tranquilizando-as. Com a quebra da quarta parede, os corvos conseguem colocar em palavras alguns sentimentos mais complexos e trabalhar os conflitos da série com crianças e adolescentes.

Divulgação/Netflix

“Você não pode contar essa parte da história, William. Tem crianças do outro lado.” – Corvo Jacob

Para Diego Penha, doutor em psicologia clínica e mestre em psicologia social, com pesquisa em literatura e cinema de terror, o motivo por que histórias de terror atraem tanto as crianças tem origem em lendas e mitos. “Quando nossos ancestrais escolhiam pintar um touro nas paredes das cavernas, provavelmente ou o temiam e admiravam, ou temiam a fome e buscavam representar a caça que desejavam”, explica.

“Contar histórias sombrias na fogueira não é uma invenção recente”

Através de produtos culturais adequados, crianças podem ter contato com narrativas mais sombrias de maneira controlada e experienciar uma complexidade de sentimentos e sensações que ampliam seu repertório e as prepara para emoções profundas a que estão sujeitas. Nesse sentido, Diego lembra que diferentemente dos acontecimentos da vida real, na arte, o espectador está protegido

“Histórias de terror produzem uma quantidade tolerável de medo. Quando esse acúmulo de tensão passa, com o fim ou a resolução da história, o alívio e a satisfação são prazerosos”, pontua. Para o psicólogo, o medo também precisa ser validado, devendo ser entendido como um processo de elaboração, e não como fraqueza. O diálogo é a chave que permite que as crianças criem seus próprios recursos simbólicos e narrativos para lidar com as emoções.

“A mediação tem mais a ver com participar do universo imaginário da criança, brincar com ela e compor com suas próprias fantasias do que vigiar, punir ou censurar seu gosto”

Para exemplificar, Diego compartilha uma estratégia lúdica que o pai usou durante a sua infância para ajudá-lo a lidar com o medo de vampiros. “Certa vez, vi um vampiro em um trem fantasma quando era pequeno, fiquei com muito medo e não conseguia dormir. Meu pai me presenteou com uma lanterna e disse que os vampiros não gostam de luz. A partir desse momento, eu passei a dormir com a lanterna embaixo do travesseiro.”

O psicólogo indica que é justamente quando os pais percebem que os filhos estão ficando tensos, tristes ou apavorados, com uma situação ou com um filme, que é preciso conversar mais com as crianças.

O que as crianças pensam sobre a série?

Rafaella – 11 anos “Eu achei a série só um pouco assustadora por causa das músicas”. Além disso, João e Maria foram bem corajosos de passar pela floresta sombria e enfrentar a bruxa… tudo para ter uma família. Achei super legal o estilo do desenho, eu gostei do sorriso da Lua e também do nariz do Sol pegando fogo. Aprendi que nunca vai existir uma família perfeita, mas que é possível ter uma família feliz.
Pedro Henrique – 10 anos Eu não achei a história assustadora, não. João e Maria foram muito corajosos quando decidiram sair da fazenda e enfrentar a floresta e os bichos. Meu personagem preferido foi o João, porque ele era meio medroso… e o corvo também, porque ele está sempre contando as curiosidades.”
Gabrielly  – 11 anos “Meu personagem favorito é a Maria, porque ela é muito corajosa de ter cortado o dedinho. Eu não ia ter coragem de fazer isso! Eu achei tudo muito criativo, as roupas, os corvos e também os pais deles. Eu aprendi que é importante nunca deixar nosso irmão para trás e ser o melhor amigo dele, nas horas difíceis e nas fáceis.
Pedro – 12 anos “No começo ela pode até parecer um pouco chata, mas a série vai ficando mais legal e mais divertida ao longo dos episódios. Acontecem diversas coisas que você não está esperando e isso deixa a série bem mais interessante que o normal. ALERTA DE SPOILER! Tem um momento que o João vira um lobo, né? Ele foi caçado […] e aí, eles meio que foram tirar a pele do lobo, só que nesse momento o João estava lá dentro. Eu juro que não esperava por aquilo! Eu recomendo demais essa série. Prometo que você não vai se arrepender.”

Uma breve contextualização histórica

O psicólogo Diego Penha lembra que os irmãos Grimm foram pesquisadores dedicados a explorar narrativas de advertência, organizando e compilando a tradição oral, principalmente através do folclore e contos populares. “O dicionário etimológico da língua alemã, produzido por eles em meados dos anos 1800, resultou nos contos de fadas que tanto conhecemos. Eram histórias moralizantes, responsáveis por transmitir entre as gerações uma série de valores, a partir do emprego dos principais medos da época como elemento narrativo: bruxas, lobos, feras, tiranos…”, exemplifica. Como traz a abertura da série, as versões originais tinham um caráter mais sombrio, com cenas de violência e, eventualmente, desfechos tristes.

A compreensão que temos hoje sobre infância é resultado de um longo percurso histórico, sendo recente a ideia de que crianças são sujeitos de direitos, que demandam proteção e educação adequadas. Essas mudanças refletem também na produção de conteúdo, que evoluiu em relação às narrativas infantis mais antigas.

A partir dessa contextualização, Diego considera justo a série ter ganhado uma restrição maior. “Eu acredito que a série é mais apropriada para crianças a partir dos 12 anos, pré-adolescentes que estão entrando em contato com a obra dos Grimm pela primeira vez, de uma forma bem-humorada, e não tão ‘sombria e sinistra’ como faz questão de alertar. Para crianças menores, seria interessante se houvesse um aviso aos pais, para que eles possam decidir se desejam mostrar aos filhos.”

Em tempos difíceis, boas histórias de terror que revelam as contradições humanas e propõem reflexões em relação às ideias que compartilhamos podem provocar um olhar diferente para a realidade, para a forma como nos relacionamos e como estamos no mundo. Assim, talvez encarar o lado mais sombrio com responsabilidade, enfrentando monstros internos e externos, seja um caminho possível para criar novas histórias e futuros.

* Todas as crianças foram entrevistadas antes da alteração da classificação indicativa da série para 12 anos, feita pela Netflix, em 27/11/2021.

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Resumo

Refletimos junto de um especialista, pais e crianças se a polêmica em torno da série “Um conto sombrio dos Grimm" se justifica e o que as produções de terror para a infância podem oferecer às crianças além do entretenimento.
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