Do que brincar? É a pergunta que mais chega até aqui. Vem de quem tem uma tarde pela frente, uma criança entediada e a sensação de que precisa resolver alguma coisa rápido. A resposta mais honesta é que ideia de brincadeira quase nunca é o que falta. Falta tempo, falta espaço e falta deixar a criança inventar o que fazer.
Esta trilha reúne mais de dez anos de reportagem de Lunetas sobre o brincar: por que ele importa, do que depende e o que pode ajudar quando ninguém sabe por onde começar.
Brincar é onde a criança descobre o que o corpo aguenta, percebe que o outro também tem vontade, inventa regra, quebra regra e aprende a perder.
Quem descreve melhor são as próprias crianças. “Todo mundo deve brincar! Isso é regra de ser criança.” É assim que Olívia, 9 anos, abre o “Manual de como ser criança” — a Lei nº 0 que crianças de Salvador e de São Paulo decretaram no Dia das Crianças de 2025. No “Estatuto das brincadeiras”, Michel, 11, escreve: “Brincar na rua é onde eu desenvolvo mais a minha infância”.
Trilha: o brincar na infância
Mais do que brinquedos comprados, a brincadeira se faz com a vida. O brincar pede tempo livre e silêncio, que hoje são os bens mais raros de uma infância cheia de horários. Depende também de espaço aberto, fora das quatro paredes onde a infância foi ficando emparedada; de curiosidade e imaginação, que são os melhores brinquedos e não custam nada; e de um corpo que ainda encontra o mundo fora das telas.
Para os dias em que a inspiração não vem, entra a parte prática. Tem brincadeiras simples para qualquer hora, cantigas de roda, brincadeiras africanas e indígenas, além de papel e caneta quando não há mais nada e atividades para crianças com deficiência.
Depois, o brincar em cada idade: das primeiras descobertas sensoriais a uma investigação sobre o que acontece quando a criança cresce. Adolescente ainda brinca?
Por fim, reflexões para continuar a conversa: por que brincar é importante, na opinião de sete especialistas; como as cidades podem priorizar a infância e o que significa ser criança num país que nem sempre deixa.
Brincar é lei
Garantir o brincar não é tarefa de cada família sozinha e, por isso, o assunto não termina em casa. Não por acaso, desde 2010 mais de 80 cidades transformaram a Semana Municipal do Brincar em lei. São atividades gratuitas em praças, parques, bibliotecas, escolas e ruas abertas.
A lei dos adultos já existe. A das crianças também. Falta preencher o intervalo entre as duas — brincando.
