Toda criança tem o direito de ser escutada

Você já parou para escutar, com atenção e dedicação, o que a criança com qual você convive tem para dizer ou contar?

Pedro Hartung Publicado em 12.09.2018

Resumo

Você sabia que se expressar é um direito de todas as crianças? Este direito está garantido no artigo 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU (Organização das Nações Unidas). Confira o texto do colunista Pedro Hartung!

Você já ouviu uma criança hoje? Você já parou para verdadeiramente escutar, com atenção e dedicação, o que a criança com qual convive tem para dizer ou contar Toda criança tem o direito de ser escutada. Mas temos maltratado as comunicações cotidianas, pressionadas pelos tempos corridos ou pelas palavras cortantes.

Nesses tempos turbulentos, estamos desacostumados de uma importante e milenar arte, base para qualquer relação ou comunicação dialógica: a arte da escuta.

E as crianças têm sofrido igualmente por isso. Ao invés de perguntas sobre suas opiniões e percepções acerca dos acontecimentos dos mundos, interiores e exteriores, entregamos esse tempo de encontro ao monólogo silencioso das máquinas e telas. Apesar de tentarem emular uma conversa, faltam a qualidade das emoções e sentimentos.

Pesquisas recentes da neurociência expõem a necessidade do vínculo sócio-afetivo constante e interativo para o desenvolvimento amplo e sadio do cérebro durante a primeira infância. Essa é a base para a aquisição de inúmeras habilidades cognitivas e emocionais, inclusive a própria linguagem.

Uma pesquisa impressionante da Universidade de Washington apontou que a aprendizagem da linguagem necessita de um contexto de interação social. Isto é, bebês não aprendem os fonemas de uma língua quando expostas a um mesmo conteúdo transmitido por telas.

Não há como desenvolver linguagem, sem a interação dialógica com outro ser humano. E não há diálogo se não há escuta!

Ouvir uma criança, mais do que um ato humano essencial e necessário, é um direito dela para que possa se desenvolver de forma plena e integral e, ainda, para que possa emitir suas opiniões de maneira livre e autônoma sobre qualquer decisão que lhe diga respeito, seja dentro da família ou nas mais complexas políticas públicas de um Estado.

Não é por acaso que esse direito está expresso no artigo 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU (Organização das Nações Unidas), o tratado internacional mais assinado em todo o mundo.

Artigo 12

1. Os Estados Partes assegurarão à criança que estiver capacitada a formular seus próprios juízos o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados com a criança, levando-se devidamente em consideração essas opiniões, em função da idade e maturidade da criança.

Contudo, escutar uma criança não é algo trivial ou procedimental. Exige práticas e exercícios diários para reconhecer, dentre os emaranhados de sons, os timbres mais vívidos e singulares que habitam em cada criança. Somente os ouvidos mecânicos que temos mostram-se então insuficientes.

Nesse sentid, fazem-se necessários novos, que ouçam verdadeira e poeticamente. Ouvidos sensíveis para falas igualmente sensíveis; frágeis cristais que ao menor dos toques podem romper o encanto das falas criativas e pensamentos aventurosos.

Assim, que possamos praticar essa arte esquecida e dar espaço e tempo para as múltiplas falas infantis, superando esse entendimento adultocêntrico equivocado de que crianças não possuem voz, são in-fantes.

Escutar crianças e considerar suas vozes é talvez um dos exercícios mais democráticos. Isso porque permite o encontro com o diverso no sentir, no pensar e no falar, como nos lembra Janusz Korczak-> Janusz Korczak foi um pediatra e escritor judeu polonês. Morreu no campo de extermínio nazista de Treblinka em 1942. Deixou seu nome à posteridade por ter escolhido ser deportado com as crianças judias do Gueto de Varsóvia onde dirigia um orfanato., que certa vez iluminou que alguém:

“Não deve se abaixar até a criança, mas elevar-se a ela, e ao seu modo de ver e compreender as coisas”

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