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Reforma da Previdência: os impasses de quem cuida das crianças

Como a jornada de trabalho que deverá se estender por mais anos impacta na qualidade do tempo que se passa com as crianças?
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  • Publicado em: 16.09.2019
  • Atualização: 17.09.2019
da Redação

Pode procurar. As palavras “Reforma da Previdência” e PEC 6/2019 estão diariamente na primeira página da maioria dos portais de notícia do Brasil. Há meses que este tema faz parte da pauta nacional. Trata-se da maior mudança no sistema previdenciário do país em décadas, que propõe alterações significativas na forma como se aposenta no Brasil.

Em que pé estamos? Atualmente em tramitação no Senado após ser aprovada na Câmara, a Reforma da Previdência acaba de ser avaliada pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), que solicitou mais de 300 emendas parlamentares, ou seja, ajustes no texto da forma como ele foi apresentado. Acompanhe as próximas movimentações.

Entre ajustes, acordos e disputas políticas, o que a Reforma da Previdência tem a ver com o povo? Diante de tantos números, dados numéricos, infográficos e análises e que vêm todos os dias estampadas nos jornais, o que conseguimos de fato entender e trazer para o concreto?

Como dar consistência humana para um assunto que, quando aparece na TV, quase que não fala da gente?

Aqui no Lunetas, uma pergunta é sempre a disparadora inicial das nossas reflexões: como as crianças são afetadas por isso? Essa é uma pergunta que pressupõe uma série de parâmetros, afinal, quando falamos de infância, falamos também de quem toma conta delas. Está na Constituição Federal, no artigo 227, que temos uma responsabilidade compartilhada em relação às crianças brasileiras, uma missão que envolve família, Estado e sociedade.

Então, o que a Reforma da Previdência tem a ver com a vida de quem cuida das infâncias?

Política com arroz e feijão

Os trâmites do texto da Reforma são muitos e perduram por meses, entre Câmara e Senado, até ser aprovada em última instância. Aqui, não pretendemos destrinchar esses passos, pois para isso estão aí os veículos de cobertura diária. Nossa proposta é dar uma perspectiva mais cotidiana para o assunto, desviando da velha máxima ‘política não se discute’, e também da equivocada ideia de que ela acontece apenas nos centros de poder de Brasília, distante da nossa vida comum. Pelo contrário: política acontece no cotidiano, e deve se abastecer das demandas populares – leia nosso Especial sobre política: Em tempos de guerra eleitoral, quem cuida das crianças?

Fomos para a rua em São Paulo, e conversamos cara a cara com as pessoas para ter uma impressão de como o tema se realiza e/ou se confunde na cabeça delas. Pensando especificamente nos aposentados ou em avós que possuem gastos com a criação das crianças, como a jornada de trabalho que deverá se estender por mais anos impacta na qualidade do tempo que se passa com elas?

É o caso da produtora cultural Rosangela Paiva, 47, avó de uma menina de um ano e oito meses. Hoje responsável pela criação da neta, ela ficou desempregada no último ano, e mesmo assim viu seus gastos aumentarem, ao ter de se mudar de Ribeirão Pires para Mauá para ficar mais perto da família e dar conta da tarefa. Sem renda nem condições de arcar com um plano de previdência privada, ela se preocupa com o seu futuro e de pessoas como ela, que enfrentam o desemprego nessa fase da vida.

“Acho que se instalou a premissa ‘viva o hoje, pois o amanhã não nos pertence’. Tenho acompanhado com desesperança. Não sei como será a minha velhice. Não sei como garantir sustento nessa idade”, compartilha Rosangela.

A pergunta-provocação que levamos para a rua foi a seguinte: “como você explicaria a Reforma da Previdência para uma criança?”. A ideia aqui não é partir do pressuposto de que um assunto tão complexo da esfera econômica e social do país seja assunto de criança, mas sim instigar as pessoas a traduzir as implicações reais do tema para uma linguagem simples e possível de alcançar.

“Simplesmente não faço ideia de como ensinar uma criança que por conta de política e de políticos seus direitos serão reduzidos e ela ao crescer terá de trabalhar por mais tempo ou fazer uma previdência privada”

Afinal, falar de Reforma da Previdência é falar de tempo – o tempo da força de trabalho das pessoas, da possibilidade ou impossibilidade de ter tempo de usufruir do descanso após anos de contribuição. Então, se os adultos precisam trabalhar cada vez mais, e as crianças precisam de mais tempo de escuta e atenção em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia, quem toma conta delas enquanto os cuidadores precisam trabalhar? 

Assista ao vídeo:

Por que uma Reforma da Previdência?

  • Quem concorda

Um dos principais argumentos do Governo para defender a aprovação da Reforma é que ela responde a um impasse econômico e social do país: o impacto do envelhecimento crescente da população, o consequente gasto previdenciário quem vem dela, e a crise fiscal que resulta dessa conta. 

  • Quem discorda

Porém, a questão é sensível e pede um olhar atento em muitos aspectos, já que a Reforma da Previdência pode recair principalmente sobre as trabalhadoras  – já que as mulheres exercem jornadas maiores que a dos homens – e professores de ambos os gêneros. 

Idosos trabalham mais a cada ano

Apesar de o ajuste do salário mínimo ser feito geralmente acima da inflação, esse aporte está longe de conseguir garantir o mínimo que o trabalhador brasileiro necessita para viver. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo deveria ser quatro vezes maior do que é para abarcar os custos de vida básicos de um trabalhador – moradia, alimentação, transporte, educação, vestuário, entre outros.

Toda essa realidade impacta a vida de quem toma conta das crianças, pois, se um dia foi simples para uma família poder contar com os avós para cuidar delas, hoje, também esses precisam trabalhar mais para complementar a renda.

Segundo a Agência Brasil, a quantidade de idosos no mercado de trabalho cresce, enquanto a precariedade das condições trabalhistas aumenta. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o número de pessoas com mais de 65 anos ou mais em vagas aumentou de 484 mil em 2013 para 649,4 em 2017. Além disso, o último PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de de Domicílios) aponta que o desemprego entre idosos também subiu, passando de 18,5% em 2013 para 40,3% em 2018.

Ou seja, não se trata apenas de refletir sobre quem cuida das crianças diante de cargas maiores trabalho (em tempo diário e de contribuição), mas sim como cuidam, uma vez que a qualidade de presença fica prejudicada e saúde mental também é afetada, sobretudo de mulheres sobre as quais a sobrecarga ainda é maior.

No livro “Estressores ocupacionais e diferenças de gênero“, a pesquisadora Ana Maria Rossi afirma que “o estresse é reconhecido com um dos riscos mais sérios ao bem-estar psicossocial do indivíduo”, sendo que cerca de 50 a 80% de todas as doenças de fundo psicossomático estão relacionadas a ele.

 

Resumo

Pensando especificamente nos aposentados ou em avós que possuem gastos com as crianças, como a jornada de trabalho que deverá se estender por mais anos impacta na qualidade do tempo que se passa com elas?
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