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  • Publicado em: 08.07.2020
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Hoje eu não quero falar de pandemia. Peço licença para esta licença poética de não falar de uma realidade que está passando do tempo de dizer quando vai embora, mas que vem cobrando de nós justamente o contrário, a perseverança de seguir no eterno presente. Portanto, diante de um futuro sem hora de chegar ao certo, dou-me ao direito de trazer o passado para passear pelos bosques do agora.

Morreu Ennio Morricone*.

Se você não associou o nome à obra, vou dar um título: “Cinema Paradiso”. Este é o filme da minha vida. Uma obra de arte atemporal, que, por ser universal, conecta qualquer coração humano, até o mais enrijecido deles, à condição infantil. Volte a ele como eu, que não me canso de ver as cenas idílicas de um menino e seu amigo projetista. Voltar ao “Cinema Paradiso” é voltar a quem fomos, a quem queremos sempre retornar.

A música do filme foi composta por Ennio Morricone, um maestro que nasceu para compor partituras que embelezam angústias, que eternizam sentimentos, que molduram os quadros vividos com mais do que o barulho da vida. Eu sempre acreditei numa vida que tivesse trilha sonora, que me entregasse a arte como expansora dos sentimentos que a alma quisesse ecoar. Eu era uma criança que brincava de viver com música nos ouvidos, imaginando qual canção me acompanharia em cada situação da vida. 

Adultecendo, eu finalmente entendi minha ideia infantil: a trilha sonora é o que falta para a experiência se fundir ao eterno.

Ennio Morricone me fundiu ao eterno inúmeras vezes. Levado por suas melodias, eu me deleitava com memórias. As suas canções me davam as mãos à lembrança, e me transportavam para qualquer ontem. E isto é mágico, porque é uma arte sem palavras que tudo diz. A música instrumental é um texto que lhe oferta as palavras da sua reminiscência, que se posta como livro para ser escrito por quem a escuta. Uma música pode, portanto, ser a leitura que faltava ser feita, a voz que merecia ser dita, a palavra que insistia em ser cantada.

Assim, eu me delicio com estes acordes imortais ao escrever estas linhas. Escolhi esta trilha para me reportar a quem um dia fui, e quem insisto em continuar a ser.

Aquela criança que sonhava músicas agora é um palavreador de olhares, é um cantador de silêncios.

Eu convido você a se entregar aos sons da sua vida. Pense nas trilhas que lhe compuseram, nas histórias que você precisou embalar com canções, faladas ou não. Relembre e renarre. Imagine-se lá novamente, com o olhar de agora: pode ser saudade, pode ser encantamento, pode ser surpresa. 

Retornar ao passado é sempre um espanto, porque jamais imaginamos que pudéssemos ter sido tão belos.

Em tempos de desencanto pandêmico, é mais do que urgente ver-se potente, vivaz, com eloquência nos pés descalços que andam pelo tempo. 

Nós somos música. Somos um acorde indecifrável, de término incerto. Somos merecedores de reticências para narrar, somos instigados pelo que ainda não somos e pelo que já fomos e nem nos recordamos mais. Por isso, “Cinema Paradiso”. Por isso, Ennio Morricone. E pode ser outro filme, e pode ser Chico Buarque. Há claves em sol prontas para dar voz a brilhos esquecidos. 

Se muitas músicas nos contemplam, é porque somos pluriverso.

Se para você esta coluna não parece um artigo de psicólogo, é porque também sou artista. Eu sinto a arte como a moldura da ciência, e ambas se oferecem como presenças que ampliam o que se pode sentir. É como ser humano, que pulsa a escuta artística da psicologia, que eu lhe chamo para dar-me as mãos de criança que ainda existem aí, neste coração cansado. Vamos juntos. Uma música pode refazer uma vida inteira em nós.

 

*Ennio Morricone, maestro e compositor italiano, autor de várias trilhas sonoras que marcaram a história do cinema, morreu aos 91 anos, na última segunda-feira (6/7). Ele estava internado após sofrer uma queda e fraturar o fêmur.

Resumo

Alexandre Coimbra presta uma homenagem a Ennio Morricone, autor de trilhas sonoras famosas como a música de “Cinema Paradiso”, que nos faz relembrar a criança que fomos na infância e a quem queremos sempre retornar.
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