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  • Publicado em: 29.09.2021
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Numa sociedade patriarcal, mulheres são intimadas a ser as responsáveis diretas pelos cuidados das crianças. Até bem pouco tempo atrás, não era raro que homens não soubessem quanto um filho calça ou veste, e desconheciam qualquer informação mais íntima sobre a criança. Na minha infância (década de 1970 e primeira metade dos anos 1980), presenciei homens, por exemplo, confundirem o ano escolar em que seus filhos estavam ou, ao assinarem a certidão de nascimento da criança, diziam: “pergunte para a mãe dela, essas coisas é ela quem cuida”. Não era preciso ser uma das 11,5 milhões de mães solo brasileiras – de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – para que o pai ignorasse detalhes relevantes sobre a vida da criança.

Existem iniciativas interessantes de pré-natal para homens, como o Pré-natal do Parceiro, do Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece um atendimento inserido no eixo Paternidade e Cuidado da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). A proposta é envolver o homem em várias etapas do processo de recepção de uma criança ou adolescente. O pré-natal para homens funciona para adoção, planejamento reprodutivo, gestação, parto, puerpério e desenvolvimento infantil, integrando-os nos cuidados com a saúde da criança para que compartilhem com as mães essas responsabilidades.

Merece nossa atenção o fato de que, no Brasil, a licença-maternidade dura de quatro a seis meses, enquanto a licença-paternidade pode variar de sete a 15 dias. Se nosso objetivo é uma sociedade democrática que enfrente o patriarcado, o sexismo, o machismo, a misoginia e todas as formas de discriminação que oprimem as mulheres, em todas as circunstâncias que os cuidados de uma criança envolvem dois adultos, não faria mais sentido a licença-parental?

O pré-natal, assim como o período aguardando uma criança para adoção, deveria ser formativo, especialmente para homens. Defendo uma política pública de formação afetivo-política para homens.

Após concluir o curso durante o pré-natal, o homem teria direito a ser incluído no programa de licença-parental, desfrutando junto da companheira de um período entre um semestre e 12 meses, de modo que pudessem cuidar com mais atenção da criança  no seu primeiro ano de vida, ou ainda, para que crianças adotadas pudessem ter um período confortável de adaptação. 

Em outras palavras, precisamos de políticas públicas que corrijam distorções históricas que sustentam as desigualdades de gênero. A enorme quantidade de mães solo no país não implica num dom natural das mulheres para a maternagem, mas revela um conjunto de pressões que explica os porquês das mulheres com frequência abandonarem projetos em prol da maternidade. A violência que brutaliza as mulheres parte de uma fantasia patriarcal de que as mulheres nasceriam com um instinto materno e uma predisposição inata para o cuidado. Ora, o que o sistema patriarcal tem feito é ocupar as mulheres com o cuidado dos familiares, diminuindo o seu tempo para o autocuidado. 

No caso dos homens, é comum o abandono afetivo. Ou seja, muitos homens, ainda que não deixem de cumprir com responsabilidades financeiras e intelectuais, descuidam completamente do plano dos afetos. Embora estejam previstos abandonos material e intelectual, o Código Penal não prevê em detalhes os dispositivos de compensação para abandono afetivo. Homens são oficialmente autorizados a investir menos tempo de cuidado com bebês, crianças e jovens.

Precisamos mobilizar a sociedade para construir um projeto de formação afetiva e alterar, ao mesmo tempo, os períodos de licença-paterna e materna. É preciso criar licença-parental, envolvendo simultaneamente as mães e os pais. A separação entre o período materno mais longo e outro período mais restrito para os pais é um reforço do sexismo e dos privilégios masculinos. As desigualdades de gênero criam expectativas violentas contra as mulheres e de promoção de processos de dessensibilização dos homens. Um homem pode não saber qual o tamanho da camiseta do seu filho de 6 anos. Mas, quase sempre, se espera que a mãe dessa criança saiba tudo que ela gosta de comer ou a numeração do tênis, por exemplo. 

Precisamos de políticas públicas para combater as desigualdades de gênero que atuam na dimensão do relacionamento afetivo com as crianças. Por outro lado, já passou da hora de nós, homens, enfrentarmos o nosso machismo nos pequenos cuidados com as crianças. A população masculina não pode ser coadjuvante: pai que “ajuda” a mãe com as crianças é coisa de um passado colonial e violento. 

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Resumo

Renato Noguera defende uma formação afetivo-política para homens e nos convida a combater desigualdades de gênero por meio de políticas públicas como o pré-natal para homens.
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