Arquivo pessoal

Para ocupar o tempo de Betina, Luana procura estimular brincadeiras e passeios, o que acaba diminuindo então o interesse da filha pelas telas.

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Danielli prefere atividades ao ar livre do que o celular. Na pescaria, por exemplo, nem há sinal de internet.

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Já a família de Luca e Enzo usa o Qustodio, um aplicativo de mediação parental, para controlar o tempo de acesso dos filhos ao Instagram.

lang="pt-BR">Foguinho do TikTok e cuidados para prevenir um incêndio
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Por que apagar o foguinho do TikTok antes que cause um incêndio?

Três meninas olham para a tela de um celular nas mãos da menina do meio. Todas são brancas e vestem roupas coloridas.

“É muito conteúdo raso, vazio. Até o jeito que eles falam, acelerando tudo, é horrível de escutar”, diz Luana Silene, mãe da Betina, de 5 anos, sobre o TikTok. “Então, eu não deixo ela assistir.” O TikTok foi a rede mais bloqueada por pais e responsáveis no mundo por quatro anos consecutivos, segundo uma denúncia feita pelo Instituto Alana e apresentada à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Além de criticar a qualidade do conteúdo que circula na plataforma, Luana também aponta a dificuldade de dosar o uso como fator para impedir o acesso da filha ao TikTok. “Se deixar, é toda hora, não tem limite. Aí fica aquele ciclo de ficar pedindo…”. Para 71% dos pais entrevistados por uma pesquisa Datafolha encomendada pelo Instituto Alana, crianças e adolescentes estão viciados nas redes sociais.

As redes sociais são construídas para estimular o retorno constante, comenta a psiquiatra e psicoterapeuta Maria Carolina Pinheiro. Isto é, “reforçam uma atenção fragmentada, sempre capturada pelo próximo estímulo”. Nesse sentido, o “foguinho” é um mecanismo que recompensa a interação diária contínua entre usuários. Quando a sequência é mantida, o símbolo se fortalece. Por outro lado, quando a interação falha, o pet virtual “adoece”, muda de cor ou “morre”.

Denúncia contra o foguinho do TikTok

A denúncia feita pelo Instituto Alana foi encaminhada ao Ministério Público Federal no início de dezembro de 2025 e trata da nova funcionalidade do “foguinho”. Segundo João Francisco Coelho, advogado do programa Criança e Consumo e do eixo Digital do Instituto Alana, responsabilizar o usuário pelo cuidado constante de uma espécie de “pet virtual” tem o objetivo de mantê-lo na plataforma. “Sair [da plataforma] significa colocar em cheque uma conquista”, diz. O Lunetas entrou em contato com a ByteDance, empresa administradora do TikTok, mas não obteve resposta sobre o caso.

Um ciclo difícil de interromper

A lógica de manter o foguinho aceso cria um senso artificial de responsabilidade, culpa e perda, especialmente sensível para crianças, que ainda estão desenvolvendo noções de tempo, limite e regulação emocional. Esse “design persuasivo” com potencial abusivo pode levar a “quadros claros de ansiedade, depressão e autolesão”, diz Maria Carolina.

Isso porque a rolagem infinita reduz a percepção da passagem do tempo e mantém o usuário navegando quase sem perceber e a reprodução automática de vídeos elimina qualquer pausa entre um conteúdo e outro, intensificando a continuidade. Já o formato de vídeos curtos em tela cheia aumenta a imersão e dificulta interrupções. De fato, aproximadamente uma em cada quatro crianças e adolescentes, de 11 a 17 anos, tentou reduzir o uso da internet e não conseguiu (24%).

Mas, Danielli Rodrigues, 16 anos, depois de usar o “foguinho” por quatro meses, percebeu que a funcionalidade estava atrapalhando sua rotina de estudos. Então, deixou “todos apagarem”. “Eu não via futuro nisso”, conta. “Às vezes, eu estava estudando e um amigo me ligava pedindo pra acender o foguinho no TikTok.”

O tempo da infância não acontece na velocidade 2

Não há tempo que se compare à infância“, diz a psiquiatra Maria Carolina. No entanto, as redes têm tomado o lugar de experiências fundamentais dessa fase, “como brincar de faz‑de‑conta, ouvir histórias, conviver e olhar nos olhos, que são a base da linguagem, da imaginação e da empatia”, diz. “O cérebro, ainda em formação, precisa de continuidade, pausa e relação humana para se desenvolver de forma saudável.”

Estudos de neuroimagem compilados pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) indicam a associação entre uso intensivo de telas e alterações em áreas cerebrais ligadas à regulação emocional e ao controle de impulsos. Sobretudo até os seis anos de idade, quando as bases de conexões neurais que acompanharão a criança por toda a vida estão em construção, o aprendizado é mais rápido, mas isso também torna o cérebro mais vulnerável a mecanismos de recompensa.

Principais sinais de um uso excessivo das redes:

Para um diagnóstico preciso, é imprescindível buscar ajuda de um especialista.

A boa notícia é que o cérebro infantil também responde rapidamente a ambientes mais saudáveis. Brincar livremente, movimentar o corpo, criar histórias, conviver com outras crianças e adultos são experiências que regulam emoções, fortalecem vínculos e reorganizam o desenvolvimento. “Ao combinar limite consistente, reorganização da rotina e tratamento adequado quando necessário, muitos desses jovens retomam sono, humor, atenção e relações em pouco tempo”, explica Maria Carolina.

Mediação e diálogo

“Pela manhã, ninguém pega em tela. No almoço, a gente proíbe”, conta Leonardo Aguilar, pai de Luca, 15, e Enzo, 12. “A gente até separa os celulares em um cantinho, para estimular a conversa.” Além de horários predefinidos para usar o celular, os meninos não têm acesso ao TikTok.

Mas a responsabilidade não pode ser apenas das famílias. Principalmente quando cinco em cada 10 brasileiros não sabem usar ferramentas de mediação parental, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025. Embora o levantamento do Datafolha em parceria com o Instituto Alana aponte que 84% das famílias concordam que as plataformas fazem menos do que deveriam para proteger crianças e adolescentes, apenas 27% deles consideram que acabar com autoplay e rolagem infinita é uma medida de proteção que as plataformas deveriam adotar.

Cuidados para prevenir um incêndio

Enquanto crianças e adolescentes se dedicam a manter a chama do foguinho acesa no TikTok, empresas seguem lucrando com métricas de tempo de permanência e retenção ao explorar vulnerabilidades emocionais da infância. A combinação de estímulos rápidos, ausência de pausas naturais e reforços emocionais artificiais cria um ambiente incompatível com as etapas de desenvolvimento infantil. Também os adultos responsáveis desconhecem ou compreendem pouco como operam essas arquiteturas de engajamento e como intencionalmente alimentam o vício.

Para impedir que o recurso “fofo” desse fogo fuja do controle e cause incêndios, o advogado João Francisco defende um esforço coletivo entre Ministérios Públicos, órgãos de fiscalização e a rede de proteção à infância para que haja regulamentação de acordo com a lei. “A gente tem uma norma que visa coibir esse tipo de situação. Então, precisamos garantir que vai sair do papel e ser fiscalizada e monitorada por toda a sociedade civil”.

O que dizem as leis brasileiras 

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), produtos e serviços que possam induzir o vício não devem ser oferecidos a crianças. O Código de Defesa do Consumidor, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e, mais recentemente, o ECA Digital – que entra em vigor em março deste ano – também estabelecem limites para que produtos e serviços não explorem a vulnerabilidade de crianças, garantindo sua proteção on-line. O artigo 8º do ECA Digital, por exemplo, obriga fornecedores a adotarem uma configuração padrão que não induza o uso compulsivo.

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