Sob condicional: dá para negociar com menos “se”?

Ao entender o estágio de desenvolvimento emocional da criança, fica mais fácil saber que tipo de negociação cabe propor a ela e a quais limites obedecer
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 19.08.2020
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Às vezes, você pede uma, duas, três vezes e a criança não parece disposta a atender às suas ordens. Diante da dificuldade de negociar com a criança e entrar em um acordo, a paciência vai se esvaindo e é comum incorrer em tentativas mais incisivas de fazer valer os combinados, quase pequenas chantagens. 

Só ganha sobremesa se comer tudinho do prato!

Essa prática como estratégia para conseguir que a criança se comporte ou aja de determinada maneira é desaconselhada por alguns especialistas como o psicanalista Rodolfo Fenille, que tem formação em filosofia, teologia e psicologia. “Esse tipo de ‘chantagem’ é um caminho de via curta para tentar uma resposta mais imediata, mas em geral ela não é a melhor opção, porque a criança reage e às vezes até atende mais pelo medo da reação dos pais. Ou seja, o efeito está mais relacionado ao fato de as crianças se assustarem pelo tom de voz, pelo olhar, pela expressão do rosto do adulto do que por compreenderem que não deveriam estar fazendo aquilo”, alerta.

Educar pelo afeto, não pelo medo

Mas, é possível educar abrindo mão dos recursos da negociação, do controle e até da manipulação? Rodolfo lembra Dom Bosco e sua educação pela via do afeto. Ele dizia que toda criança e todo jovem, por mais rebelde, irritadiço, difícil, fechado, que possa ser ou estar, tem um ponto em si acessível ao bem, cabendo a nós, educadores, encontrá-lo. Então, contra a tendência geral de ir pelo pior e destacar o que está errado, o pedagogo defendia a ideia básica de que primeiro é preciso acessar aquilo que existe de bom em cada um e, a partir daí, conversar sobre as coisas que a criança precisa melhorar. 

“A educação é obra do afeto. Isso não quer dizer que a gente seja sentimental, a gente sente raiva, se irrita, se cansa. A tarefa de educar não é fácil, mas ainda assim nós conseguimos, por causa do afeto, acessar a criança de maneira que ela consiga entender que a gente está proibindo, pedindo, orientando, para o bem dela”, comenta Rodolfo. 

Negociar com a criança em termos aceitáveis

Para negociar, é preciso antes entender a idade da criança, “não só a idade cronológica, embora esse seja um marco referencial importante com aquisições mais ou menos comuns, mas a idade emocional e cognitiva, com ritmos próprios”, aponta Rodolfo. Isso demanda tato, adianta ele. “Devemos manter a sensibilidade para perceber com quais coisas as crianças já estão podendo lidar e se são capazes de compreender o que estamos tentando acordar com elas. Depois, de forma bem simplificada, a gente consegue assinalar para elas que precisa existir um acordo pro banho, pra alimentação, pra ir à escola, ou seja, existe um combinado que preciso ser feito”.

  • Bebês e lactentes
    Como os bebês e lactentes ainda não têm maturidade física – precisam ser carregados no colo e ser ajudados em suas necessidades (dormir, mamar, se limpar etc.) -, é muito mais um processo de adaptação dos adultos à sua rotina e às suas demandas.
  • Até três anos
    Com crianças pequenas, já podemos começar a sinalizar através da palavra “não” o que não deve ser feito, sem esperar total compreensão e aceitação, porque elas ainda não possuem maturidade total física, fisiológica, emocional e cognitiva. É natural que a criança que já aprendeu a dizer “não” queira se colocar para ver a nossa reação e sentir que ela também tem direito de se posicionar e de ser ouvida.
  • A partir de três anos
    Com a criança um pouquinho mais velha, a gente consegue contar com um apoio um pouco maior delas para que compreendam negociações e possam aceitar os termos. Ainda assim, é necessário simplificar ao máximo para que a criança entenda tratar-se de um acordo entre a nossa parte e a dela. Quando ela ainda não for capaz de cumprir, devemos evitar reações que a levem a se sentir indefesa, desamparada, ameaçada, punida ou censurada.

Criança é um sujeito de direito

“A criança não é um ser inferior ao adulto, nem propriedade dos pais”, lembra Rodolfo. “Ela possui, desde sempre, um gesto muito pessoal em direção ao mundo e vai se tornando ao longo do tempo um ser de desejo. É nosso dever garantir a ela o direito de sentir, pensar e se expressar, ainda que dentro dos limites que também devemos lhe oferecer, inclusive dizendo ‘não’. Afinal, não se trata de ‘deixar a criança fazer o que quer’, mas negociar e encontrar a melhor maneira de manejar a situação, a partir da escuta atenta e do diálogo, sem autoritarismo”.

Para tornar esse processo mais empático, Rodolfo sugere o exercício de nos conectarmos à criança que fomos e que sobrevive em nós. “Ao olharmos uma criança, mesmo que ela esteja dando trabalho – e dão mesmo – devemos nos lembrarmos que já fomos crianças precisando ser acolhidas por um adulto. Talvez isso nos ajude a agir com o coração, ainda que tendo que pôr limites, garantindo que a criança sinta que aquilo que lhe é mais próprio mantém-se respeitado, cuidado, não violado, não submetido”. 

Se fizer isso, ganha aquilo…

Preste atenção a cada frase começando com “se” que você dirige ao seu filho no dia a dia e tente outras formas de negociar com a criança. Exemplos bem comuns que todo pai já deve ter escutado ou proposto pelo menos uma vez na vida:

Se você não guardar os brinquedos, vou doá-los para outras crianças
Se você continuar sendo mal educada, mamãe vai ficar triste
Se você não entregar a tarefa, a professora não vai gostar
Se você se comportar direitinho, Papai Noel vai te dar um presente

Para completar esses exemplos de como negociar com a criança, algumas mamães leitoras do Lunetas responderam à nossa enquete com os tipos de ‘acordos/combinados’ que já fizeram com seus filhos. 

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Resumo

Educar pela via do afeto não significa dizer sempre “sim”. Entenda a partir de quais termos é possível negociar com a criança, de acordo com sua idade emocional.
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