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Frustração no parto: quando a realidade foge do esperado

Frustração no parto: uma mãe está sentada em uma cama de hospital, com as mãos apoiadas no rosto e semblante triste.

O que Tatiana, Alana, Adriane, Elisa, Mirna e Bárbara têm em comum? Elas são algumas mulheres que dividiram com o Lunetas o sentimento de frustração no parto que vivenciaram.

Histórias de frustração

Tatiana foi amarrada durante uma cesárea e lhe negaram o direito de ter um acompanhante. O filho saiu da UTI com receita de fórmula, sem ter sido amamentado pela mãe. Alana, que se preparou física, emocional e financeiramente para um parto domiciliar, sabia que era recorrente o agendamento de cesarianas dos hospitais na cidade onde mora.

Tentou fugir disso, ouviu de uma das enfermeiras que “o plano de parto não servia pra nada”, teve uma cesariana e só conseguiu ver o bebê no outro dia. Adriane* se preparou durante toda a gestação para um parto humanizado, ficou 36 horas em trabalho de parto mas, no final, precisou de uma cesariana.

Elisa* queria uma cesárea e teve um parto via vaginal, com o bebê puxado com tanta brutalidade que a machucou. Mirna, com anemia e laceração, mal teve forças para andar após o parto e foi negligenciada pela equipe médica. Bárbara, que também teve um parto normal com laceração, sofreu gordofobia e foi deixada na maca com gelo entre as pernas, sem alimentação e medicação apropriada.

Desrespeito à autonomia da gestante

Entre a violência obstétrica, a falta de acolhimento e o desrespeito à autonomia da gestante, nascem dores, marcas, traumas e também o sentimento de frustração no parto que, muitas vezes, começa a criar raízes antes mesmo do nascimento do bebê. Amarradas e maltratadas durante cesarianas não esperadas inicialmente, o parto normal também não foge das violências que geram frustração: complicações para o bebê ou a parturiente, episiotomias e diversos tipos de abuso cercam longos trabalhos de parto embalados por uma medicina estruturalmente sexista, que não respeita as escolhas das gestantes.

“A cada dia surgem mais equipes que procuram respeitar as mulheres, porém a formação médica ainda é machista e pouco empática. Quando se pensa na humanização do parto, ela aconteceu e partiu das mulheres, não da classe médica”, conta o médico Paulo Noronha. Obstetra há 18 anos, ele diz que pouca coisa mudou desde o início da sua atuação: “quando o assunto são os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, o que deveria evoluir, regrediu.”

“Tentam com frequência tutelar este processo do gestar-parir-maternar. Dar autonomia para a mulher é mostrar caminhos seguros, intervindo apenas se necessário ou se solicitado”

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“A cada dia surgem mais equipes que procuram respeitar as mulheres, porém a formação médica ainda é machista e pouco empática. Quando se pensa na humanização do parto, ela aconteceu e partiu das mulheres, não da classe médica”

A frustração no parto que vem das múltiplas violências

“Tive meus partos roubados. Não somente eu, mas tantas outras mulheres, vítimas de um sistema violento, que nos silencia, paralisa e ameaça, num dos momentos mais vulneráveis de nossas vidas. E que nos enfia goela abaixo o discurso de superar em nome do amor materno.” Essas foram as primeiras palavras que Déa esbravejou quando compartilhou seus relatos de parto. Mãe de três crianças, todas chegaram ao mundo por meio de cesarianas e de violências obstétricas variadas.

Em 2010, amarraram-na à mesa de cirurgia. Em 2013, desmaiou após a realização da manobra de Kristeller. Essa técnica realizada com o objetivo de acelerar o trabalho de parto, em que é realizada pressão externa sobre o útero da mulher, com o objetivo de diminuir o período expulsivo., técnica banida pelo Ministério da Saúde.

Em 2020, a chefe da maternidade tentou impedir a presença de uma doula acompanhando o parto. Foi novamente operada, mas, dessa vez, teve a briga comprada por residentes de obstetrícia, que a apoiaram e conseguiram tornar o momento minimamente respeitoso – já que o direito ao parto normal lhe foi tirado, mesmo sem evidências comprovadas de que Déa, uma mulher gorda, não seria capaz de parir naturalmente.

Depressão pós-parto e a violência obstétrica

Grávida do último filho aos 33 anos, frases como “gravidez geriátrica, você está velha para engravidar!” ou “vamos marcar a cirurgia para interromper a gravidez e já fazemos a laqueadura” eram ditas para ela durante toda a gestação. Duas semanas após o nascimento, a pandemia impôs o isolamento social e a depressão pós-parto a atingiu como se fosse uma bomba-relógio. Agora, em 2022, Déa compreende que foi vítima de violência obstétrica. E conta a verdade “sem floreios”, como ela faz questão de ressaltar.

“Quantas mulheres não conseguem engravidar, quantas mães enterram seus filhos? E eu, aquela maldita egoísta, triste por não ter parido pela vagina”

Cesáreas no Brasil

Apesar da maioria das mulheres buscar um parto normal, a proporção de cesarianas no setor privado chega a 88% dos nascimentos, de acordo com a pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito nacional sobre parto e nascimento”. No setor público, que inclui o SUS e os contratados do setor privado, a taxa é de 46%. O recomendado não deve passar dos 15%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Constrangimentos durante o parto

Lara* fez todo o pré-natal da filha em um hospital que se apresentou como humanizado, sempre bem atendida enquanto não existiam riscos na gestação. Quando ela começou a desenvolver hipertensão gestacional, as coisas mudaram de figura: um exame de toque demorado e dolorido fez com que sua placenta descolasse, apressando o trabalho de parto. Devido à bolsa rota, o parto foi induzido, com a possibilidade de Lara escolher a medicação que preferia para o procedimento, enquanto o profissional responsável pela indução reclamava de suas escolhas.

Mesmo com um plano de parto pré-estruturado, Lara foi incentivada a assinar outros documentos que mudariam o rumo do seu parto. Recusou episiotomia. A equipe médica lhe negou o direito de aumentar a analgesia, mesmo após frequentes pedidos para amenizar as dores. Negra e gorda, quando disse não aguentar mais, ouviu que “mulheres como ela costumam conseguir parir”. Zombavam dela no outro lado da sala e diziam que ela nem sabia o que fazer.

A negação de direitos

Depois de 18 horas de bolsa rota, apesar da dilatação, Lara não tinha mais força para empurrar a filha. Encaminhada para uma cesárea de emergência, não deixaram o marido a acompanha. Fizeram procedimentos que ela não havia autorizado, como o colírio de nitrato. A profilaxia com o nitrato de prata a 1% é prática rotineira desde 1977 devido a um surto de cegueira em bebês.

Hoje, a utilização do composto gera discussões no campo da saúde pelo colírio poder causar conjuntivite tóxica e existirem outras possibilidades de profilaxia, mais atualizadas e com menos efeitos colaterais. aplicado nos olhos do recém-nascido. E negaram a golden hour, com a criança indo diretamente para a UTI mesmo sem evidências de real necessidade. Entre o desrespeito da equipe de enfermagem e de outros profissionais médicos, a pediatra de Lara, também uma mulher negra, teve que ir ao hospital e brigar para que fizessem o mínimo: respeitassem a mãe e seu bebê.

Dores físicas e emocionais

A bebê está bem, mas Lara foi afastada do trabalho e passou a realizar acompanhamento psicológico devido à ansiedade. Seu parceiro, um homem negro retinto, também buscou ajuda terapêutico. Sentindo muita culpa, ele conta que teve medo de reagir e fazerem mais mal à esposa. Além da ansiedade, Lara continua sentindo dores na região da cesárea, mesmo após três anos do procedimento, mas não teve coragem de ir ao médico para investigar melhor.

“Uma enfermeira que debochou de mim começou a colocar uma sonda na minha filha, na minha frente, pelo narizinho. De repente, arrancou e enfiou na garganta dela. Eu nunca vou esquecer aquela cena. Ainda sinto muito ódio dessa mulher, muito.”

Dados sobre a violência obstétrica

stima-se que uma em cada quatro gestantes já foi vítima de violência obstétrica, segundo a pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços públicos”, de 2010, conduzida pela Fundação Perseu Abramo e pelo Sesc. No sistema público, a porcentagem de vítimas de maus-tratos no parto chega a 45%, enquanto 36% das mulheres relatam ter passado por tratamento inapropriado, segundo dados do projeto “Nascer no Brasil”, coordenado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz.

Quando a frustração no parto começa dentro de casa

Sem apoio de ninguém, Ísis* planejou um parto normal – durante a gestação, sofreu violência física e psicológica do genitor e de sua família. As consequências foram múltiplas: descontrole da diabetes gestacional, restrição de desenvolvimento fetal, risco de pré-eclâmpsia e trabalho de parto prematuro. Apesar das complicações, a bolsa estourou com 37 semanas, mas o trabalho de parto não progrediu e acabou virando uma cesariana. Nascido com uma bactéria no pulmão, o bebê saiu direto da barriga para a UTI e só foi amamentado no quinto dia de vida. 

O que restou para Ísis foi um grande sentimento de culpa e arrependimento. “Não tive tempo de processar o que aconteceu, foi tudo muito rápido. Hoje não me sinto uma ‘boa’ mãe. Sinto que não aproveitei a gestação e esse tempo não volta mais”, conta.

Após o parto, sofreu mais violências por parte do companheiro, de quem, felizmente, conseguiu se desvincular. “Mesmo que seja muito difícil, aos poucos a vida vai voltando ao normal e tudo vai se encaixando.”

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“Não tive tempo de processar o que aconteceu, foi tudo muito rápido. Hoje não me sinto uma ‘boa’ mãe. Sinto que não aproveitei a gestação e esse tempo não volta mais”

“Muitas mulheres relatam abusos, desrespeito, ofensas e maus-tratos tanto durante a gestação quanto no pós-parto e na execução dos procedimentos ao abordá-las nas instituições de saúde. A violência obstétrica é mais uma das formas de violência de gênero e as mulheres negras a vivenciam com maior frequência e intensidade”, comenta a psicóloga e psicanalista Tatiane Zaram. Com ênfase na perinatalidade, sua atuação vai da gestação ao pós-parto, oferecendo escuta atenta à individualidade de cada mãe – papel que doulas, demais profissionais da saúde e outras pessoas que acompanham a gestante também devem exercer, cada um à sua maneira.

Violência contra mulheres negras

“Pesquisas apontam que mulheres negras são menos assistidas em pré-natal, recebem menos anestesias para o parto e morrem mais de doenças ginecológicas e na hora do parto”, aponta Zaram. Por este motivo, a profissional recomenda mais atenção quando realizado o processo terapêutico perinatal, principalmente com relação aos cuidados voltados a mulheres negras, para que possam acessar e usufruir dos serviços de saúde em condições igualitárias.

Foi o alto número de casos de violência obstétrica contra mulheres negras que fizeram Mariana Pimentel começar um curso simples de doulagem, nas oito semanas de gravidez. Após seis meses de retorno ao trabalho, foi acometida por um burnout, que a fez largar tudo para virar doula de maneira integral. 

Pimentel explica que as famílias aprendem sobre a frustração no parto nas consultas de educação perinatal, mas que o atendimento hospitalar na hora do parto é uma roleta russa, e pode ou não respeitar os direitos da parturiente. Se o acompanhante não estiver engajado para impor o respeito, os cenários podem mudar drasticamente.

“Não há exemplo maior de manter os pés no chão do que em um plantão de hospital onde 70% dos bebês nascem por via cirúrgica”

Entre os partos normais e as cesárias

Quando as mães planejam um parto normal e acabam precisando de cesarianas, a doula conta que surgem frases como “onde eu errei?” e “será que isso aconteceu porque eu pedi analgesia e o bebê não se sentiu bem com o fármaco?”. Mariana explica que o papel da doula neste momento é acolher as mães para que elas não se sintam fracassadas caso o parto via vaginal fuja do esperado, e lembrá-las de que fazem parte dos 15% de mulheres que vão precisar de uma cesárea por indicação real. 

O caso de Adriane* sintetiza bem como a culpa e a frustração no parto andam de mãos dadas: em um trabalho de parto que demorou 36 horas, ela foi informada apenas no final de que seu filho não estava em posição adequada para sair via vaginal, além dos batimentos cardíacos da criança terem subido a ponto de demandar uma cesárea de emergência. Devido à uma perda gestacional um ano antes do nascimento do filho, salas de cirurgia são o ambiente em que Adriane menos queria estar, fazendo com que sua experiência de parto, por muito tempo, se resumisse a meros flashes na memória que ela gostaria de esquecer. 

“Quando comecei a pensar no que tinha acontecido, a frustração ficou muito grande. Será que eu fiz tudo o que eu precisava fazer? A culpa foi minha? A gente arruma coisas na cabeça pra tentar entender aquela frustração”

O parto deve ser respeitado

“Ainda na gestação, precisamos ensinar que nada está sob nosso controle: ser mãe é perder totalmente o controle. Nosso papel é tentar tornar aquele momento o mais respeitoso possível, explica Pimentel. Mas em um país cesarista como o Brasil, existem situações que vão além do exercício da doulagem: “Se mesmo assim é escolhido um hospital com altos números de cesáreas, restrição de dieta para parturiente ou relatos de violência neonatal, não há muito o que fazer. Tornamos o processo o mais acolhedor possível, mas nós doulas não podemos ter o desejo maior que a mulher que está ali sendo assistida”, conta.

“Hoje já não me culpo, compreendo que fui vítima. Fiz tudo o que pude, a ponto de adoecer emocionalmente. E que este é um sistema antigo, sólido e machista – não serei eu, sozinha, a transformá-lo”, diz Déa Aguiar.

O Estado precisa agir

Para além da ajuda individual, o amparo materno também deve vir da estrutura. “É preciso que o Estado e seus agentes considerem as demandas específicas das mulheres, o que implica tomar o racismo, o sexismo e a exploração de classe como fatores que dificultam ou impedem o acesso pleno à saúde – ainda mais com 66% das vítimas de violência obstétrica sendo negras”, finaliza Zaram. 

Fui vítima de violência obstétrica. Como denunciar?
É possível realizar denúncias no Ministério Público Federal, no Conselho Estadual ou Municipal de Saúde, no Ministério da Saúde (136), pelo Disque Denúncia de Violência contra a Mulher (180), na ouvidoria do hospital, e nos conselhos profissionais, como o Conselho de Classe dos Médicos (CRM) e o Conselho Regional de Enfermagem (Coren). Em Estados que definem esse tipo de violação, os ministérios públicos estaduais também podem ser acionados.

*Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas. Optamos também por não revelar seus nomes completos para garantir sua privacidade e proteção.

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