Santa Cruz do Sul

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Como foi?

Veja o que aconteceu

Como criar um espaço livre para a criança SER na escola, na família e no território?

Essa foi a pergunta guia.

No território

Com mediação da jornalista Mayara Penina, Jorge Hoelzel e Fernanda Poletto ampliaram a noção de território para lembrar que aprendemos em todos os espaços que ela ocupa. “O território da infância nunca é passado, ele sempre é presente e está disponível para nós”, disse a educadora Fernanda. Para ela, é na infância que está a nossa potência. “Cuidar da primeira infância é fazer transformação social, no maior sentido da palavra: de transcendência. Cada criança que nasce é um inédito viável, como dizia Paulo Freire”.

A partir da experiência como facilitador da Mercur, Jorge pontuou a importância de desconstruir a ideia de que devemos ser apenas seres produtivos, e de nos reconectarmos com a humanidade de cada um. “O modelo em que nós vivemos não foi criado pela maldade, foi criado pelo engano. Então, é importante falar não só da educação da criança, e sim da nossa reeducação como adultos”, disse. “Precisamos construir um jeito novo de pensar e um modelo de viver que caiba na nossa vida – não só nas vidas daqueles que decidem as coisas, e sim na vida de todo mundo.”

“Como educadora, eu me faço perguntas, e essa é a precisão mais exata de estar nesse outro tempo, que é o tempo da aprendizagem e da infância”

– sugeriu Fernanda.

Na família

Conduzidos pela jornalista Renata Penzani, o psicólogo familiar Alexandre Coimbra Amaral e a doula e ativista Verônica Christimann conversaram sobre esse que é o primeiro espaço de formação de um indivíduo, mas logo de início já convidaram a refletir: que família é essa? Não existe uma única forma, por isso a palavra deve estar sempre no plural.

Para Alexandre, ao contrário do que nos ensinam, “a família não é a base de tudo”. “Quando dizemos isso, estamos dizendo que uma criança que nasce em um lar violento não tem nada”. “A família é o prefácio da comunidade. o que a vida não nos oferta, a gente inventa. Dizer que só a família tem que dar conta de tudo é opressor”.

Verônica trouxe sua experiência na doulagem para relembrar que precisamos romper com o mito da mãe e do pai perfeitos a partir de uma parceria igualitária entre homens e mulheres.

“O que eu vejo é uma busca desesperada pela maternidade perfeita, mas extremamente solitária”. Então, o que falta para a mulher também ser cuidada? Para Fernanda, é diálogo. “Eu sempre falo isso antes do parto, precisa falar o que precisa para que as pessoas participem. Essa questão um pouco leoa da mulher que dá a luz centraliza tudo, e assim ela acaba instintivamente tirando o companheiro do cenário. O que eu digo é permita, não critiquem o colo da vó, deixa o pai fazer a criança dormir. A única coisa que os outros não podem fazer pela mãe é amamentar, o resto todo podem.”

Para Alexandre, a mulher sente-se oprimida por achar que precisa ser como aquela da propaganda. “Maternidade é suor, sangue, xixi e cocô”. Então, o convite que fica é: vamos nos reconciliar com a nossa imperfeição?

Na escola

Não estava no script do evento, confessamos, mas as crianças tomaram o protagonismo da última mesa. Afinal, nada melhor do que elas mesmas para contar como é SER na escola.

Os estudantes Alisson Alexandre Silva e Ketlyn Vieira declamaram poemas de empoderamento contra o racismo, e emocionaram com palavras de luta, afeto e resistência. Os educadores Fernando Leão e Larisse Moraes seguiram o caminho dos pequenos e falaram sobre o papel de cada um na promoção de uma educação antirracista.

A palavra professor tem a mesma raiz etimológica de profeta, professar, ou seja, o professor é aquele que fala. Mas uma das chaves para a desconstrução é o professor professar menos; quando menos ele falar, e mais ele ouvir os seus estudantes, mais ele se transformará em um orientador, um tutor, um aprendente junto com os estudantes”, explicou Fernando, que durante anos foi coordenador pedagógico da Escola Vila Verde, em Alto Paraíso (GO) acredita que espaço para a criança ser já existe, o máximo que a escola pode fazer é não interferir em sua criatividade, imaginação e liberdade.

Larisse apresentou as produções das crianças e jovens do projeto Afroativos, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint’Hilaire, de Porto Alegre, como o Calendário Afro e o Guia Prático Antirracista. Ela questionou: “como falar de infância hoje se muitas infâncias no Brasil são negadas?”. Por fim, a professora fez uma defesa de uma pedagogia pautada nos ouvidos atentos e críticos. “Ouvir as crianças, provocar, desacomodar, estimular, acreditar faz toda a diferença.

Assista ao vídeo do evento

Nossos Convidados

Foto em escala de cinza do rosto de Alexandre Coimbra Amaral

Alexandre Coimbra Amaral

É psicólogo e terapeuta familiar. Colunista do Lunetas e do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Atua como facilitador de cursos e workshops pela desconstrução do machismo.

Foto em escala de cinza do rosto de Verônica Varela

Verônica Varela

Mãe do Thiago, educadora e idealizadora do projeto "Afroativos: solte o cabelo, prenda o preconceito", uma proposta de educação antirracista pautada no empoderamento, conscientização e transformação através do processo de afrobetização. A iniciativa é desenvolvida na EMEF Saint'Hilaire, bairro Lomba do Pinheiro em Porto Alegre (RS).

Foto em escala de cinza do rosto de Verônica Christimann

Verônica Christimann

Doula, criadora de conteúdo no @cafecomfraldas, mãe da Helena de 15 anos e da Maria Clara de 3 anos, trabalha pela mulher e para a mulher.

Foto em escala de cinza do rosto de Fernando Leão

Fernando Leão

É historiador e vem atuando na educação nos últimos 30 anos. É vice-presidente do Instituto Caminho do Meio, e faz parte da Comunidade Ativadora do Programa Escolas Transformadoras desde 2015.

Foto em escala de cinza do rosto de Jorge Hoelzel

Jorge Hoelzel

Atua na Mercur S.A. desde 1986, integrou diversas áreas da empresa e, atualmente, é membro do Conselho de Administração e Facilitador da empresa.

Foto em escala de cinza do rosto de Fernanda Poletto

Fernanda Poletto

É pedagoga, crianceira, educadora popular e poeta de infância. Pós graduada em Educação Popular e Movimentos Sociais. Foi coordenadora pedagógica da Escola Janela, em Cavalcante (GO). Fundadora do projeto de educação infantil livre com a natureza "Pomar de Infância" em Timbaúva (RS).

O Evento

O Lunetas Avista surgiu a partir de uma vontade de ampliar os olhares, ser plural, conhecer de perto as infâncias do Brasil, e fazer a conversa que o portal faz virtualmente, porém ao vivo. O objetivo é reunir qualquer pessoa interessada na temática da infância, conversar e compartilhar experiências, em um espaço de acolhimento e trocas.

Não é uma palestra convencional e sim um diálogo onde todo mundo tem tempo para falar e ser ouvido.

Hoje em dia fala-se muito das crianças como um símbolo do futuro, como a possibilidade de transformação da sociedade. Sim, é claro que elas são os adultos de amanhã. Mas é também verdade que muitas vezes essa afirmação faz com que nos esqueçamos de suas necessidades, vontades e sua potência de transformação no presente. Elas são o presente.

Como nós, adultos, a aldeia inteira necessária para cuidar de uma criança, podemos propiciar um ambiente seguro para que elas apenas “sejam”?

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