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Festa junina: a tradição que ajuda crianças a construir identidade

Balões e enfeites coloridos de festa junina pendurados em um varal.

Na “capital do forró”, a cidade de Caruaru, em Pernambuco, conhecida como a “Princesinha do Agreste”, a festa junina toma conta das ruas, praças e escolas durante os meses de junho e julho. A celebração é uma tradição que faz parte da identidade local — algo que os estudantes aprendem a valorizar desde cedo e do qual se orgulham.

Na Escola Municipal Landelino Rocha, localizada na Vila Peladas, zona rural da cidade, essa conexão com a cultura popular ganha ainda mais força nesse período do ano. Em junho, além da festa junina, a comunidade recebe os “bacamarteiros”, que são grupos organizados em batalhões que celebram os festejos juninos através de visitas às casas da comunidade com música, dança e banquetes compartilhados. Um momento muito esperado e celebrado na vila.

O diretor da escola, Marrone Lima, explica que essa tradição é passada de geração em geração, envolvendo desde idosos até crianças — os bacamarteiros mirins —, e representa um profundo sentimento de ancestralidade e orgulho local. “A comunidade de Peladas para no tempo para vivenciar o mês de junho, os bacamartes investem em roupas e acessórios e passam o ano todo se preparando para o evento.”

Bacamarteiros adultos e mirins carregam imagens de santos durante os festejos juninos em Caruaru (PE). Crédito: Lucas Luis

Mas as quadrilhas tradicionais também têm vez na vila, principalmente entre os alunos do 6º ano da Escola Landelino Rocha. “Neste ano tivemos mais de 40 pares de crianças, foi uma quadrilha arretada, os meninos gostam de dançar até suar”, conta Marrone.

Já os alunos maiores, preferem um “forró estilizado”. “O que está em alta no Nordeste é o forró de vaquejada, mas nunca deixamos de ter a quadrilha tradicional.” Outro ponto alto da cidade neste período é a produção das comidas típicas juninas em uma versão gigante. Em Vila Peladas eles produzem a canjica.

Orgulho e representatividade

Tantos símbolos, costumes e celebrações são motivo de orgulho para Marrone e para toda a Vila Peladas. Segundo ele, os estudantes enxergam essas tradições como expressões de cultura, força e representatividade, uma perspectiva que nem sempre é compartilhada por quem vê o Nordeste de fora.

“Os nordestinos eram representados nos filmes e nas novelas como pessoas com um sotaque forte, que não têm sabedoria. Mas os jovens não pegam essa imagem para eles não, só ficam com a parte boa”, diz.

Sob as bandeirinhas, batalhão de bacamarteiros percorre a praça durante os festejos juninos em Vila Peladas, Caruaru (PE). Crédito: Lucas Luis

Imagem ultrapassada e errônea

No passado, personagens caricatos no cinema e na literatura acabaram contribuindo para consolidar uma visão estereotipada do homem do campo como “preguiçoso, ingênuo e pouco instruído.” As festas juninas, por sua vez, incorporaram essa figura de forma simplificada e muitas vezes exagerada, com elementos visuais e linguísticos que ridicularizam o modo de vida rural, como explica o cientista social Luciano Gomes dos Santos.

“Esse tipo de representação desconsidera a diversidade e a complexidade das culturas rurais brasileiras, que são marcadas por saberes próprios, práticas sustentáveis e formas de organização social ricas e diversas”, explica Luciano. “Ao perpetuar essa imagem, a festa deixa de ser um espaço de valorização cultural e passa a reproduzir preconceitos historicamente enraizados”, complementa o cientista social que também atua como professor universitário.

Preconceito da ‘não vivência’

A perspectiva caricata do homem do campo é resultado principalmente da “não vivência”. Até porque esse “caipira” usa as melhores roupas quando vai a festas e as celebrações têm elementos muito ricos, vistosos e brilhantes, como diz a professora de música e mestranda de Educação Musical, Rosana Araujo.

Ela leva para a sala de aula no Colégio Equipe, em São Paulo, não só a teoria, mas a experiência de quem viveu no interior de São Paulo.

“Tinha uma vizinha que era uma doceira que fazia promessa para santo Antônio e todo dia 13 de junho tinha festa no quarteirão. Quem colhia milho se juntava para fazer pamonha”, lembra. Rosana diz que em capitais São Paulo, as tradições são descontextualizadas, por isso ela traz histórias, lendas e significados para aproximar os alunos.

Além disso, ela construiu um currículo anual que expande o universo da cultura popular além do contexto junino, com conteúdo sobre maracatu, congada e o coco de roda em um trabalho que envolve os professores de outras disciplinas.

“Quando chega a época junina, esses elementos vêm à tona e os alunos estão apropriados, vira uma brincadeira contextualizada”, conta Rosana. “É algo que vai além da música, é a compreensão das letras, dos ritmos e das melodias. Há um despertar da curiosidade.”

O poder das escolas

As escolas têm um papel fundamental na ressignificação das festas juninas como espaços educativos e culturais. Pesquisas sobre as diferentes celebrações nas regiões brasileiras, tradições como a culinária, danças e músicas são saberes populares que permitem que os estudantes compreendam a festa como um patrimônio cultural vivo, como reforça Luciano.

O cientista social sugere, ainda, a aproximação com a realidade rural contemporânea ouvindo convidados, relatos, vídeos ou estudos de caso como forma de favorecer uma aprendizagem mais significativa. Para ele, as festas juninas podem ser oportunidades para espaços de diálogo, respeito e valorização cultural, contribuindo para a formação de cidadãos mais críticos e conscientes, capazes de reconhecer e respeitar a diversidade que compõe a sociedade brasileira.

“Também é fundamental discutir com os alunos o porquê de certas representações serem problemáticas, promovendo uma reflexão crítica sobre preconceito, desigualdade e diversidade cultural”, finaliza.

‘Demonstração de força e pertencimento’

Em Caruaru, o diretor Marrone observa uma mudança na forma como as novas gerações se relacionam com símbolos historicamente associados à vida no interior nordestino. Para ele, elementos que antes poderiam ser vistos como caricaturas ou representações estigmatizadas hoje são apropriados pelas crianças como parte de sua identidade cultural. “Eles não enxergam isso como algo que os diminui ou os humilha. Pelo contrário, veem como uma demonstração de força e pertencimento”, afirma.

Morador da zona rural de Pernambuco, o educador destaca que a realidade atual é diferente daquela vivida por gerações anteriores. “Hoje temos acesso a muitas coisas que antes eram mais difíceis. As crianças conhecem essa história, mas não se identificam com uma ideia de carência. Elas valorizam suas origens e suas tradições”, diz.

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