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  • Publicado em: 20.02.2019
  • Atualização: 25.02.2019

Fomos educados para acertar e, muitas vezes, acabamos ensinando as crianças a temerem o fracasso e o erro. Na contramão deste pensamento, hoje em dia, muitas escolas e educadores entendem o erro como parte da vida e o aproveitam na construção de aprendizagem de crianças e jovens. Foi para conhecer estas experiências que o Lunetas contatou cinco educadores brasileiros para compartilharem suas práticas com o erro na educação.

Lunetas e a Mercur se uniram nesta parceria para trazer uma reflexão urgente: acreditamos em uma educação para a vida, vinculada com as questões da vida. E o erro faz parte dela, podendo ser usado para dar dar início a novas práticas educativas de uma aprendizagem significativa.

A professora de Ensino Fundamental Márcia Murillo exemplifica dizendo que, ser professor nos dias atuais, requer abertura a este mundo complexo, interligado e conectado. “Não nos cabe mais, enquanto professores, desconsiderarmos essas tentativas. Mas isso não quer dizer que ‘vale tudo’, ou que o ‘erro’ será considerado como certo. Requer valorizar o percurso de aprendizagem a partir das tentativas de cada um, respeitando o tempo de aprendizagem e o percurso”, esclarece.

Nesta perspectiva, muitas escolas estão se preocupando com a discussão sobre o conserto dos erros, considerando também as respostas dos estudantes, valorizando diversas formas de resolução para um mesmo problema, tentando mostrar os erros como naturais, utilizando-os como instrumento didático, como forma de trabalhar e avançar no processo de aprendizagem.

“O erro só acontece quando o aluno, em maior ou menor medida, se entrega ao processo e confia no que nós professores propomos a ele”, compartilha o professor Cléssio Bastos, que dá aulas em uma escola municipal na zona rural de Goiânia (GO).

A consultora em Educação Tonia Casarin, especialista em educação emocional, afirma que, ao ensinar as crianças a temerem o fracasso e o erro bloqueamos o caminho mais seguro e claro para o sucesso delas, privando-as das mais importantes lições da infância.

“Existe um lado de proteção nessa forma de agir com as crianças, não queremos vê-los frustrados por não conseguirem ou por não acertarem.

“Mas a frustração é um sentimento importante, semente para a persistência.”

Os erros, falhas e fracassos que tiramos do caminho das crianças são as próprias experiências que os ensinam como ser cidadãos talentosos, persistentes, inovadores e resilientes deste mundo”, explica. Portanto, o erro é uma oportunidade de aprendizagem em cada momento. E tratá-lo de forma natural e estratégica de como aprender com eles é fundamental para as que possamos continuar aprendendo.

Confira a conversa que tivemos com educadores para entender como eles lidam com os erros na prática com as crianças

Confira!

Cléssio Bastos

Graduado em Letras e Mestre em Crítica Literária. Atualmente é professor da rede municipal de educação de Goiânia, onde ministra aulas de Língua Portuguesa e Inglesa em uma escola rural 25km distante do centro da cidade, a Escola Municipal de Tempo Integral José Carlos Pimenta.

Lunetas: Na sua prática profissional você entende o erro como oportunidade de aprendizagem e construção de conhecimento? Por quê?

Como professor eu entendo o erro como sendo a grande oportunidade de construir o aprendizado. Primeiro porque o erro já é o aluno em movimento, é ele te dizendo de onde está partindo e até onde consegue ir, do erro, nós professores conseguimos diagnosticar, às vezes perceber que o aluno já está de posse das informações necessárias mas que precisa organizá-las, ou que possui uma boa capacidade de organizar as informações mas que ainda lhe falta uma ou outro dado específico para chegar a uma conclusão ou à construção de algo. Enfim, com uma boa medida de sensibilidade e empatia para ajudar o aluno a não ter medo de errar, a gente consegue fazer do erro a grande commodity do processo de construção do conhecimento.

“O erro só acontece quando o aluno, em maior ou menor medida, se entrega ao processo e confia no que nós professores propomos a ele.”

Lunetas: Na escola em que você atua, como você lida com as provas e a correção delas?

80% das nossas avaliações são corrigidas em sala com e pelos alunos. Eu, da frente da sala lidero a correção, refaço com eles as questões no quadro, sem dar as respostas, elas vão vindo pelos próprios alunos através de questionamentos que vou propondo até que eles mesmos cheguem a resposta certa. Eles, por sua vez, vão refazendo a avaliação no caderno aperfeiçoando suas respostas.

Ainda é bem difícil pra mim a correção de avaliações tradicionais, pois elas são culturalmente centradas no erro, percebo isso pela reação dos alunos e até de nós professores e, principalmente dos pais. Mas de todo modo, elas também ajudam a criar estratégias a partir do erro, o grande problema, pra mim, é que o erro que o aluno comete durante uma atividade normal no dia a dia da aula é mais genuíno que o cometido na avaliação, muitas vezes o erro cometido na avaliação fala mais do estado de espírito do aluno que da relação dele com o conhecimento que está sendo avaliado ali.

Tônia Casarin

Professora de pós-graduação do Instituto Singularidades de São Paulo, consultora em Educação e trabalha em parceria com Stanford University em projetos de FabLearn Lab, no Rio de Janeiro. Tonia escreveu o livro “Tenho Monstros na Barriga“, uma ferramenta para as crianças aprenderem a identificar as próprias emoções.

Lunetas: Mediante o erro do estudante, o que você acha que professor deve fazer para contribuir na construção do conhecimento do estudante? Qual é o papel do educador mediante o erro?

Antes de tudo, a sala de aula deve ser um ambiente seguro para o erro. Se a sala de aula é um ambiente propício ao erro, é muito mais provável que as crianças assumam riscos acadêmicos e emocionais na escola. Além disso, a relação de conexão com os professores é fundamental. Como falei no TEDx Petrópolis, a afetividade está diretamente ligada ao aprendizado. E essa conexão ajuda a criar esse ambiente seguro para os alunos.

Além disso, o professor deve ser o exemplo. Contar histórias em que ele errou, se atrasou, ou falhou, ajuda a aumentar a conexão e a mostrar que ele também erra. O professor pode contar o que ele aprendeu com aquele erro e pedir inclusive, por exemplo, para os alunos fazerem uma redação sobre um erro deles e o que aprenderam com aquele erro.

“A vulnerabilidade do professor é fundamental para conectar com os alunos e estabelecer um relacionamento seguro e honesto em sala de aula.”

Também é importante estabelecer expectativas de comportamento, padrões e caráter claras com os alunos, com estratégias de gestão de sala de aula. Quando um erro acontecer, ter certeza que o aluno que errou não seja motivo de “chacota” perante a turma é muito importante. Muitas vezes, o desafio está em mudar a cultura dos alunos naquela sala. Por medo de errar ou parecer limitados, muitos não perguntam e nem tiram dúvidas na sala, o que acarreta o não aprendizado deles. Além disso, quando algum aluno tem coragem de fazer uma pergunta, mas seus colegas fazem bullying com ele, a tendência é ele não participar mais da aula.

Lunetas: Muitas vezes, os estudantes têm medo de falhar e por isso não são receptivos a novas ideias. Isso é verdadeiro? Como você sugere lidar com isso?

Os erros são parte integral da aprendizagem. Se as crianças tiverem pavor de cometer erros, elas evitarão arriscar em detrimento de seu aprendizado e crescimento pessoal. Existem alunos mais abertos a novidades do que outros. Naturalizar o processo do erro é fundamental. Porém, nem sempre estar abertos a novas ideias é sinal de medo de errar. Pode se dar por uma ansiedade social, por exemplo. Nesse sentido, entender a causa raiz da não receptividade a novas ideias é fundamental para endereçar da melhor forma.

Márcia Murillo

Pedagoga, leciona para o Ensino Fundamental II na Escola de Educação Básica Educar-se, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul

Lunetas: Muitas vezes, os estudantes têm medo de falhar e por isso não são receptivos a  novas ideias. Você sente isso com suas turmas? Como você trabalha isso em sala de aula?

O medo existe sim. Por diferentes motivos. Muitos acredito que se constituam a partir das exigências sociais que fizemos as crianças. Exigências e pressões sociais, tais como, uma criança pequena chegando a um primeiro ano, perguntas que ela escuta: “Você já sabe ler?” – “Você ainda não está lendo?” – “Como você ainda não lê?”. Dentre outras tantas. Fiz apenas um recorte. São perguntas sem má intenção, mas que acabam colocando a criança num lugar de necessidade de dar conta de algo. Logo, pode apresentar medos referentes a aprendizagem. O modo que falamos com os estudantes, as cobranças que fizemos com/sobre eles, tudo vai constituindo uma demanda que eles precisam mostrar. As exigências das famílias, dos próprios colegas (brincadeirinhas, deboches) enfim, tudo pode configurar situações/sentimentos de medo por parte do estudante, da criança.

Lunetas: Mediante o erro do estudante, o que você acha que professor deve fazer para contribuir na construção do conhecimento do estudante? Qual é o papel do educador mediante o erro?

Diálogo, sempre! Além da postura de mediador desta aprendizagem. Mediador enquanto aquele que acompanha, que está em companhia de seus estudantes. Acompanhar pressupõe estar junto, logo, é sinalizar, mostrar outras formas de se chegar ao mesmo lugar, é oferecer novas alternativas para que o estudante entenda de outra maneira. Utilizar outro recurso: jogo, vídeo, desenho. Ou, ainda se amparar na ajuda dos pares – outros estudantes – na construção desta aprendizagem.

Carlos Eduardo Fernandes Júnior e Patrícia Andréa Toledo Borges

Coordenadores pedagógicos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Infante Dom Henrique

Lunetas: Como vocês lidam com as provas e a correção delas na escola?

É fundamental que ela aconteça imediatamente após a resolução dos estudantes, pois é a partir da compreensão de seus erros junto de sua comunidade que o grupo procurará novos caminhos para as aprendizagens.

Lunetas: Muitas vezes, os estudantes têm medo de falhar e por isso não são receptivos a novas ideias. Como é possível trabalhar isso em sala de aula?

Este medo não é apenas dos estudantes. Este é um medo de todos os que vivem. Num mundo onde o erro significa o fracasso é preciso diálogos permanentemente sobre isso. Dentro e fora da escola. Todos juntos, pais, estudantes, responsáveis, docentes, gestores e administração pública; devem cotidianamente conversar sobre os processos que criam e que podem ser potencializados com a diversidade do mundo escolar. Os professores em sala de aula, em diálogo com uma cultura de quem aprende em comunidade podem criar sempre novas formas superarmos o que a sociedade julga como improdutivo. A escola pode ser o atravessamento destes discursos para a criação de outras formas de viver e aprender. A escola não pode tudo, mas pode muito!

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Resumo

"Ao ensinar as crianças a temerem o fracasso e o erro bloqueamos o caminho mais seguro e claro para o sucesso delas, privando-as das mais importantes lições da infância", afirma a educadora Tonia Casarin, especialista em educação emocional.
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