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Por mais igualdade, meninos e meninas aprendem a cuidar de bebês

De um lado, as meninas aprendem que o papel de cuidar não é só delas. Do outro, os meninos aprendem a ser pais presentes. Conheça o projeto, implantado em Goiás
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  • Publicado em: 13.03.2017
  • Atualização: 25.11.2018
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Desconstruir os padrões normativos de gênero entre as crianças. Há muitos anos, este tem sido o norte do trabalho da pedagoga Caroline Arcari. Reconhecida pelo trabalho à frente do Instituto CORES, da Escola de Ser, e pelo livro “Pipo e Fifi”, que trata a questão do abuso sexual contra crianças, ela cria agora, ao lado da psicóloga Nathalia Borges, o curso “Princesas de capa, heróis de avental”.

A ideia, conta ela, é trabalhar a questão de gênero por uma perspectiva lúdica, a partir do tensionamento dos papéis atribuídos aos personagens masculinos e femininos dentro das histórias infantis.

O nome do projeto propõe uma inversão dos papéis de gênero da forma como os conhecemos, e defende que tudo aquilo que dita um comportamento ou reforça um padrão constrói um modelo engessado de comportamento. As coordenadoras do projeto acreditam que os espaços educativos devem investir na emancipação de meninas e meninos para que desenvolvam pensamento crítico e façam escolhas conscientes no futuro.

Uma escola pela igualdade entre meninos e meninas A Escola de Ser, no interior de Goiás, foi destacada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) como instituição pioneira no país a trabalhar com crianças a partir de seis anos temas como feminismo e desconstrução do machismo, possui como diretriz o objetivo de promover equidade entre os gêneros.

Os impactos da desigualdade na infância

Quanto ao machismo ser nocivo tanto para meninas quanto para meninos, Caroline conta que tem sido mais fácil trabalhar a desconstrução de estereótipos com o público feminino.

“Trabalhar essa temática com meninas é mais simples pois nas discussões e atividades elas ganham autonomia, se empoderam sobre o seus corpos, se veem mais capazes de tomar decisões independente da opinião alheia e também se sentem acolhidas em suas angústias e denúncias”, explica.

“Por outro lado, ao se trabalhar igualdade com os meninos, eles ‘perdem’ coisas – perdem privilégios, perdem poder, deixam de ser legitimados por comportamentos opressivos que são tidos como da personalidade masculina”, explica Nathalia Borges

Algumas das atividades do curso são inspiradas no livro “Heróis super suaves”, de Linnéa Johansson, que traz figuras marcantes do imaginário infantil executando tarefas domésticas para instigar uma reflexão sobre a inversão de papéis de gênero. A artista fez uma parceria com a instituição e cedeu todos os direitos do livro ao projeto.

“Meninas devem ser o que elas quiserem. Antes empoderar princesas (se essa for uma vontade na fantasia das crianças), do que ‘desprincesar’ e criar um novo padrão”

“Meninas podem ser cientistas, esportistas, engenheiras, cozinheiras e até princesas. O princípio mais fundamental dos direitos delas deve ser respeitado: a liberdade de serem o que quiserem”, defende Arcari.

“Quanto mais experiências enriquecedoras em todas as áreas as crianças tiverem, meninos e meninas, mais chances de ter um desenvolvimento pleno e feliz”

A capa do projeto "Princesas de capa, heróis de avental"
Divulgação/Escola de Ser

O curso é um projeto da Escola de Ser, de Goiás.

O curso é online e à distância, e a primeira turma iniciou no dia 15 de fevereiro, com materiais, atividades e metodologia própria, e trabalham questões como:

  • Feminismo é o contrário de machismo?
  • Questões de gênero e suas aplicações em espaços educativos
  • Breve história sobre a luta pelos direitos das mulheres
  • Como as crianças sofrem com o machismo?
  • Novas masculinidades para os meninos

“O objetivo é estimular o pensamento crítico, enfrentar o machismo, as desigualdades e as violências e criar metodologias acessíveis para a promoção da reflexão em atividades dirigidas para meninas e meninos com idades entre seis e 14 anos”, conta.

Leia a entrevista com as coordenadoras do curso

  • Lunetas – Qual a maior dificuldade encontrada na hora de colocar em prática o pensamento da desconstrução da normatividade? Os pais ainda oferecem resistência quanto a essa desconstrução?

Caroline Arcari e Nathalia Borges – Com as crianças, praticamente não encontramos resistência  na hora de trabalhar o livro das possibilidades e os conteúdos sobre relações de gênero. Em nossa  prática, percebemos que os adolescentes do gênero masculino tinham uma certa resistência ao se trabalhar as atividades contrariamente percebemos também que com as adolescentes gênero feminino o trabalho era fluído.

Em relação aos adultos, em nossas experiências, não encontramos dificuldades, uma vez que as pessoas que nos procuram para o curso já possuem interesse na temática, assim como os responsáveis das crianças e adolescentes que frequentam a escola. Os pais, as mães e outros familiares  são maleáveis em relação às oficinas e até mesmo gostam  que o filho ou a filha tenham contato com essas discussões.

Contudo, reconhecemos que uma das maiores dificuldades de se trabalhar as questões de gênero é a resistência e o preconceito  de grande parte dos adultos como essas pessoas estão inseridas em todas as instituições (escolas, igrejas, hospitais, empresas, órgãos de assistência), são elas que decidem o que vai ser ensinado ou oferecido ao público infantojuvenil.

“Consideramos que uma das maiores dificuldades  de se trabalhar com as questões de gênero é a lógica machista da sociedade”

  • Lunetas – Estudos já demonstram que o Brasil é o pior país da América do Sul para ser menina. Para você, qual o maior entrave de ser menina no Brasil?

Caroline Arcari e Nathalia Borges – O maior entrave são as violências praticadas contra meninas, fruto da desigualdade social, do racismo e do machismo.  Esses fatores geram desigualdades na distribuição e exercício do poder. Argumentamos que, embora existam diferenças biológicas entre meninos e meninas, elas não podem resultar em direitos sociais desiguais. Mas,infelizmente,ainda é isso o que acontece.

Em determinadas condições sócio-histórias, como a da nossa sociedade atual, as diferenças são transformadas em desigualdades. As diferenças entre meninos e meninas existem e isso, por si só, não é um problema. O problema aparece na medida em que as diferenças de socialização entre ambos resultam em desigualdades sociais. Observa-se que ao longo da história, meninas e mulheres têm sido mais vitimadas por essa desigualdade de gênero, concretizada na violência doméstica, sexual, na falta de espaço na esfera pública, nos salários mais baixos: problemas que têm sua raiz na hierarquização das diferenças entre homens e mulheres.

“Com uma educação desigual, os meninos crescem e se tornam homens que acreditam ter mais poder do que as mulheres”

Para o enfrentamento desta realidade, desenvolvemos trabalhos e atividades que, dentro de suas possibilidades, promovem o enfrentamento das violências de gênero sofrida por meninas. Contudo, sabemos que nossa prática contém limitações no sentido de atingir um número substancial de pessoas. Por isso  defendemos que educação deve ser pública, laica e de qualidade, e acima de tudo incorporar, por meio de políticas educacionais, ações que promovam a igualdade entre os gêneros.

Um garoto com cerca de 10 anos carrega um bebê de faz de conta em um sling
Divulgação/Escola de Ser

O curso tem o intuito de trabalhar as relações de gênero dentro dos espaços educativos.

  • Lunetas – O ponto principal aqui é oferecer possibilidades e referências, assim a criança pode de fato escolher o que quer ser. Qual sua opinião sobre isso?

Esse projeto é um convite para que outras instituições e as pessoas se sintam motivadas a trabalhar gênero numa perspectiva lúdica, e tem o objetivo de estimular o pensamento crítico, enfrentar o machismo, as desigualdades e as violências e criar metodologias acessíveis para a promoção da reflexão em atividades dirigidas para crianças e adolescentes entre 6 a 14 anos. Nas duas primeiras edições do curso, tivemos participação de alunas e alunos do Brasil, Inglaterra, Suíça e Portugal.

“Toda atividade que dita um comportamento e reforça algum padrão, seja princesando ou desprincesando, acaba caindo na mesma contradição: construir um novo modelo engessado de comportamento”

Acreditamos que os espaços educativos devem investir na emancipação de meninas e meninos para que desenvolvam pensamento crítico e façam escolhas conscientes no futuro, seja em termos de relacionamento, profissão ou projeto de vida.

“”Desconstruir o estereótipo da princesa submissa e do herói agressivo e dominador são ótimas ideias””

Afinal, é nessa lógica, na qual um gênero se sobrepõe ao outro, que está a base das violências de gênero, das desigualdades salariais e da falta de representatividade das mulheres em cargos políticos e de decisões de interesse coletivo.

A princesa em si não é um problema. O problema são os mecanismos que regem as relações dessa princesa nos contos de fadas, no senso comum, nos produtos da mídia: a submissão, a competição entre mulheres, a dependência do amor romântico, a vida em função do príncipe e o papel passivo sobre sua própria vida

Meninas podem ser cientistas, esportistas, engenheiras, cozinheiras e até princesas. O princípio mais fundamental dos direitos delas deve ser respeitado: a liberdade de serem o que quiserem. Quanto mais experiências enriquecedoras em todas as áreas as crianças tiverem, meninos e meninas, mais chances de ter um desenvolvimento pleno e feliz.

Confira as fotos do projeto e inspire-se:

Resumo

"Princesas de capa e heróis de avental" é um curso criado pela Escola de Ser, de Goiás, para promover a igualdade de gênero na educação de meninos e meninas. A escola foi reconhecida pelo Unicef como pioneira em seu trabalho de desconstrução da desigualdade.
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