Educar inclui sustentar frustrações diante de erros de crianças e adolescentes
O filme “Precisamos Falar” retrata famílias diante da decisão de acobertar ou não um ato infracional cometido por adolescentes e provoca reflexões sobre como educar exige impor limites e lidar com o desconforto diante dos erros dos filhos.
A trama do longa-metragem brasileiro “Precisamos Falar”, que estreou nos cinemas em 24 de setembro e adapta o romance “O Jantar”, do holandês Herman Koch, coloca famílias diante de um dilema ético: até onde os pais são capazes de ir para proteger os filhos? Na história, adolescentes de famílias de classe média alta provocam a morte de uma mulher em situação de rua. Os pais precisam decidir entre revelar a verdade à polícia e tentar poupar os filhos das consequências.
Fora das telas, episódios envolvendo adolescentes e suas famílias também levantam questionamentos sobre os limites dessa proteção. O caso do cão comunitário Orelha, morto após ser agredido na Praia Brava, em Florianópolis, causou comoção nacional em janeiro de 2026. A Polícia Civil de Santa Catarina concluiu que os adolescentes participaram das agressões e indiciou três familiares adultos do grupo por coação a testemunha durante a investigação.
Mas o que significa proteger os filhos? Até que ponto o desejo de poupá-los do sofrimento pode se transformar em tentativa de evitar que respondam por seus atos? Para a educadora parental Lua Barros, essas são perguntas complexas porque o amor pelos filhos pode fazer com que pais e mães “borrem seus valores éticos e morais”.

“Esse é o grande perigo, porque parece que é a partir do que a gente pode fazer depois que o erro é cometido que vai determinar o caminho da verdade. Mas não. Algo já foi feito que magoou outra pessoa, infringiu um combinado, uma regra, uma lei”, diz Lua. “Há uma dificuldade de perceber nossas crianças como indivíduos”, complementa.
Embora seja uma obra de ficção e retrate uma situação extrema, o filme provoca reflexões sobre dilemas éticos bastante reais da criação de filhos, como a dificuldade de mães e pais contemporâneos em sustentar frustrações e limites diante dos erros de crianças e adolescentes. Para Lua Barros, o adulto que deixa de confrontar o filho ainda na infância impede que ele aprenda a lidar com os próprios erros e com a realidade.
“É muito importante que a gente confronte as crianças sobre os erros que cometem e possamos encontrar o tom. Porque eles vão provocar constrangimento e vergonha e nós, enquanto mãe e pai, também vamos ter de lidar com as consequências dos erros dos nossos filhos”, afirma Lua.
Na avaliação da educadora, a busca exagerada por manter os filhos sempre confortáveis, felizes e empoderados pode levá-los a um individualismo extremo, no qual deixam de enxergar o outro.
“É preciso entender que a proteção não significa enclausurar ou encastelar a criança. A proteção significa, inclusive, dar ferramentas para essa criança dar conta do mundo sozinha quando essa mãe ou esse pai não estiverem por perto.” A educadora considera um equívoco da parentalidade atual a ideia de que as crianças de hoje são frágeis e “não podem sentir nada”.
Impor limites exige ensinar desde cedo as regras do convívio social, seja em casa, na escola ou no condomínio onde a criança ou o adolescente vive, demonstrando que o que é correto não tem espaço para negociação, segundo Lua. Para a educadora, entretanto, quanto maior o poder aquisitivo da família, “mais distanciada ela fica das regras que regulam a sociedade. Porque parece que o dinheiro cria outras regras de regulação”.
Para Claudia Alaminos, educadora parental, psicopedagoga e autora do “Manual de sobrevivência para pais de adolescentes”, não é bem assim. Na visão dela, a sensação de impunidade só se desenvolve quando o adolescente percebe que dinheiro, influência e prestígio serão mobilizados para afastar as consequências de seus atos em caso de transgressão. “Se esses recursos são mobilizados de modo que ele se responsabilize, mesmo com esse apoio todo, ele está sendo educado.”

Segundo Claudia, se os pais resolvem repetidamente os conflitos do filho sem exigir que ele reconheça sua responsabilidade, o adolescente pode passar a se preocupar mais com a possibilidade de ser descoberto do que com o impacto do que fez.
“Essa é a justa medida: o adolescente pode receber a ajuda desses privilégios, mas, ainda assim, o foco é a pessoa que sofreu e o impacto de suas atitudes. Não podemos generalizar dizendo que a condição econômica determina os valores de uma família”, pondera.
A educadora frisa que a empatia não é um traço de DNA do ser humano e se constrói a partir do que se ensina. “Não importa em que situação social a gente se encontre. A maneira como os pais respondem a alguma transgressão, a algum erro importante que o adolescente tenha cometido, é o que tem significado educativo. É mostrar que o cuidado com o próprio filho inclui o respeito à verdade, às regras e ao direito de todas as outras pessoas”, finaliza Claudia.