Doença de adulto ou de criança?

Embora menos comuns, algumas doenças, condições ou deficiências de “gente grande” também atingem o público infantil. Saiba quais são elas e como lidar com cada
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 14.04.2022
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Gripe, resfriado, alergias, bronquite, asma, caxumba, sarampo, viroses. A lista de doenças que podem atingir as crianças é enorme, para o desespero dos pais. Porém, grande parte delas, por ter alta incidência no público infantil, é facilmente diagnosticada. Por outro lado, alguns problemas de saúde, menos comuns na primeira infância, também podem atingir os pequenos… Já ouviu falar de alopecia? Daltonismo? Dislipidemia? Criança tem pressão alta? E diabetes? O Lunetas conversou com especialistas para entender a incidência de “doenças de adulto” em crianças. Conhecendo os sintomas, é possível buscar tratamento precoce, quando necessário.

Doença de adulto ou de criança?

  • Alopecia

A alopecia é uma doença autoimune que causa queda anormal dos fios de cabelo e pelos. A pessoa afetada produz anticorpos contra o próprio bulbo capilar, provocando perdas parciais ou totais. Existem vários tipos de alopecia e, no caso das crianças, há uma relação importante com a alimentação. Além de uma má alimentação ou desnutrição, outros fatores envolvem “alterações psicológicas ou psiquiátricas; tração causada por acessórios de cabelo (uso frequente de tiaras, amarradores apertados, laços e piranhas); infecções em geral, verminoses ou contaminação por fungos; alterações da glândula tireoide; ou problemas inflamatórios do tubo digestivo, como a doença de Crohn, que provoca diarreias e consequente perda de nutrientes”, explica Luciano Barsanti, médico e tricologista, Presidente da Sociedade Brasileira de Tricologia e Diretor Médico do Instituto do Cabelo em São Paulo.

Crianças também podem ter doenças psiquiátricas, como a tricotilomania, que consiste no arrancamento dos fios e, eventualmente, a ingestão deles. Doenças raras de origem genética, como as hipotricoses congênitas, também podem provocar perda dos fios. Nesse caso, a criança já nasce sem o bulbo capilar. Luciano comenta ainda que “o lado do apoio da cabeça ao dormir pode afetar o couro do cabelo, especialmente em bebês, provocando um rareamento reversível dos fios. Vale lembrar que, nos primeiros meses, é comum haver troca de cabelo”, esclarece o tricologista.

Embora não existam dados específicos de incidência da alopecia na infância, o médico relata que atende, diariamente, crianças com o problema. A alopecia areata, por exemplo, atinge cerca de 2,1% da população de todas as idades. “Nesse caso, ela pode progredir e ocasionar uma queda generalizada de todos os pelos do corpo”, detalha o médico. “Os pais devem observar se há mudança de textura do fio, afinamento, presença de áreas sem fios ou cabelos no travesseiro, e mesmo se a criança arranca fios”, orienta.

Em caso de suspeita de alopecia, os cuidadores devem buscar um especialista, que fará os exames clínicos e tricológicos para identificar o problema. Vale ressaltar que a alopecia, especificamente, pode afetar a saúde emocional da criança. Por isso, muitas vezes, o tratamento precisa ser multidisciplinar, envolvendo médico, tricologista, psiquiatra, psicólogo, endocrinologista e outros profissionais.

  • Daltonismo

O daltonismo é um distúrbio que provoca alteração na percepção das cores, especialmente do verde, vermelho e, em menor número, do azul e amarelo. Enquanto uma pessoa com visão normal consegue identificar até 150 cores diferentes, o daltônico não diferencia tantas variedades. Em alguns casos, pode ocorrer o que os especialistas chamam de visão acromática, quando a pessoa só enxerga tons de preto, branco e cinza.

Por ter causas genéticas bem claras, geralmente a deficiência é identificada com mais facilidade. O daltonismo afeta, em sua maioria, os meninos, pois a mutação genética ocorre no cromossomo sexual X. “A incidência em meninas é de meio por cento, enquanto nos garotos esse índice é de 8%”, explica a oftalmopediatra Rosa Maria Graziano. A especialista diz que podem acontecer casos de crianças daltônicas, sem pais daltônicos, apesar de raros. “Geralmente a pessoa com daltonismo tem casos na família”, diz. Outras doenças, como problemas na mácula, catarata, hemorragia vítrea e inflamações do nervo óptico, também podem provocar alteração na percepção das cores, mas são exceções. 

Não existe tratamento para o daltonismo, mas mudanças no estilo de vida podem ajudar a lidar com o problema. “Nós sugerimos sempre adaptar a criança no dia a dia, orientando-a na diferenciação do sinal verde do vermelho no semáforo pelo formato do bonequinho que aparece, ou numerar os lápis para saber a cor que eles são”, exemplifica. Sobre óculos que prometem ajudar pessoas com daltonismo, a médica explica que esses acessórios apenas melhoram o contraste das cores que a criança já vê. 

  • Vitiligo

O vitiligo é uma doença autoimune que ocorre quando há destruição dos chamados melanócitos, e consequentemente, da melanina, que é responsável pela pigmentação da pele, provocando manchas. Existe um componente genético importante, mas fatores emocionais também podem estar envolvidos. O vitiligo atinge de 0,5 a 4% da população mundial. Cerca de 50% dos casos começam antes dos 20 anos de idade e 25% antes dos 10 anos (Fonte: National Library of Medicine).

As manchas são a principal característica da doença, e podem começar a aparecer no couro cabeludo, cílios e sobrancelhas, por exemplo. Embora não seja contagiosa, ainda existe um estigma envolvendo a doença. Por isso, o tratamento passa por acompanhamento psicológico, especialmente no caso das crianças. Entre as formas de tratar, há cremes, medicamentos e terapia a laser, que visam estacionar a doença ou mesmo devolver a pigmentação em algumas áreas. 

  • Dislipidemias 

O nome é estranho, mas a condição é mais comum do que se imagina. Trata-se de um distúrbio que ocorre quando há desequilíbrio no nível de gordura no sangue, especialmente do colesterol e triglicérides. “Elas podem ser causadas por um defeito no metabolismo lipídico de caráter hereditário ou por doenças crônicas, medicações e estilo de vida inadequados”, explica a pediatra Fernanda Morando Franco.

Geralmente, o diagnóstico é feito através de exames. Raramente há sintomas, mas pode ocorrer o que os especialistas chamam de xantelasma (surgimento de uma bolsa de gordura na região das pálpebras). Também pode se tratar de um caso de hipercolesterolemia familiar, doença genética que promove uma elevação no colesterol e pode levar à morte prematura por problemas cardiovasculares. 

  • Hipertensão arterial

A hipertensão também pode atingir as crianças. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, ela ocorre quando, em pelo menos três medições distintas, há aumento de pressão arterial igual ou superior a 95, comparado a valores normais observados em crianças e adolescentes de mesma idade, sexo e altura. “Habitualmente, crianças e adolescentes hipertensos são assintomáticos. Em alguns casos, podem ocorrer sintomas, como cefaleia, irritabilidade, alterações de sono, dor torácica, sangue na urina, edema ou cansaço excessivo”, explica a pediatra.

A recomendação da Academia Americana de Pediatria é que, a partir dos três anos de idade, a aferição da pressão arterial seja parte do exame físico pediátrico, ao menos uma vez ao ano. 

  • Diabetes

A diabetes acontece quando o organismo não produz o hormônio insulina ou não consegue empregar adequadamente a insulina que produz. Essa alteração irá causar um aumento da glicose no sangue, chamado hiperglicemia. “O tipo de diabetes mais comum na infância é o tipo 1, porém em adolescentes tem sido cada vez mais frequente o diagnóstico do diabetes tipo 2, como complicação de quadros de obesidade iniciados na infância”, afirma Fernanda. Geralmente, os sintomas em crianças incluem muita sede e fome, perda de peso e aumento da frequência e quantidade de urina. 

  • Obesidade

Há alguns anos, a obesidade não era tão comum em crianças como atualmente. Ela ocorre quando há um acúmulo anormal ou excessivo de gordura no corpo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Os fatores genéticos e ambientais são importantes causas da condição. Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que 3,1 milhões de crianças brasileiras abaixo de 10 anos apresentam obesidade

“O impacto da obesidade na infância e ao longo da adolescência é o maior risco de doenças cardiovasculares, metabólicas, ortopédicas, além de alterações de comportamento e saúde mental”, explica Fernanda.

Saúde de criança é coisa séria

“Muitas doenças que, no passado, eram observadas em adultos, estão se tornando cada vez mais prevalentes na população pediátrica. As doenças com maior relevância, nesse contexto, são as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como obesidade, hipertensão e diabetes, que impactam mais da metade da população brasileira”, comenta a pediatra Fernanda. Como grande parte dos fármacos não tem liberação para crianças pequenas ou adolescentes, o melhor tratamento para doenças de “adulto” em crianças ainda é a prevenção com bons hábitos, como a adoção de alimentação saudável e a prática de atividades físicas.

Inclusão na área da saúde por meio da linguagem

O “Guia linguagem importa!”, lançado por instituições e lideranças do setor público, privado e terceiro setor, visa esclarecer dúvidas e sugerir formas mais inclusivas e acolhedoras para tratar condições médicas, desincentivando termos como “obeso”, “portador”, “paciente” ou “diabético” que, além de não serem tão precisos, podem estigmatizar quem tem essas condições.

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Resumo

Existem muitas doenças que afetam as crianças, mas, por não serem comuns na infância, podem não ser percebidas, de imediato. Por isso, o Lunetas conversou com especialistas para esclarecer quais são elas e como proceder em cada caso.
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