As crianças da umbanda na terra do “Quebra”

Famílias e crianças iniciadas na umbanda são símbolo de resistência ao episódio de intolerância religiosa “Quebra de Xangô”, de 1912, que ainda ecoa em Maceió
Arquivo pessoal/arte Lunetas
  • Publicado em: 18.03.2021
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Danças, cânticos e o batuque enérgico que vinha das mãos dos homens mais velhos. Um espaço grande, parede alta, verde, muito verde. Era a primeira vez de Neto num terreiro de umbanda. Aquele instrumento que chegou ao Brasil pelos escravos africanos dava o tom ao ritual sagrado e encantou o menino de oito anos — o atabaque passou a ser a sua ligação com as divindades. As mãozinhas pequenas se puseram a tocar e encantar todos os que estavam presentes. Começava ali uma jornada de fé e autoconhecimento. “O menino nasceu com a missão”, diziam eles.

“Eu toco atabaque, ajudo nas limpezas, tomo banho de ervas, peço a benção. Já participei de todas as deitadas. Eu gosto muito da minha religião e me sinto bem quando estou no terreiro”, conta Neto, hoje com 12 anos.

“Participar do terreiro é como participar de uma escola”, diz.

A pedagoga Ana Paula Ramos, mãe do Neto e médium de assistência do terreiro Aldeia dos Orixás, localizado no bairro de Ponta Grossa, em Maceió (AL), recomenda a umbanda como ambiente de formação, construção de valores e compreensão de mundo. 

“A umbanda resgata nossas histórias e origens”

“Os pais não precisam ter receio de deixar o seu filho em um terreiro porque ali ele vai adquirir e construir valores fundamentais para a formação humana e para uma boa vivência social”, defende Ana Paula.

Arquivo pessoal

Neto, 12, participa da umbanda desde os oito anos de idade: “Eu gosto muito da minha religião e me sinto bem quando estou no terreiro”

O terreiro como espaço de aprendizado

O primeiro ensinamento que uma criança recebe dentro de um terreiro é o próprio “modo de aprender”. A afirmação é de Paulo Victor de Oliveira, mestre em sociologia e membro do terreiro Axé Pratagy, localizado no bairro Riacho Doce, também na capital alagoana. “Um aprendizado que se dá na convivência e no engajamento prático, que não inclui apenas crenças e liturgias, mas, sobretudo, os valores comunitários que serão a base para a prática da religião”, explica.

Na convivência das crianças existem aprendizados específicos, como os cânticos, as danças, os ritmos e a linguagem que mescla português e idiomas falados no continente africano. São formas únicas de aprendizado, saberes passados de geração a geração, muitas vezes apoiados na oralidade, diferente do que é ensinado nas apostilas da escola tradicional ocidental. “É um aprendizado baseado na convivência e na prática, e não no discurso”, reitera.  

“As crianças aprendem a vivência comunitária da ‘diferença’ e a percepção da experiência de aquilombamento”

O especialista explica que “aquilombamento” é um conceito criado pelo ator, diretor, dramaturgo e militante da luta contra a discriminação racial e pela valorização da cultura negra, Abdias do Nascimento. “Quilombo quer dizer reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial. Certamente nós não estamos seguros dentro dos terreiros, mas eles são os espaços onde podemos nos reunir em torno dos nossos próprios valores”, elucida. 

Oliveira ainda reitera que nem todas as crianças que participam dos terreiros estão cumprindo deveres religiosos na condição de membro iniciado na religião. Na maioria das vezes, elas estão acompanhadas por seus familiares. “É importante frisar isso, porque a convivência de uma criança no terreiro não implica um laço religioso compulsório assumido para ela por seus pais”, destaca. 

‘Era como se eu não fosse bem-vinda’

Gabriela, 13, filha de Oxum, iniciou-se na umbanda aos oito anos, quando começou a frequentar o templo de umbanda Cabocla Jurema e Caboclo Ubirajara, localizado no bairro Novo Mundo, em Maceió. Ao ser perguntada como ela resume a umbanda, as palavras escolhidas são esperança e amor. Mais do que isso, a menina encara a religião como uma missão. 

Mas, se dentro do templo ela tem a sensação de pertencimento, fora dele já viveu momentos difíceis de lembrar. “Quando eu ia de turbante para a escola, eu sofria alguns preconceitos. Até a diretora perguntou para a minha mãe porque eu estava de turbante”, conta a menina, que na época estava cumprindo os preceitos da iniciação em sua religião. Por conta disso, precisava usar turbante para proteger o ori (“cabeça”, em iorubá, que precisa ficar protegida pelo turbante por estar raspada). “Alguns colegas ficavam me chamando de ‘macumbeira’, de ‘bruxa’. Foi bem desconfortável”, relembra.

Gabriela conta que, no início, ficava triste e que não conseguia se sentir segura no lugar em que estava. 

“Era como se as pessoas no local não me aceitassem, como se eu não fosse bem-vinda”

“Durante esse processo, alguns amigos ficaram do meu lado, professores também conversaram com os alunos que estavam fazendo isso”, pondera. 

As lembranças são dolorosas e as marcas ficam para além da pele. Gabriela diz que já sabe “se defender”. “Era uma coisa que me abalava muito, mas não é algo que me deixa triste porque aprendi a lidar com isso e sei que não estou fazendo nada de errado”, destaca. 

Ana Paula também revela que, para o filho não sofrer preconceito, protege o menino tomando algumas medidas. Uma delas é a de revelar para poucas pessoas a sua religião. Neto frequenta o terreiro, embora ele não tenha passado por nenhum episódio de intolerância religiosa. “Para as demais pessoas, para a vizinhança e para os amigos não é um processo natural ter uma criança dentro da umbanda. Esse preconceito se manifesta de uma forma agressiva muito forte, por isso não divulgamos o processo mediúnico do Neto”, revela. 

O “Quebra”

A intolerância religiosa que Gabriela experienciou e o medo de agressões ao filho que Ana Paula vive infelizmente são marcas em Alagoas e estão presentes na história local. Antes do Estado tornar-se independente de Pernambuco, a cidade de Penedo e Porto Calvo tiveram casos que envolveram o poder público ordenando ataques aos povos de santo, conhecidos como os “quebras”: um no terreiro de Salvador Pacheco e outro no terreiro de Joana, em 1757 e 1800, respectivamente. Em 1817, o Estado de Alagoas criou sua própria legislação e, nela, incluiu uma lei em que proibia os “batuques”, isto é, qualquer manifestação religiosa dos povos de santo. 

Dentre outras expressões de violência, foi escolhido o episódio popularmente conhecido como “Quebra de Xangô”, que aconteceu em 2 de fevereiro de 1912, na capital alagoana — um marco na luta contra a intolerância religiosa. Nesse dia, veteranos de guerra e políticos que faziam oposição ao governador à época, Euclides Malta, que tinha forte ligação com os terreiros, perseguiram praticantes das religiões de matriz africana. 

O “Quebra” culminou na destruição de todas as casas de culto afro-brasileiro existentes em Maceió. Os terreiros foram invadidos, os objetos sagrados retirados dos templos e queimados em praça pública. Os pais e as mães de santo foram espancados publicamente. Nesse mesmo período, o movimento que se iniciava na capital se estendeu pelo interior de Alagoas. 

No dia fatídico, babalorixás e yalorixás sofreram a invasão de uma milícia armada intitulada como Liga dos Republicanos Combatentes — entidade que era responsável por cometer atos ilegais, como invasão a casas oficiais, tiroteio e intimidação. A associação comandada por civis estava vinculada ao partido opositor Republicano Democrata. 

Os resquícios do “Quebra de Xangô”

De acordo com os dados da Comissão de Promoção da Igualdade Social da Ordem dos Advogados do Brasil analisados pela Agência Tatu de jornalismo de dados, as denúncias contra crimes de intolerância religiosa no estado caíram 70%, em 2020. Já no ano de 2019 foram registradas 10 denúncias. Ao todo, entre os anos de 2019 e 2020, 13 denúncias são de crimes de intolerância que foram praticados contra os religiosos de matriz africana.  

Ao passo que, ao comparar os dados da Comissão da OAB/AL com os dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Governo Federal nos últimos dez anos, o número de denúncias de intolerância religiosa em Alagoas, no ano de 2019, é dez vezes maior em comparação ao ano anterior.

A Lei de nº 9.459/1997 classifica a intolerância religiosa como prática ilegal e inconstitucional considerada crime, com pena de um a três anos de reclusão, bem como o pagamento de multa. Já no artigo 208 do Decreto Lei nº 2.848 de 07 de dezembro de 1940, do Código Penal Brasileiro: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa. Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência”. 

A Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB/AL explica que essa diminuição pode ter um reflexo no fechamento das casas de santo durante a pandemia de covid-19. “A diminuição desses casos se deu principalmente em função do silêncio dos tambores da religiosidade afro-brasileira, a tal ponto que já estamos aguardando a formalização de duas denúncias entre janeiro e fevereiro voltadas à questão do culto afro-brasileiro. Isso demonstra exatamente que essa perseguição religiosa continua”, explica Alberto Jorge, membro da comissão.

Em dezembro do ano passado, foi aprovada na Assembléia Legislativa de Alagoas uma delegacia especializada em apurar crimes contra os vulneráveis, incluindo o povo da religiosidade afro-brasileira.

Art. 1º da Lei nº 8364
“Fica instituída a Delegacia Especial dos Crimes Contra Vulneráveis da Capital, pertencente à estrutura da Polícia Civil do Estado de Alagoas – PC/AL, órgão integrante do Sistema de Segurança Pública com a competência para investigar os crimes cometidos contra os grupos vulneráveis, dentre outros: idosos, adeptos de religiões de matriz africana, pessoas com deficiências, quilombolas, população em situação de rua, negros, ciganos, índios, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e congêneres, em virtude desta condição”.  

Para continuar existindo (e resistindo) a mãe de santo Iyá Bossüdãn, do templo Ilê Axé Omin Odaraydãn, localizado no Village Campestre, parte alta de Maceió, chama a atenção para as crianças. “A grande importância é a doutrina, o respeito à educação e a aproximação com o nosso sagrado orixá”, comenta.

“A criança é muito importante na casa de candomblé porque ela é o nosso futuro”

Para ela, os pequenos são sinônimo de resistência da cultura e trazem a possibilidade dos saberes serem passados entre gerações. “Podemos continuar com a nossa nossa luta de anos contra a intolerância e transmitir ao próximo esse axé chamado religião de matriz africana. As crianças são a resistência do Xangô Rezado Alto”, finaliza. 

Xangô Rezado Alto

O Xangô Rezado Alto celebra a memória do episódio do “Quebra” dos terreiros, recupera esse passado e reivindica da população alagoana e dos poderes públicos atenção o compromisso com as causas das populações afrodescendentes. A denominação Xangô Rezado Alto nasce da resistência: para que nunca mais em Alagoas as comunidades afrorreligiosas se sintam intimidadas ou envergonhadas de professar sua religião, que é um grande e reconhecido contributo para a formação da cultura alagoana.


Fonte: Secretaria Especial de Cultura

Resumo

Em Maceió (AL), um episódio de intolerância religiosa conhecido como “Quebra de Xangô”, em 1912, ainda afeta a realidade das crianças iniciadas nas religiões de matriz africana. Elas são sinônimos de resistência e esperança para manterem viva a herança cultural.
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